Cena Política

O Brasil tem um novo "chefe de governo" enquanto Bolsonaro brinca de moto aquática nas férias

Na ausência do presidente, que não achou necessário interromper as férias para visitar a Bahia e cuidar da tragédia que se abateu por lá, Arthur Lira convocou deputados e resolveu assumir a interlocução com ministros.

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 28/12/2021 às 16:58
MANUELLA LUANA / AFP
RISCO Abertura de comportas em barragem de Minas Gerais pode gerar novas enchentes em municípios baianos - FOTO: MANUELLA LUANA / AFP
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Não existe vácuo no poder. É uma lei básica do setor.

Bolsonaro (PL) acostumou-se a ser um caos presente e criar polêmica quando o assunto é pandemia e vacinação, urna eletrônica e voto impresso.

Mas, transforma-se em vácuo encarnado quando o assunto é algo que ele não pode polemizar, como as chuvas na Bahia.

Porque não tem como convencer ninguém de que a chuva não está caindo ou que as pessoas estão "morrendo por problemas no coração" enquanto se afogam.

Embora haja pessoas cuja credulidade chegue a esse ponto se for para defender alguma patetice inventada pelo presidente.

Mas, se não dá pra gerar discórdia, pode-se ignorar. Enquanto dezenas de pessoas morrem e milhares estão desabrigados, o presidente da República está de férias em Santa Catarina, curtindo a praia e passeios de moto aquática.

Há uma história famosa sobre o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o então ministro da Saúde José Serra.

O Brasil vivia uma epidemia de Dengue e só se falava nisso no noticiário. FHC passava o dia reunido com o gabinete de crise. Um dia, foi dormir tarde e às 2h da manhã foi acordado pelo telefone.

Era Serra: "Presidente, tive uma ideia".

FHC: "Serra, dá pra esperar até amanhã? Eu estava dormindo".

O ministro rebateu imediatamente: "O senhor deixa pra dormir quando acabar o mandato. Presidente de um país desse tamanho não pode ter esse luxo".

Pelo que se sabe, deputados e senadores da base aliada insistiram com Bolsonaro para que ele pegasse um helicóptero e fosse sobrevoar a Bahia, anunciar algo.

O presidente, até a tarde da terça-feira (28), preferiu não ir. Acreditava que não era necessário.

Bolsonaro nunca se comportou como presidente. Mas, tem se esforçado bastante pra piorar.

Como vácuo não existe, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), assumiu o papel de chefe de governo e convocou a bancada da Bahia para discutir soluções.

É interessante notar que durante a gestão de Rodrigo Maia (sem partido) como presidente da Câmara isso também foi necessário algumas vezes.

É um presidencialismo, mas precisa de "primeiro-ministro" ou o país afunda.

Faltando menos de um ano para a eleição, esse tipo de atitude acaba piorando a rejeição ao presidente e torna ainda mais provável o desembarque do centrão.

Há quem desconfie até que Bolsonaro simplesmente desistiu da disputa e vai para um jogo perdido de propósito ou nem será candidato à reeleição, buscando alguma alternativa política e jurídica, como um cargo de senador vitalício. Há um projeto na Câmara para viabilizar isso.

Assim teria tempo para passear de moto aquática, com foro privilegiado e sem que ninguém lhe importune.

E, eleitoralmente, ainda pode atrapalhar Lula (PT), que depende da polarização para se fortalecer.

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