OUTUBRO ROSA

Mulheres falam sobre a luta contra o câncer de mama

Este mês é dedicado à conscientização sobre o câncer de mama e a importância do diagnóstico precoce da doença

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 11/10/2014 às 13:44
Hélia Scheppa/JC Imagem
Este mês é dedicado à conscientização sobre o câncer de mama e a importância do diagnóstico precoce da doença - FOTO: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Era só uma ida trivial a um shopping da Zona Sul do Recife, se não fosse um quiosque que desviou meus olhos de qualquer vitrine. Nele, quatro mulheres da Associação de Assistência às Mulheres com Câncer de Mama de Pernambuco divulgavam o Outubro Rosa, movimento mundial que ganhou força por alertar para o câncer que, só neste ano, deve pegar de surpresa mais de 57 mil brasileiras. O quarteto ganhou a minha simpatia porque, mais do que promover a conscientização sobre a doença, conquistou o público do centro de compras com lindas histórias de quem viu o carcinoma como um intruso passageiro que seria aniquilado, e não como uma sentença de morte. 

Voluntária da associação, a empresária Juliana Sarubbo, 39 anos, encheu os olhos de emoção ao me contar como conseguiu expulsar qualquer sentimento negativo ao receber a notícia de que precisaria enfrentar, no auge da vida, aos 36, um tumor que poderia se tornar uma ameaça à essência da feminilidade. “Ao receber o diagnóstico, fiquei abalada. Mas não vivi um pesadelo. Acredito que a forma como a médica me contou foi essencial para lutar contra a doença.”

A partir do momento em que passou a ter conhecimento do tumor, ela relata que teve a chance de escolher um dos dois caminhos que vieram à mente. “O primeiro era me revoltar, me deprimir e querer saber por que o câncer de mama me escolheu tão jovem. A segunda era encarar a caminhada com o máximo de otimismo possível.” 

Certamente, optar por ser mais forte que a doença foi essencial para ajudar Juliana e os médicos a expulsarem os quatro nódulos alojados no seio direito. Em todas as fases do tratamento, ela só pensava nas filhas de 3 e 5 anos. “Não passou pela minha cabeça desistir pelo simples fato de que não poderia deixar de ver o crescimento delas. Sempre acreditei na máxima de que as coisas acontecem quando têm que acontecer e, por isso, devemos encarar a realidade com perseverança.”

A batalha de Juliana contra uma doença que ainda hoje intriga a medicina foi grande. Ela fez mastectomia (retirada das mamas) e esvaziamento axilar (retirou 34 gânglios linfáticos da axila que já estavam comprometidos pelo câncer), colocou um expansor para fazer reconstrução mamária, passou por seis sessões de quimioterapia, perdeu os fios de cabelo, encarou 28 dias de radioterapia e uma segunda cirurgia para a reconstrução definitiva da mama. 

“Hoje faço a hormonioterapia e fisioterapia, além de exames periódicos”, conta a empresária, cujo caminho contra o tumor a fez descobrir uma força que ela jamais imaginava ter. Agora, quando tudo é só uma lembrança para Juliana, a principal meta dela é apoiar outras mulheres com a doença. “Se, com o meu exemplo, eu conseguir mudar a história de uma mulher, tudo o que eu passei valeu a pena.”

O depoimento de Juliana nos faz pensar que a resposta para lidar com o câncer pode (também) estar dentro de nós mesmos. Claro que, sem cirurgias, quimio e radioterapias, é praticamente impossível travar a batalha contra caroços malignos na mama e superar o terremoto emocional dessa caminhada. “Em medicina, não contamos só com as terapias que ganham o aval da ciência. Sabemos que a tolerância ao tratamento aumenta quando pacientes encontram uma força dentro de si. Acompanho casos de mulheres que transformam o susto decorrente do diagnóstico e a dor do tratamento em momentos de superação e transformação”, diz a oncologista Jurema Telles, coordenadora do serviço de oncologia de adulto do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). “Não tenho dúvidas de que o poder que muitas encontram para lidar com a situação se torna uma ferramenta coadjuvante ao tratamento medicamentoso.” 

O médico Antonio Figueira Filho, professor de mastologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (FCM/UPE), é mais um que vê uma ligação muito forte entre câncer de mama e aspectos emocionais. “Já sabemos, por exemplo, de mulheres que recebem o diagnóstico após vivenciarem sofrimento intenso. É uma situação que pode favorecer a queda dos linfócitos T, que são células cuja função é coordenar a função de defesa imunológica”, explica o mastologista. Essa constatação, contudo, não é regra. Ou seja, nem todo mundo que desenvolve um câncer vivencia abalos emocionais. 

Para o médico, a forma positiva com que a paciente lida com o enfrentamento do tumor também pode ajudar a fortalecer o sistema imunológico e levar a uma melhor adesão ao tratamento. O depoimento de Antonio Figueira Filho chama atenção para a necessidade de pacientes com câncer receberem um apoio especial quando o sofrimento emocional se torna intenso. “Podemos ajudar as mulheres a desenvolverem a resiliência, que é a capacidade de lidar com os problemas, superar os obstáculos e resistir à pressão decorrentes da terapêutica contra o câncer”, salienta a psicóloga Juliana Sales, aluna do Programa de Residência Multiprofissional Integrada em Saúde do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC/UFPE). 

Quem desenvolveu estratégias de enfrentamento da doença para afastar pensamentos negativos foi a blogueira Guiong Lee Ribeiro da Silva, 33, que recebeu o diagnóstico em outubro do ano passado – justamente no mês em que o mundo todo se volta para a doença. “Percebi o quanto é importante o diagnóstico precoce. Se não tivesse esperado tanto tempo para voltar à ginecologista com os exames, não teria descoberto a doença num estágio tão avançado”, conta. 

Nem por isso, Guiong se viu desconsolada. “Claro que ler o resultado da biópsia foi chocante. Mas percebi que precisava lutar e, assim, teria mais chances para superar empecilhos durante o tratamento”, relata a blogueira, que tem o apoio da família. “Dessa maneira, encontrei razões para o câncer não tirar a minha alegria. Tenho fases mais difíceis como qualquer paciente, mas não faço isso prevalecer.” 

Para tirar o foco da doença, Guiong decidiu criar um blog (leeahistoriadeumaguerreira.blogspot.com.br) e abraçar a campanha Lenços do Amor, que convida a população a doar lenços para quem está em tratamento no Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP). No dia 30 deste mês, a campanha chega a mais uma edição, a partir das 8h, no hospital. Durante a ação, Guiong ministrará oficina que ensina formas de se usar lenços a mulheres que passam por quimio. “Graças ao poder da internet, arrecadamos centenas de turbantes para distribuir. Isso me ajuda a encarar melhor o tratamento”, diz a blogueira, que vê na campanha uma válvula de escape. “Estou firme para terminar o tratamento em março do ano que vem”, diz a jovem, como prova de que a esperança é um ingrediente que não pode faltar nessa luta. 

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