Cena Política

O Chile, Lula, Bolsonaro e uma jarra com água como única testemunha de um gesto republicano

A eleição do Chile foi uma disputa de extremos, um pleito marcado pela polarização, onde as opções mais equilibradas ficaram pelo caminho. Qualquer semelhança com o Brasil que se prevê em 2022 não é mera coincidência.

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 20/12/2021 às 14:06
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POR AQUI Quando estava no governo, Lula disse que eleitor não entendia que ele conversasse com FHC - FOTO: REPRODUÇÃO
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Observe a foto nesta página, acima.

Do lado esquerdo está o candidato vencedor da eleição chilena do último domingo, Gabriel Boric.

À frente dele, o opositor, José Antônio Kast.

Entre eles, uma jarra e dois copos contendo água. Nada mais.

Porque nada mais é necessário quando o que importa é o futuro de um país que você se propôs a administrar para melhorar a vida de seus compatriotas.

Ao fim de uma das mais acirradas eleições do Chile, é importante dizer que a foto que estampa esta coluna não é uma montagem. Aconteceu horas após o resultado. Boric é um ex-líder estudantil de esquerda e será o novo presidente do país. Kast era chamado de "Bolsonaro do Chile", ligado à direita conservadora no país.

Foi uma disputa de extremos, uma eleição marcada pela polarização, onde as opções mais equilibradas, centrais, ficaram pelo caminho. Qualquer semelhança com o Brasil que se prevê em 2022 não é mera coincidência.

Mas, a semelhança ficou presente na guerra do voto. Depois, esqueça. O Chile é outro país. Embora o acirramento tenha sido grande, a foto mostra dois líderes e não dois raivosos inimigos. Mostra uma relação democrática e republicana.

É uma imagem do que gostaríamos de ter no Brasil? Talvez não estejamos evoluídos o suficiente para isso, mas seria bom.

A primeira atitude do derrotado Kast foi ligar para o vencedor. A apuração ainda estava em 70% quando o candidato da direita resolveu admitir a derrota. Não parou por aí. Decidiu ampliar seu gesto de grandeza e foi visitar Boric. A imagem, dos dois sentados à mesa, conversando sobre o futuro do país, é um exemplo para o mundo.

Métodos diferentes para a condução de um governo só são instrumentos de comparação numa disputa eleitoral. O povo, chileno ou brasileiro, tem problemas maiores para resolver do que desenterrar e embalar patetices.

Temos líderes capazes de fazer o mesmo aqui? Provavelmente, ainda não. Num regime democrático, lideranças políticas são extensões quase exatas dos eleitores e da cultura na qual o país está imerso. O eleitor brasileiro ainda não entende isso.

Enquanto Boric e Kast se encontravam para bater papo sobre o país deles, Geraldo Alckmin (sem partido) e Lula (PT) se encontraram para jantar juntos e conversar sobre o acerto, quase fechado, em que um será vice do outro. As fotos dos abraços, imediatamente, começaram a circular junto com declarações anteriores de um contra o outro, tentando ridicularizar a possibilidade de acordo.

Eleição no Brasil é como futebol. Em 2017, um zagueiro do São Paulo chamou atenção por causa de sua honestidade. Sim, no futebol honestidade é notícia extraordinária. Rodrigo Caio, na época jogando pelo São Paulo, ao ver que o juiz puniu Jô, do Corinthians, com um cartão amarelo, foi lá para admitir que a culpa pela jogada irregular tinha sido dele próprio e não do adversário.

O atacante, se tivesse levado o cartão, seria suspenso.

Os torcedores nunca perdoaram Rodrigo Caio e ele foi criticado por semanas, acusado, inclusive por companheiros de clube, de não jogar pelo time.

Voltando à política, em 2002, quando venceu a eleição pela primeira vez e virou presidente da República, Lula recebeu Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no Palácio do Planalto.

Conversaram amenidades, Ruth Cardoso explicou como funcionavam as coisas por lá. Entregaram "as chaves" e foram embora com a promessa de que voltariam a conversar para trocar impressões sobre o país.

A aproximação nunca aconteceu e FHC sempre se mostrou bastante magoado. Um dia, questionado sobre isso, Lula explicou a um amigo deles em comum: "O eleitor não entende essas coisas. Nem o meu, nem o dele".

Vinte anos depois, nem Lula e nem Bolsonaro parecem estar dispostos a agir de forma diferente. Pegue a foto do Chile e imagine se é possível que, amanhã, sejam Lula e Bolsonaro nessas condições, dividindo uma jarra cheia com água, numa sala vazia de ódio.

Ainda não é, infelizmente.

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