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Marcos Albuquerque: o homem que traduz o passado

Arqueólogo e professor da UFPE, ele é um dos primeiros a trabalhar com arqueologia histórica no Brasil

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 09/08/2015 às 8:39
Foto: Guga Matos/JC Imagem
Arqueólogo e professor da UFPE, ele é um dos primeiros a trabalhar com arqueologia histórica no Brasil - FOTO: Foto: Guga Matos/JC Imagem
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Nos últimos 50 anos, Marcos Antônio Gomes de Mattos de Albuquerque vem escrevendo parte da história de Pernambuco e do Brasil. Não exatamente com letras no papel – embora também seja autor de livros – mas decifrando cacos de louça, pedaços de cachimbo, armas antigas, moedas, restos de vestimenta e esqueletos humanos.

“É uma forma diferente de recuperar a história”, explica Marcos Albuquerque, um dos primeiros arqueólogos de Pernambuco. Ora fazendo escavações, ora atuando no reconhecimento de sítios arqueológicos, os locais onde esses materiais são encontrados, ele é facilmente reconhecido pelos invariáveis óculos escuros, chapéu e roupas cáqui.

Disciplinado e organizado (tem as pesquisas que fez ao alcance de uns poucos cliques no computador), Marcos Albuquerque é um homem prático. Basta dizer que os presentes trocados com a namorada, com quem é casado até hoje, eram utilitários: equipamentos para trabalhar em pesquisas de campo.

Os presentes, aliados a outras ferramentas, ajudaram a fazer descobertas curiosas. Em Jaboatão, cidade do Grande Recife, o arqueólogo resgatou ossadas de soldados luso-brasileiros que participaram das guerras holandesas do século 17, nos Montes Guararapes. Os terços na cintura indicavam a nacionalidade. Não sendo católicos, holandeses não seriam sepultados com rosários, traduz.

Numa escavação no Forte do Brum, no Bairro do Recife, descobriu de maneira engraçada que mulheres costumavam frequentar esse reduto tipicamente masculino. “Achei um sapato feminino ao lado de uma taça de cristal entaipados numa das paredes”, diz.

Adepto das novas tecnologias, ele viaja País afora levando pelas estradas um laboratório móvel montado e equipado num caminhão. A frase pintada na lataria resume sua vida: “Uma sociedade que não conhece seu passado não tem perspectiva de futuro.”

Pois foi tentando entender o passado que o recifense Marcos Albuquerque, 73 anos, escavou chão e paredes na busca desses velhos fragmentos que, como um quebra-cabeça, vão contando a nossa história.

Uma sociedade que não conhece seu passado não tem perspectiva de futuro

diz o arqueólogo Marcos Albuquerque

Da Igreja Matriz da Várzea, bairro da Zona Oeste do Recife, ele tirou 85 sepultamentos do século 17. O exame das ossadas se revelou surpreendente. Só havia três casos de cárie e alguns poucos tártaros, numa época em que o consumo de açúcar era grande, observa o pesquisador, informando o que encontrou ao cascavilhar a dentição dos esqueletos de soldados feridos nas Batalhas dos Guararapes.

Remexendo no esqueleto de um padre enterrado na Igreja da Graça (primeiro quartel dos holandeses no Brasil), na Sé de Olinda, ele constatou a devoção do jesuíta a um capuchinho. Em vez de uma imagem do criador da ordem, Inácio de Loiola, ele segurava nas mãos a medalha de um capuchinho, ramo da ordem franciscana.

Na Ilha de Itamaracá, o pesquisador localizou a fortificação holandesa do século 17 escondida debaixo do Forte Orange português. E no Bairro do Recife as escavações confirmaram o lugar exato da Primeira Sinagoga das Américas, na Rua do Bom Jesus.

“Quem escreve a história é a classe dominante, mas a arqueologia não sofre influência de classe social. Se o escravo não escreveu o seu diário, é o diário dele que recuperamos quando descobrimos seus esqueletos”, diz.

Quando escolheu a profissão, “arqueologia no Brasil era quase amadorística”, recorda. “Não sabia o que iria fazer, mas sempre gostei de muitas coisas e na arqueologia eu podia juntar muitas delas: montar a cavalo, fotografar, estar em campo e sobretudo entender a sociedade. Trabalhar numa sala fechada iria me enlouquecer.”

Um sapato feminino ao lado de uma taça de cristal: segredos desenterrados no Forte do Brum

O menino que teve dificuldades com matemática (fez o ginasial em sete anos porque repetia a disciplina) hoje se vale dela para interpretar os achados. “É curioso, porque o arqueólogo trabalha com as ciências exatas, como geologia, estratigrafia e cálculos, para concluir com as humanas.”

Marcos Albuquerque tinha 20 e poucos anos quando se deparou com seu primeiro achado: um pedaço de cerâmica, no Forte de Pau Amarelo, em Paulista. Ainda não tinha entrado na faculdade (acompanhava uma excursão acadêmica com um amigo) e não fazia ideia do que tinha nas mãos.

Mostrou a peça ao sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) e ao historiador José Antônio Gonsalves de Melo (1916-2002), que não conseguiram identificá-la. Logo depois, uma missão norte-americana desembarcou no Recife para fazer estudos arqueológicos no Nordeste e Gilberto Freyre indicou o jovem estudante para acompanhar o grupo.

“Ali, decidi que seria arqueólogo. Fiz Ciências Sociais por ser o curso que oferecia a disciplina antropologia física e cultural, meu foco de estudo”, diz. Ao abrir o Setor de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco, em 1965, a pedido de Gilberto Freyre, o acervo da Biblioteca Central dedicado ao tema não passava de três livros.

Professor da Pós-Graduação em Arqueologia da UFPE e um dos pioneiros da arqueologia histórica no Brasil, ele costuma inventar máquinas para facilitar as pesquisa de campo. O primeiro achado, mais tarde identificado com os restos de um cachimbo português, é a sua moeda número 1 e pertence ao Laboratório de Arqueologia da UFPE que ele criou, coordena há 50 anos e tem a guarda legal das peças recuperadas.

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