"Faltou combinar com os russos"

De morador de rua em hotel a descontos para vacinados, João Campos precisa discutir melhor as ideias antes de anunciá-las

O prefeito do Recife tem feito anúncios que acabam quase inviabilizados por falta de diálogo com os setores inseridos nas ideias, como restaurantes e hotéis. Ideias boas precisam ser executáveis.

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 21/07/2021 às 9:00
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RODOLFO LOEPERT/PCR
"O edital completo estará disponibilizado no portal da Prefeitura a partir da próxima segunda (26)", disse o prefeito do Recife, João Campos (PSB) - FOTO: RODOLFO LOEPERT/PCR
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Há uma frase histórica "de Garrincha" que, ao receber instruções em um jogo contra a URSS, para driblar todo mundo e tocar pro gol, como se fosse algo de simples execução, teria dito ao técnico: "já combinou com os russos, professor?".

Há ideias que são boas, há ideias que são bem intencionadas, há ideias que são até geniais. E nada disso significa que elas são executáveis, que são possíveis e bem fundamentadas.

O prefeito João Campos (PSB), por exemplo, em junho surgiu com uma ideia: iria utilizar hotéis do Recife para dar um teto a moradores de rua da cidade durante a pandemia. É bem intencionado, tem lógica, mas "faltou combinar com os russos".

Dois dias após o lançamento, a Associação de Hotéis declarou que o projeto era inviável e só alguém que estivesse pronto para fechar seu estabelecimento aceitaria algo assim.

Independente de dar certo ou não, chama atenção que o prefeito tenha, na época, feito um anúncio sobre os hotéis sem combinar com os hotéis.

Agora, a ideia anunciada foi um programa de benefícios e descontos em estabelecimentos comerciais para quem está vacinado. Dessa vez, cuidou de conversar antes com a Associação de Bares e Restaurantes e com a Associação de Hotéis.

O problema é que o anúncio foi feito ainda sem nada fechado, porque faltou combinar com os donos de restaurantes e hotéis, além das associações.

Não há nenhum incentivo fiscal para os comerciantes. A representante dos restaurantes correu pra explicar que "ninguém é obrigado a participar", poucas horas após o anúncio.

Não é porque uma ideia é boa que ela deve ser anunciada, antes de o projeto estar bem fundamentado. É preciso combinar com todos os envolvidos antes.

Mesmo nessa era das redes sociais, em que se corre para agitar seguidores e animar uma militância virtual, diariamente, anúncios oficiais precisam ser melhor elaborados antes de irem a público, sob risco de serem inviabilizados e morrerem no berço.

A frase de Garrincha, por sinal, nunca foi dita por Garrincha, mas por um ponta-esquerda bem menos famoso, do Corinthians, chamado Pipi, em 1946, num jogo que não tinha nenhum russo.

A ideia de dizer que a piada foi do ponta-direita de pernas tortas da Seleção Brasileira é muito melhor.

Só não é bem fundamentada.

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