Cultura

Em Pernambuco, festival faz usina moer arte

Nomes como Benjamim Taubkin, Ronaldo Fraga, Beto Brant e Diógene Moura dão novos rumos à Usina Santa Terezinha, na Zona da Mata do Estado

Mateus Araújo
Mateus Araújo
Publicado em 23/11/2015 às 15:31
Foto: Guga Matos/JC Imagem
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As estruturas em ruína dos dois principais prédios da Usina Santa Terezinha, em Água Preta, Zona da Mata Sul de Pernambuco, são quase uma narrativa em tijolos e cimento da literatura de José Lins do Rego. Pisar ali, naquele lugar, entre os canaviais cortados pelo asfalto e pelas pontes da dita modernidade, nos coloca em contato direto com a lembrança de um universo em declínio. A crise da economia açucareira, que marcou a história do Brasil na década de 1980, deixou sinais em relevo não só na paisagem como também na vida de homens e mulheres que ergueram seus sonhos junto e dentro das casas dos arruados em torno das terras do usineiro José Pessoa de Queiroz. Hoje, por enquanto, eles são casas perdidas entre as canas e as ruínas.

O desejo de dar novos rumos ao que está aparentemente solitário e em busca de renovação foi o impulso que levou um grupo de pernambucanos a criar a Associação Jacuípe, motriz de uma força artística para transformar o desativado em uma plataforma de produção e de residência artística em meio a uma região na qual a cultura clama por socorro. “Ressignificar os espaços e profissões dessas pessoas possibilita a abertura de novos horizontes”, conta a arquiteta Bruna Pessoa de Queiroz, uma das idealizadoras do projeto. Entre os planos, estão oficinas de formação cultural para 700 estudantes das escolas da região e a criação de um jardim botânico nos arredores da propriedade. 

A ideia da associação surgiu em janeiro, como conta Bruna, a partir de uma sugestão do designer gaúcho Hugo França. Há três anos, França – responsável por obras de decoração feitas com reaproveitamento de resíduos florestais, como as de Inhotim, em Minas Gerais, e do Parque do Ibirapuera, em São Paulo – foi convidado pela arquiteta e o marido dela, o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz, para desenvolver peças e mobílias para a Casa Grande da Santa Teresinha. “Ele (Hugo) passou uma semana aqui e depois voltou nos anos seguintes. No início deste ano, conversando sobre possibilidades de criar projetos na região, ele sugeriu ampliar essa relação com a comunidade e criar residências artísticas”, explica Bruna. 

Admirador de arte, o casal, então, resolveu levar adiante a vontade de fomentar ações que integrem a sociedade local e a produção artística, como alternativa de empoderamento e incentivo de novas perspectivas de trabalho para os moradores dali. As terras da Usina Santa Terezinha, que um dia pertenceram ao bisavô de Ricardo e hoje são dele, tornaram-se a sede desse sonho. Do contato com Hugo França vieram novas parcerias, como a com o artista plástico José Rufino, que criou uma exposição com restos de documentos, peças inservíveis e, principalmente, com ex-funcionários da companhia. Em uma das obras, ainda em processo, fez impressões das mãos dos trabalhadores sobre folhas de pagamento. Acervo que está hoje disponível para visitação no hangar da usina, que deixou de ser uma oficina mecânica para virar uma galeria.

“Eu sempre recebi uma demanda da comunidade do arruado de reabrir a Usina. O que quero mostrar a eles, no entanto, é que aqui vamos colocar muitas outras usinas para moer. A usina da cada um”, conta Ricardo Pessoa de Queiroz. 

 

Foto: Guga Matos/JC Imagem
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RESSIGNIFICAR O FOGO MORTO

Na última segunda-feira, a Associação Jacuípe ganhou novo fôlego. No labirinto de encontros, e também com ajuda do designer Hugo França, a usina recebeu o Projeto Expedição Brasil Profundo, residência itinerante do Festival Arte Serrinha, que acontece há 14 anos em Bragança Paulista, São Paulo. Na casa-grande das propriedades fundadas em 1926, 16 artistas convidados pelo curador e artista plástico Fábio Delduque (criador do Festival Serrinha) imergiram durante sete dias, até hoje, num passeio interpessoal de encontros e redescobertas, chamado de Festival Arte na Usina. O olhar atento pelos tantos vieses da arte – da música, do cinema, da literatura, da dança e das artes visuais – possibilitou experiências de extrema singularidade que devem resultar, fisicamente, na tríade exposição, livro e filme, e, socialmente, numa ressignificação de espaço e vidas presentes na realidade daquela região. Além de performances e apresentações, os artistas ofereceram à comunidade oficinas de pintura artística, desenho, vídeo e performance. 

Andando pelas terras cercadas de cana, o escritor, editor e curador de fotografia independente Diógenes Moura, um dos residentes do festival, reencontrou-se com sua própria história de infância. Nascido em Pernambuco, criado na Bahia e hoje morando em São Paulo, Moura, nas suas caminhadas pela usina, foi ouvindo histórias e conhecendo pessoas que lhe despertaram a memória afetiva através das palavras e da maneira de se permitirem ao novo. “Há tanto tempo eu não ouvia expressões como ‘apôis’ e a palavra ‘arruado’”, conta. “Esse festival é um embrião importante, num lugar importante, de uma história importante”, diz o curador, entusiasta pela possibilidade de reflexão que ele e seus companheiros puderam experimentar nesses dias de mergulho. “Anotei tudo e vou criar o poema épico”, antecipa Moura.

Dessas experiências singelas e espontâneas que a arte pode proporcionar, a beleza do desprendimento de quem viveu esses dias na Usina Santa Terezinha deflagrou, por exemplo, momento singulares, como o concerto particular e intimista do pianista Benjamim Taubkin. Debruçado ao seu estilo sobre as teclas do piano, no terraço do casarão, Taubkin diz em música a leveza do convívio com os amigos. Ao mesmo tempo em que comemora a possibilidade de repensar os rumos da fábrica desativada. “O projeto é justamente esse convívio com colegas de tantas linguagens. Além de pensar, juntos, um uso para tudo isso – o que é bem interessante”, diz.

Além de Taubkin e Moura, estiveram na usina nomes como a bailarina e coreógrafa Lu Brites, o estilista Ronaldo Fraga, o cineasta Beto Brant, o fotógrafo Luiz Braga, a chef Neka Menna Barreto. Se juntarão a eles os artistas pernambucanos Marcelo Silveira, Beth da Matta, Márcio Almeida, Daniel de Lima Santiago e Adiel Luna. Nesse encontro, eles fizeram o reavivar do “fogo morto”, incluindo o injetar de ânimo em um dos folguedos quase em extinção na região da Mata Sul, o Samba de Matuto. Deram, juntos, os primeiros passos do despertar de uma usina que no massapê já não planta mais cana; semeia arte e faz pulsar novos horizontes.

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