O custo da facilidade

O irresistível caminho mais fácil, e cheio de prejuízos, que não conseguimos evitar na pandemia

O instinto de sobrevivência que nos tirou das cavernas e nos colocou em apartamentos com ar condicionado, aquecedor, Netflix e uma xícara de café, foi construído a partir da busca pelo caminho mais fácil, não o contrário.

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 01/03/2021 às 11:51
Análise

TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
O prejuízo do fácil - FOTO: TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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A estratégia é a mesma que sustenta golpes de pirâmides financeiras.

Você oferece um grande prêmio, com pouco esforço, quando a realidade impõe esforço grande demais.

Para quê trabalhar oito horas por dia e pegar dois ônibus lotados se você pode ganhar muito mais convencendo seus amigos a comprarem algo como "Telexfree"?

Ou, no caso, para quê ficar em isolamento, deixar de ganhar dinheiro e ter que usar máscara todos os dias no calor, se você pode tomar algum "remédio milagroso" que o presidente apontou e viver uma vida normal?

O instinto de sobrevivência que nos tirou das cavernas e nos colocou em apartamentos com ar condicionado, aquecedor, Netflix e uma xícara de café, foi construído a partir da busca pelo caminho mais fácil, não o contrário.

Se o Sapiens buscasse sempre o caminho mais difícil para comer, não estaríamos aqui hoje, porque comer era algo urgente. A busca por facilidades nos ajudou a chegar onde chegamos.

Mas, existe um limite para a busca por facilidades: o prejuízo agregado.

Para todo bônus, tem um ônus. E o que deve nos guiar é o tanto de prejuízo que estamos dispostos a suportar para usufruir de uma facilidade.

O que era mais fácil, caçar javalis ou comer a carne de um, que já caíra morto antes de ser encontrado pelo grupo de caça?

Comer o que já estava morto, claro.

Mas, se morreu sozinho, estava doente.

É fácil, mas é provável que você morra também ao comer aquela carne, que está estragada. A facilidade valeu a pena?

Calcular o prejuízo das facilidades é o que nos fez sobreviver. Mas a facilidade sempre foi um objetivo e uma necessidade para a nossa evolução. Se não fosse assim, não teríamos nos desenvolvido.

Está na natureza humana buscar o caminho mais fácil. Tentar fazer isso com responsabilidade é o que originou a engenharia.

A engenharia foi criada a partir dessa busca por diminuir o prejuízo das facilidades. Criar armas facilita a caça, fazer fogo mata os germes, entre outras coisas. Com o tempo, criou-se a internet e hoje é possível comprar carne de Javali congelada pelo Ifood.

Engenharia demanda muito trabalho de observação, de pesquisa, concepção de produtos, mas o objetivo é o mesmo, proporcionar facilidades com menor prejuízo.

O caminho mais fácil é parte da natureza humana coletiva. Sabendo ou não disso, por perspicácia ou por instinto, é nisso que os populistas costumam se apoiar.

Oferecem o caminho mais fácil em troca de poder, enquanto escondem o prejuízo incluso.

O que são as eleições se não disputas sobre quem consegue despertar mais instintos primitivos, em seu próprio favor, nos eleitores?

Vence quem explora melhor o impacto do momento sobre a natureza do eleitorado. Isso é o que chamam de "onda".

E, sim, nós sempre somos governados por quem melhor nos enxerga como seres primitivos indo às urnas. E não como cidadão evoluídos em busca de melhores condição de vida.

Podem apostar, isso não nos ajudou até aqui.

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