Dia das Crianças

Tecnologia aproxima amigos de infância

Adultos usam modernidade para revisitar o passado

Franco Benites
Franco Benites
Publicado em 11/10/2014 às 13:40
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A tecnologia diminuiu o tamanho de computadores e telefones, levou o homem à lua e ajudou a encurtar a distância entre continentes. A tecnologia gera benefícios e polêmicas. Serve para criar armas de guerras, aprimorar a realização das tarefas domésticas e salvar vidas. A tecnologia pode ser boa e ruim. Uma das suas melhores características, entre tantas possíveis, é quando está a serviço da afetividade. A tecnologia, intangível na essência, não se materializa apenas em foguetes, aviões supersônicos ou doses de vacinas revolucionárias. Ela também se concretiza em abraços demorados de quem a usou para matar as saudades de um tempo bom.

É graças à tecnologia que grupos de amigos, cujo contato se perdeu no tempo e no espaço, estão retomando a relação. São pessoas acima dos 50 ou 60 anos que reencontram colegas de faculdade ou vizinhos de décadas atrás. São adultos que redescobrem a infância ao se deparar com amigos de escola nas redes sociais. Há muitos exemplos de amizades reiniciadas via computadores e celulares. Um desses grupos de amigos é formado por homens e mulheres entre 30 e 35 anos, todos ex-alunos do colégio Nóbrega, instituição de ensino que hoje só existe de maneira gloriosa na lembrança de quem estudou por lá.

Tudo começou quando a enfermeira Thacyana Gomes e o empresário José Henrique Nogueira, ambos de 34 anos, começaram a adicionar os colegas de infância no Facebook. A conversa nas redes sociais evoluiu para a criação de um grupo no Whatsapp. Aos poucos, nomes foram relembrados e números adicionados. “Passar 20 anos sem ter contato com alguém e ao reencontrar essa pessoa sentir que o clima de amizade é o mesmo, apesar dos ideais e profissões serem diferentes, é algo mágico”, conta a idealizadora do grupo.

Cada celular virou uma máquina do tempo, usada de acordo com o tempo livre de cada um. Houve quem reconhecesse o colega prontamente. Outros demoraram para se dar conta que aquele número estranho no visor do telefone tinha por trás um amigo de aventuras infantis ou adolescentes. Histórias, brincadeiras e apelidos saíram de algum canto empoeirado da mente e adultos puderam voltar a ser crianças. Aqueles meninos e meninas da década de 80, que perderam contato “porque a vida é assim”, se descobriram pais e mães, advogados, jornalistas, empresários, enfermeiras, engenheiros, veterinárias e tantas outras profissões tão distantes do que um dia já sonharam ser.

Aos 34 anos, casada há sete anos e mãe de dois meninos, Erika Samico queria ser pediatra. Virou médica veterinária com mestrado e doutorado em segurança alimentar. Com sua máquina do tempo particular, encontrou amigos de quem não tinha mais notícias e pôde revisitar a infância. “Sinto o cheiro daquela época, do pátio, das salas, do gosto do lanche da cantina. Está sendo o máximo reviver um pedacinho da minha vida”, fala.

Um dos amigos de escola que Erika pôde reencontrar foi André Barros. O menino que queria ser juiz formou-se em Direito, virou procurador do Estado, casou e tornou-se pai de uma menina. “Eu era feliz com muito pouco e tento valorizar em minha filha a construção das relações sinceras desde a infância. Reviver tudo isso é um salto no passado, sem paraquedas. Vou levar minha filha para que conheça os amigos do papai, de quando eu era da idade dela. Ela perceberá que amizades podem ser para sempre e poucas coisas na vida são para sempre”, declara.

Sem barreiras para a amizade

Nem parece que o Recife, Filadélfia (EUA), São Paulo, Delmiro Gouveia (AL) e Petrolina e Ouricuri, ambas no Sertão pernambucano, estão a quilômetros de distância uma das outras. É dessas cidades que os integrantes do grupo batizado de Amigos do Nóbrega Turma D usam a novíssima tecnologia para reviver a velha infância e conversar como se estivessem todos juntos no pátio do recreio. Nem todos pertenceram à mesma turma durante a vida escolar, mas têm em comum o amor pelo ex-colégio jesuíta, hoje um liceu sob administração do governo estadual.

As conversas do grupo são saudosas e caóticas, com todos falando ao mesmo tempo, ou com lembranças evocadas em horários diferentes devido ao fuso horário. Da Filadélfia, escreve Thiago Porto, 34 anos, que estudou no Nóbrega do Jardim II ao fim do ensino médio e hoje é gerente financeiro de uma multinacional. “Não imaginava que tal reencontro fosse possível e não esperava que fosse tão bom. Foi uma surpresa positiva”, relata.

Já arquiteta Thais Rubens, 33 anos, encarou o reencontro virtual com os colegas de infância com receio por achar que talvez a única coisa em comum que tivessem fossem as lembranças. Não demorou para se sentir à vontade. “O que sou começou no pátio e nas salas do colégio. Quando todos começaram a falar no grupo, as lembranças voltaram com cheiro, cor e som”, fala.

Os xarás Sérgio Artoni, professor de Educação Física, e Sérgio Lopes, engenheiro, ficaram responsáveis para que as conversas saíssem do ambiente virtual. Nem todos puderam ir aos encontros, mas quem pôde participou de maneira online. Assim, se formou uma roda de bate-papo que misturou churrasco, cerveja, bits, política, futebol, fotos, internet móvel e muitas lembranças. O professor de História Flávio Moraes não se contentou com a distância e saiu de Alagoas para rever os amigos no último encontro da turma. “Reviver aqueles momentos de tanta inocência e imensa sinceridade foi uma das melhores coisas”, fala.

Os amigos agora querem realizar um encontro maior, no final do ano, com a participação de todos os integrantes do grupo virtual. O objetivo é ampliar a família escolar com a inclusão de maridos, esposas, filhos para formar uma rede afetiva ainda maior.

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