Cena Política

Antes de pedir uma nova chance, Lula e o PT precisam explicar o que aconteceu nos últimos anos. Foi um delírio coletivo sobre corrupção?

Mesmo o exercício do cinismo é melhor que o silêncio covarde. Delações foram delírio coletivo?

Igor Maciel
Igor Maciel
Publicado em 06/01/2022 às 15:33
ABr
Delação de Palocci (à direita) foi sobre ocultação de valores atribuída ao ex-presidente Lula (à esquerda) em contas no Banco BTG Pactual - FOTO: ABr
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O Estadão trouxe, nesta quinta-feira (6), reportagem sobre a forma como o PT e o centrão atuaram para afrouxar leis de combate à corrupção. Isso levanta um questionamento que precisa ser feito em 2022.

Esqueçam a discussão sobre Lula (PT) ser ou não inocente de acordo com o andamento do processo contra ele na Justiça. Esqueçam a história chata de o "PT tem que fazer mea-culpa".

Façamos de conta que Lula é o santo, a ideia, que vendem como se fosse a prova personificada da existência divina.

Esqueçamos tudo isso.

Mas, antes de Lula e o PT proporem, oficialmente, mais quatro anos de mandato, antes de pedirem uma nova chance a quem já os rejeitou em 2018, transformando aquilo em gigantesca derrota eleitoral, o partido e o ex-presidente precisam explicar o que foi que aconteceu nos últimos anos, de forma clara.

Nada nunca existiu?

Eles podem escolher como falar, eles podem chamar do que quiserem, mas precisam explicar. Nem que seja para dizer que foi tudo um delírio coletivo (como já fazem, de certa maneira) e que os últimos anos não existiram, que os delatores estavam todos vivendo um surto alucinado.

Mesmo o exercício do cinismo é melhor que o silêncio covarde.

Ninguém cometeu, mas confessou

Os delatores, aliás, são o maior enigma dos últimos anos. Gente como Antônio Palocci, Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef, João Santana, Mônica Moura e empresas como Odebrecht, Andrade Gutierrez e JBS confessaram crimes, entregaram políticos (inclusive Lula) e devolveram milhões de reais aos cofres públicos.

Eles eram todos amigos, faziam parte dos governos petistas, Palocci foi ministro e cotado para sucessão de Lula.

Por qual motivo eles fizeram isso? Devolveram dinheiro que saiu de onde? Foram hipnotizados, sofreram lavagem cerebral? Inventaram tudo para se desfazer de dinheiro porque viraram adeptos do minimalismo?

Se o PT quer a presidência outra vez, deveria ter a consideração de explicar, mas precisa fazer isso apartado do discurso demagogo, eleitoral, da picanha, da cerveja, do pobre que viaja de avião e do "povo feliz de novo".

Felicidade dura mais quando as pessoas ao nosso redor são verdadeiras.

Bolsonaro é ruim. Péssimo, na verdade. Mas se é para reabilitar um "santo", uma "ideia", como Lula, que não seja fazendo piada com a inteligência alheia.

Caso contrário, a reabilitação será da casca pra fora e logo teremos novas crises políticas, com bolsonaros de consequência, até que a democracia esteja em xeque outra vez.

Sobre os ratos e os urubus

A questão é que, ao contrário disso, o PT corre para travar e atrapalhar o combate à corrupção.

O centrão, os bolsonaristas e os petistas se transformam em melhores amigos quando o assunto é mudar leis para dificultar a atuação do Ministério Público e da Polícia Federal.

A justificativa desses políticos é que estão ajustando para evitar injustiças e que, se apertar demais, ninguém mais quer fazer política.

Falácia grande.

É verdade que há muitos homens e mulheres probos e capazes que desistem da política para preservar a biografia. Mas não tem a ver com o combate à corrupção e sim com os corruptos que se espalham como ratos nas organizações públicas e como abutres no entorno delas.

É um ambiente hostil, onde quem não participa ou ao menos fecha os olhos para o impróprio se torna pária, não se reelege ou fica sujeito à armadilhas.

E o que se tem feito para melhorar o ambiente insalubre é dar mais comida aos ratos e proibir os gatos de trabalhar?

Tem tanta lógica quanto confessar crimes que não cometeu e devolver dinheiro que não roubou, como fizeram os delatores.

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