O ano em que o centrão percebeu que manda no trem quem controla o freio
Confira a coluna Cena Política desta sexta-feira (22)

O ano de 2023 começou com um ataque à democracia e terminou com a aprovação do orçamento para 2024 e com a promulgação de uma histórica reforma tributária no Legislativo. Podemos dizer que a normalidade democrática se impôs e isso é bom. Quem olha assim, por fora, pode acreditar que ficou tudo bem. Ficou?
Boletos
Entre a barbárie estúpida de janeiro e a aparente normalização institucional do país neste fim de ano, o percurso inspira atenção. É que ao olhar o embrulho é bom sempre saber a origem da mercadoria. A normalidade democrática é valiosa e, por isso, custa caro. Estamos pagando por ela.
O centrão tem trabalhado muito, através do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), para que os boletos sejam honrados por nós.
Não é exemplo
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que não é bonito ser Arthur Lira. Fazer o que ela faz, da forma que ele faz, é feio. É importante reforçar, porque há quem se espelhe no sucesso de ocasião sem refletir sobre a moral, a ética e as consequências que permeiam os “triunfos” dos “heróis” brasileiros. Lira tem tido muito sucesso na “condução” da governabilidade, embora suas ações sejam mais assemelhadas a um “sequestro” de governabilidade.
Então que fique claro, senhoras e senhores, se alguém disser que você é o “Arthur Lira” da sua vizinhança, isso não foi elogio.
Tem funcionado
As pautas importantes do país somente são aprovadas depois que o centrão recebe seus “resgates”. Não tem adiantado o PT reclamar e nenhum esperneio anda surtindo efeito porque o Legislativo foi se empoderando financeiramente e adquiriu uma autonomia inédita. Onde isso vai parar?
Bom, o que o ano de 2023 deverá deixar como marca é o início mais consolidado de um movimento que pode nos levar a um parlamentarismo.
Sutil e constante
Desde a pandemia, quando Bolsonaro precisou se render ao centrão em nome da sobrevivência de sua posição, esse movimento começou. Inicialmente era apenas uma apropriação de verbas maiores e de sua destinação, carregadas de uma certa timidez que levou ao nome de “Orçamento Secreto”.
Era sutil, mas muito constante, sempre com a desculpa de que o momento do Brasil pedia mais urgência na liberação de verbas, sem muitos intermediários entre o cofre e o deputado.
O freio é o rei
Agora, com Lula (PT) e após os ataques de 8/1, ficou claro que não existe mais tanto pudor do Congresso em exigir o controle sobre o orçamento, mas o fator principal e mais agudo desse processo em 2023 foi o aumento do controle sobre as aprovações dos projetos enviados pelo Executivo, em diversas áreas.
É verdade que o sistema dos três poderes atua, exatamente, para que haja controle mútuo e harmonia. O Legislativo, no entanto, percebeu que o país é como um trem em movimento, percorrendo os trilhos em velocidade.
Quem manda no veículo e faz com que ele não saia na curva é o dono do freio.
Parlamentarismo
É preciso que se comece a debater, com urgência, se o Brasil e os brasileiros estão preparados para um parlamentarismo e, se for o caso, que se oficialize o regime com uma bem discutida mudança na Constituição.
O que não pode é vivermos um presidencialismo de faz de conta, com o presidente fingindo que é o maquinista, enquanto viaja e viaja como fez Lula este ano quase inteiro.
Frear é caro
Além disso, a energia gasta com o processo de apertar o freio enquanto o centrão negocia verbas, quando o país poderia aproveitar a velocidade e se desenvolver, é custosa.
E adivinhe quem paga o preço de um país cujo freio vive sendo acionado, sem necessidade, apenas para atender aos interesses de meia dúzia de grupos políticos interessados em vantagens pessoais e partidárias? Eu, você e até a dona Maria, que recebe Bolsa Família e mora numa palafita por aí.