Meu Bairro

Sossegada que só ela

Graças é reduto de tranquilidade em meio ao burburinho urbano. Quem apresenta o bairro é a professora de ioga Maristela Lupe

Daniela Freire
Daniela Freire
Publicado em 07/05/2012 às 15:37
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Maristela adora acordar com o badalo dos sinos da Igreja das Graças, que ainda realiza quermese - Bobby Fabisak/JC Imagem
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Casarões enfeitam a paisagem do bairro - Igo Bione/JC Imagem
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Maristela diz que tudo que precisa nas Graças resolve a pé - Igo Bione/JC Imagem
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Na bucólica Rua Joaquim Nabuco fica o casarão onde nasceu o poeta Manuel Bandeira - Bobby Fabisak/JC Imagem
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Casa dos Frios é um dos ícones do bairro de vida sossegada - Igo Bione/JC Imagem
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Jardins floridos são uma das atrações do bairro - Igo Bione/JC Imagem

"Um respiro no coração do Recife”. É assim que a professora de ioga Maristela Lupe define o charmoso bairro das Graças. Ela, que mora na área há oito anos, tem razão. Com um dos maiores índices de qualidade de vida da cidade, a simpática vizinhança ainda preserva hábitos interioranos ao mesmo tempo em que se destaca pela rede de serviços de saúde, educação e gastronomia.

Margeado pelas águas do Rio Capibaribe, o bairro das Graças é todo poesia. Dos nomes das ruas à tranquilidade das crianças que brincam em frente à igreja, tudo parece funcionar em outro ritmo. E é assim, caminhando em passo desacelerado que os pais deixam os filhos na escola, fazem a feira no mercadinho, montam quermesse e papeiam despretensiosamente na calçada com o vizinho.

Foi por esse descompasso com a velocidade que toda metrópole tem por natureza que Maristela escolheu o bairro para viver. Ela mora em frente ao trabalho, acorda com as badaladas do sino da matriz e não abre mão de fazer tudo a pé. “São duas Graças dentro de uma só. De um lado, você tem a calma que só se encontra no interior, do outro, a modernidade e todas as facilidades de um grande centro urbano. Ambas convivem em harmonia, talvez venha daí esse clima sereno que faz do bairro único”, analisa.

De fato, quem mora por lá pode mesmo se considerar privilegiado. Posicionado em lugar estratégico da Zona Norte, com colégios tão tradicionais quanto o próprio bairro e restaurantes sofisticados, as Graças tem hoje um dos metros quadrados mais valorizados do Recife. Tanta especulação imobiliária, porém, tem um preço. Rapidamente as casas estão dando lugar a prédios altíssimos e as ruas vão trocando os paralelepípedos por asfalto.

“É engraçado que mesmo com essa verticalização o bairro ainda continue muito familiar. A paisagem vai se transformando, o que é uma pena. No entanto a essência permanece e acho que não vai se perder. Quem escolhe as Graças para viver gosta desse sossego e quer mantê-lo.”

Mesmo crescendo vertiginosamente, o bairro ainda preserva alguns cartões-postais da época em que prédios altos eram os de quatro andares. A Rua Joaquim Nabuco e suas casinhas coloridas que abrigam ateliês, cafeterias e escritórios; a Ponte da Capunga, que liga as Graças à Madalena; o baobá secular que já virou referência, na Rua Madre Loyola; a antiga estação de trem e o Museu do Estado, na Avenida Rui Barbosa, e o casarão onde nasceu o poeta Manoel Bandeira, que hoje abriga um restaurante.

Outro símbolo bastante conhecido do bairro é a Igreja das Graças, que fica na rua de mesmo nome. Maristela conta que adora ver os casamentos pela janela de seu apartamento e acompanhar a movimentação na época de quermesse. Vira uma festa só.

“Todos esses lugares contam muito da história daqui. Um passado distante, mas que de alguma forma ainda se mostra muito forte e presente no dia a dia de quem é morador. Dá uma identidade, cria um vínculo e isso é muito importante.”

ORIGEM

Na contramão da maioria dos bairros recifenses, as Graças não surgiu dos engenhos de açúcar, mas dos loteamentos desenvolvidos no século 19. Eles pertenciam à Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Recife e ficavam na área que hoje compreende a Rua das Pernambucanas e a Av. Rui Barbosa.

A Capunga Velha e a Capunga Nova, como ficaram conhecidos, serviram de moradia para algumas das mais seletas famílias da época, tanto pelo clima ameno quanto pela possibilidade dos banhos de rio. Em 1872 estava registrada a freguesia das Graças, com 4.511 moradores.

Hoje, a população e as dimensões territoriais são bem mais expressivas. Segundo a Prefeitura do Recife, são 16.877 habitantes numa área de 148,8 hectares, limitados pelos bairros do Derby, Madalena, Torre, Aflitos e Espinheiro. Algumas ruas, entretanto, ainda mantêm o nome de origem. Jacobina, Quatro Cantos, Baixa Verde, Creoulas, Jacinto, Pernambucanas, Amizade e Graças, por exemplo.

Maristela conta que em oito anos as Graças modificou-se bastante, principalmente nos últimos tempos. A chegada de uma faculdade particular deixou o trânsito mais complicado, aumentou o fluxo de gente circulando pela região e agitou um tanto quanto a vida por lá. Mas nem isso fez com que a professora de ioga alterasse sua rotina.

O dia começa cedo, “um pouco antes das badalas dos sinos”, e segue com as aulas de ioga na Sádhana, escola que mantém com o marido. Quando falta algo em casa, vai até a Rua da Amizade, no armazém Especiarias do Campo, de dona Maria, ou liga pedindo os produtos de que está precisando.“Lá tem de tudo, é uma quitanda mesmo. É como no interior, as compras vão todas para o caderninho. Final da semana, a gente acerta. Gosto de morar em um lugar que ainda tem disso.”

Se precisa de médico, existe uma variedade de especialistas na Rua das Pernambucanas. “Consultório e salão de beleza é o que não falta por aqui”, diz sorrindo Maristela, que reserva os sábados para tomar café na Casa dos Frios com a família e os amigos. O programa está entre os preferidos dela e é feito a pé, é claro.

Quando o calor aperta, vai até a sorveteria Santo Doce, na Rua do Futuro, que recomenda. “Minha família tem um estilo de vida tranquilo, mais prático e menos estressante. Dentro do possível, tentamos que nossos afazeres possam ser resolvidos por aqui.”

E o gosto pelas Graças parece atravessar gerações. A filha mais velha dela casou, saiu de casa, mas não foi para muito longe. Continuou morando no bairro que a mãe escolheu para viver. “O amor é tanto que moro no bairro das Graças, na Rua das Graças e em um prédio que só podia ter Graças no nome. Melhor lugar não há”, declara a apaixonada professora.

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