Música

Os Reis da Cubana

Há 21 anos, Edinho Jacaré e Valdir Português mandam ver nas noites cubanas

Rachel Motta
Rachel Motta
Publicado em 03/03/2013 às 9:00
Felipe Ribeiro/JC Imagem
Há 21 anos, Edinho Jacaré e Valdir Português mandam ver nas noites cubanas - FOTO: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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Enquanto houver vida para Edinho Jacaré, 69 anos, e Valdir Português, 68, ela será dedicada para a música cubana. Mais que um hobby, eles mantém com o gênero musical um verdadeiro caso de amor, que uniu a dupla famosa das noites cubanas nos clubes do Recife, em especial o Bela Vista, em Beberibe. Foi lá que nasceu a parceria dos dois, no dia 2 de janeiro de 1992, com a criação da manhã de sol no Clube.

Os dois se conheceram em 1991 em uma feira de troca-troca lá mesmo em Beberibe, quando descobriram a paixão em comum pelo estilo musical e o imenso acervo de LPs que cada um dispunha. Dali para a formação da dupla foi um pulo. Inicialmente, a intenção era apenas criar a programação da manhã de sol do Bela Vista e, claro, compartilhar a rara e extensa coleção de vinis.

No começo, Valdir Português parecia não levar a história muito a sério. “Insisti muito e tive medo de que ele não quisesse fazer”, lembra Edinho, que não se considera um discotecário, embora tenha atuado por mais de 15 anos na função. Intitula-se apresentador, uma espécie de anfitrião da festa. “A área de microfone é de Edinho. Ele recebe os visitantes e faz a apresentação”, interrompe Valdir, que é DJ há 35 anos, sendo considerado o mais velho em atividade no Recife.

A ele, Valdir, cabe a programação em si. No repertório, muitas músicas calientes. Não apenas cubanas, vale salientar. Há espaço para salsa, bolero, cúmbia, chorinho, guaracha, guaguancó, pregón, enfim, músicas para se dançar agarradinho como nos bons e velhos salões de gafieira.

Conversando com Valdir e Edinho não há muito espaço para o saudosismo. Eles são, quiçá, mais felizes e realizados hoje. É que tiveram que driblar muito preconceito até conseguir que a música cubana fosse bem aceita pela sociedade pernambucana. “Foi uma guerra tocar a música cubana nos clubes”, lembra Edinho. Para os parceiros, música, seja qual for sua origem, é sempre uma representação cultural. “Não se pode censurar. Os cubanos, por exemplo, gostam muito de samba”, analisa Valdir.

Se hoje é cultuado, nos anos 70 e 80, segundo os DJs da Noite Cubana do Bela Vista, o gênero era discriminado no Recife. “Não era uma música social. Diziam que era de maloqueiro e ainda nos criticavam porque achavam que gostávamos do comunismo de Fidel (Castro), quando na realidade a gente sempre gostou foi da música. Não tínhamos interesse pela política daquele país”, recorda Edinho. Este era o motivo de as canções cubanas não serem tocadas nos grandes clubes, embora nos anos 50 pudessem ser ouvidas em clubes pequenos e de periferia.

“A camada alta (da sociedade) a gente atingiu agora. Só hoje eles estão curtindo as festas cubanas”, completa Edinho. A dupla foi também homenageada na música Bela Vista, da Academia da Berlinda, mostrando que a turma jovem está muito sintonizada com os donos das noites cubanas. Os dois dizem com orgulho que costumam receber também frequentadores de vários lugares do Brasil e do mundo, como Venezuela, Coreia, África, Japão e até mesmo de Cuba.

Aliás, um momento marcante foi em 2008, quando fizeram a noite do Caribe com 65 integrantes da caravana do Buena Vista Social Club em uma noite histórica e inesquecível para eles. O maior sonho de Valdir e Edinho, que nunca saíram do País, é conhecer Cuba. “Um dia a gente ainda vai. Sabemos que é um país pobre, mas está melhorando. Foi o que nos disse um cubano. Quero conhecer as casas de festa. Ver a noitada de Cuba como é. Tenho um amigo que mora em Santiago de Cuba”, planeja Edinho. O apresentador diz ainda que não foi antes porque não vai deixar a programação na mão de quem não sabe fazer. “Ninguém é insubstituível, mas tocar música como a gente toca não é pra todo mundo”, reflete Valdir.

Se há algo de que eles sentem falta são mais espaços para os casais dançarem juntinho. As gafieiras estão sendo abandonadas. “As noites cubanas tapam a lacuna, mas faltam lugares para dançar agarradinho. Praticamente acabaram com a música de salão”, lamenta Edinho.

A dupla já se apresentou em quase todos os clubes do Recife. Toca todo o primeiro e terceiro domingo do mês no Clube Bela Vista e tem show agendado para o Clube Santa Cruz, dia 24 , às 17h. Sonham com uma agenda no Clube Português e na Chevrolet Hall, onde nunca se apresentaram.

As esposas deles costumam acompanhá-los nas festas. Rozilda e Valdete, respectivamente, mulheres de Valdir e Edinho. O primeiro não teve filhos. Já o segundo é adepto de família grande e tem nada menos que 17 rebentos, sendo o mais novo, com 32 anos, Erivelton, percussionista de uma banda de pagode. O único a ter a música como paixão assim como o pai. Edinho explica que os filhos não costumam ir às festas. “Cada um tem a sua vida e alguns são evangélicos”, confidencia.

Além da paixão pela música cubana, dividem outro amor inquestionável, o futebol e a torcida pelo Santinha. Aliás, Edinho é funcionário do clube do Arruda há 36 anos. A relação dele com o Santa Cruz vai muito além do trabalho, é guiada pelo coração. Aliás, no clube, além de ferreiro, ele é considerado um ícone. Não há quem não conheça Edinho, que distribui sorrisos e muita simpatia. Fica até difícil saber do que mais ele tem orgulho: se da música ou do Santa.

Assim como a paixão pelo futebol veio da infância, a música também apareceu bem cedo na vida deles. Valdir conheceu a música cubana aos 12 anos, quando morava num alto do Recife e, do outro lado do morro, ouvia alguém tocar as músicas bonitas. Valdir lembra que não era fácil conseguir música cubana. “É que não vendia em todo canto. Quem tinha não dava, emprestava nem vendia. Quando vi um disco de Carlos Argentino em Casa Amarela, comprei no mesmo dia”, diverte-se. Um programa da Rádio Jornal com Walter Lins também ajudou a aumentar a coleção. “Fazia inscrição, pegava cupom e trocava por disco. Participava das promoções. Se conhecia amigos que vinham do exterior, pedia pra trazerem”, recorda. Hoje, fez um cartão de crédito internacional só para comprar música pela web. O acervo é de mais de 20 mil músicas e mil CDs.

Hoje, não usam mais LPs, embora ainda tenham muitos em casa para o lazer. O ciúme dos vinis é grande. Na primeira vez que tocaram no Bela Vista, Seu Marcos, proprietário do clube, teria pedido que não levassem disco arranhado, velho nem estragado, porque o espaço era muito bonito e tudo tinha que ser perfeito. Ao chegar lá, a dupla pediu para ver o estado da vitrola, porque não ia rodar os vinis novinhos e ainda com papel lacrado em toca-disco velho. A partir dali, Seu Marcos e a dupla souberam que a parceria daria muito certo. Mesmo dispensando os vinis, Valdir não aderiu ao computador. “A facilidade é grande, mas não dá pra fazer o revezamento das músicas”, revela.

Valdir, que no começo se mostrou receoso, hoje não troca Edinho por nada. “Comecei com ele, enfrentamos dificuldades juntos. Pra que vou mudar? Nem quero tocar outro estilo. Quero fazer a programação certa e bonita. Faço por amor. Não é pra comprar carro nem casa.” Os dois, inseparáveis, são uma lição de vida, de amor à música, dedicação e uma prova de que acreditar em sonhos é sempre fundamental.

Confira a música Bela Vista, da Academia da Berlinda, em homenagem aos DJs.

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