Caçarolas

O Bode Dourado já não berra mais

Restaurante decano leva consigo um pedaço do Recife

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 05/04/2013 às 11:00
Bernardo Soares/JC Imagem
Restaurante decano leva consigo um pedaço do Recife - FOTO: Bernardo Soares/JC Imagem
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Foi um furo danado. Daqueles. Mais que jornalístico, um furo sentimental. Só descobri quando, ontem, li o blog do compatriota Xico Sá na Folha de S.Paulo. O homem que emoldurou a jaca, nosso arguto menestrel das caatingas, urbanas e sentimentais, anunciou: "É com pesar que escrevo sobre o fim do Bode Dourado, também conhecido como O Cabeça Branca, ponto de encontro de velhos amigos & novos amores na Encruzilhada, o jardim dos caminhos que se bifurcam no Recife ou Hellcife – só para lembrar que nesse caso o inferno são os especuladores imobiliários mesmo!"

Xico, meu caro, não posso fazer outra coisa, além de abortar uma meia lágrima e meia, e subscrever suas palavras: "Quando um bar, um bar-restaurante, um cabaré gostosinho, um banco de praça, uma esquina qualquer desaparece, não deixa de ser uma tentativa de fazer uma queima de arquivo".

Quando a cidade desaparece, morremos todos um pouco. O bar, o botequim, tanto quanto a porta da igreja e a praça, cada vez mais exígua, são a extensão da casa. A continuação do lar. Onde sabemos do futebol, maldizemos a política, projetamos filmes que nunca filmaremos. Onde construímos afetividades eletivas e coletivas.

No Rio, a prefeitura apoia a edição de um guia listando, incentivando e patrimonializando os botequins com a alma carioca. Paris tem lá seus mecanismos para manter seus bistrôs. Portugal tem devoção por suas tascas. Que me perdoem os evolucionistas, mas o Recife verticalizado que fecha restaurantes decanos e empurra para os subúrbios a gente dos bairros cada vez mais nobres, é ingrato com casas como o Bode Dourado que ajudaram a dar áurea à cidade.

O Bode Dourado vai fazer falta. E não só porque ali se comia o contraste em perfeição, aquele bode incrivelmente crocante por fora e macio por dentro. Mas porque, debaixo daquela marquise dos anos 50, na frente do Mercado da Encruzilhada, o Recife parecia se parecer mais consigo.

Devia haver alguma lei proibindo que José Edvaldo Mota, o figurão Cabeça Branca, fechasse as portas. Não há. Diana Moura vai ter que encontrar outro lugar para comer o "melhor sarapatel de bode do mundo". Meus sentimentos, João Valadares. Não tem mais bode. E o Recife vai deixando de ser a cidade que um dia parecia eterna.

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