Vestibulanda pede para UPE não divulgar listões do SSA 1 e SSA 2

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 14/02/2020 às 15:40
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[caption id="attachment_8588" align="aligncenter" width="748"]"" Foto: Felipe Ribeiro / JC Imagem[/caption]Uma vestibulanda pediu à Universidade de Pernambuco (UPE) que não divulgue as listas com os nomes e notas dos candidatos que participaram da primeira e da segunda etapa do Sistema Seriado de Avaliação (SSA), o SSA 1 e SSA 2, respectivamente. Ela solicita que o desempenho fique restrito à consulta individual. Na justificativa para o pedido, Maria Clara Gois, 17 anos, aluna do 3º ano do ensino médio de um colégio particular do Recife, argumenta que o resultado ?causa extrema ansiedade, ocasiona competitividade entre os estudantes e escolas e, acima de tudo, alimenta o sufocante sistema do qual fazemos parte?.A reflexão de Maria Clara foi motivada após ela perder um amigo da escola, que se suicidou na madrugada do segundo dia de provas do SSA, em 2 de dezembro do ano passado. Em conversa com os colegas, o adolescente comentou que talvez não tivesse se saído muito bem nas provas do primeiro dia. Por isso, Maria Clara solicita que caso seu pleito não seja atendido, ao menos a UPE não coloque o nome e a nota do jovem no listão. Pelo cronograma oficial, a universidade divulgará as notas até 18 de março.No texto, a adolescente diz que sofre, "como boa parte dos meus colegas, com o sufocante sistema de avaliações externas ao qual nós, jovens, precisamos nos submeter para o ingresso em uma universidade de referência nacional, como a que os senhores fazem parte", diz Maria Clara, referindo-se à UPE.No modelo do SSA, os candidatos só concorrem às vagas de graduação na última fase da seleção, o SSA 3. A média final é uma composição do desempenho nas três séries do ensino médio.No SSA 1 e SSA 2, os participantes conseguem ver suas médias de duas maneiras: acessando individualmente o sistema, com colocação de login e senha (nesse caso aparece a nota em cada disciplina); ou conferindo a média geral no listão que a UPE publica na página do SSA, disponível para qualquer pessoa ver.

AVALIAÇÃO

O reitor Pedro Falcão confirmou que recebeu a carta de Maria Clara na manhã desta sexta-feira (14). Ele disse que não vê problema em atender os pedidos da estudante, mas precisa submetê-los à avaliação da Procuradoria Jurídica da UPE. Isso porque a divulgação dos listões do SSA 1 e SSA 2 atende a um Termo de Ajustamento de Conduta assinado pela universidade em 2012.Segundo o presidente da comissão do vestibular e pró-reitor de graduação, Ernani Martins, até 2011 a UPE não liberava listão dessas duas fases. O resultado ficava restrito às consultas individuais. Mas pais de alunos manifestaram descontentamento e procuraram o Ministério Público Estadual, alegando que tal conduta feria a isonomia e não era transparente.?Por isso, passamos a também divulgar a lista com nomes e notas de todos os participantes do SSA 1 e SSA 2?, justifica Ernani. Segundo ele, os desempenhos dos alunos que fizeram as provas ano passado não sairão este mês. ?O prazo final é 18 de março, de acordo com o edital. Mas nesse mês de fevereiro não vamos liberar porque a comissão está focada nas matrículas e remanejamentos do SSA 3 e Sisu?, explicou Ernani.

CARTA

Veja a carta na íntegra que Maria Clara mandou para a UPE"Recife, 11 de fevereiro de 2020Aos dirigentes da Universidade de Pernambuco,Prezados Senhores,Sou estudante do terceiro ano do Ensino Médio de um colégio no estado de Pernambuco e, mesmo tendo sido acompanhada durante toda a minha vida por excelentes profissionais da região em educação e pertencendo a um meio escolar que demonstra constante preocupação para com a saúde e integridade mental de seu alunado (inclusive com aulas semanais direcionadas para tal assunto), sofro, assim como boa parte dos meus colegas, com o sufocante sistema de avaliações externas ao qual nós, jovens, precisamos nos submeter para o ingresso em uma universidade de referência nacional, como a que os senhores fazem parte. Se pararmos para analisar os números referentes à saúde mental dos jovens pertencentes ao chamado ?século da informação?, veremos dados alarmantes que são o reflexo de uma sociedade que mergulha, cada dia mais, na pandemia conhecida como ?mal do século?, que traz consigo não apenas uma única doença que nos assola, mas sim uma série de transtornos mentais que merecem a atenção e cautela de todos.Dados divulgados pelo SUS em 2019 mostram que os atendimentos ambulatoriais e as internações que se deram nesse órgão e que se relacionam com o transtorno de depressão cresceram 52% nos últimos 4 anos. Quando analisamos a parcela com idade entre 15 e 29 anos, vemos um crescimento alarmante de 115% no mesmo espaço de tempo.Uma recente estimativa divulgada pela Organização Mundial de Saúde ratifica os supracitados dados do SUS: cerca de 14,1 milhões de brasileiros possuem um transtorno ou passam por algum tipo de sofrimento mental, ou seja, cerca de 6,75% da população. E, como esperado, boa parte da porcentagem é formada por pessoas jovens.Quando a pauta se refere a transtornos de ansiedade, a preocupação para com a sanidade dos nossos jovens deve ser tão grande quanto: segundo pesquisa feita pelo professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Fernando R. Asbahr, aproximadamente 10% das crianças e adolescentes sofrerão com algum tipo de transtorno de ansiedade. Outro dado de suma importância parte de um relatório divulgado pelo Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA), que indica que os jovens brasileiros ocupam segundo lugar na acirrada competição entre a parcela de jovens do mundo mais ansiosos para provas e avaliações, inclusive quando eles estão preparados para a realização do exame.Além disso, vale salientar que, segundo a OMS, a ansiedade é a 8ª causa de doença e incapacidade entre jovens, enquanto a depressão, uma das principais causas de suicídio - que é responsável pela terceira principal morte de jovens entre 15 a 19 anos-, ocupa a 9ª posição.Diante dos mais recentes acontecimentos e dos dados expressos neste texto, acredito que não há como agir com naturalidade perante a situação dos nossos jovens. Sendo assim, venho pedir, por meio desta, que os senhores revejam a forma pela qual os resultados referentes à realização das provas do SSA 1 e 2 são divulgados e propagados nos chamados ?listões?.A reflexão que agora lhes proponho parte de uma aluna que sabe como essa forma de divulgação afeta os estudantes que realizam a avaliação: o listão causa extrema ansiedade, ocasiona competitividade entre os estudantes e escolas e, acima de tudo, alimenta o sufocante sistema do qual fazemos parte. Além do que não podemos ficar estáticos diante do que aconteceu recentemente com um dos discentes.Como contraproposta à atual maneira pela qual os resultados do Sistema Seriado de Avaliação referentes aos primeiros dois anos do Ensino Médio são divulgados, sugiro que as notas apareçam apenas na página individual de cada aluno, oferecida pelo portal do SSA, evitando as já referidas consequências negativas relativas à vinculação dos listões.Sei que uma mudança como a que proponho só será possível mediante discussões colegiadas dessa instituição, mas acredito que se deva valorizar o protagonismo de estudantes que busquem defender o que acreditam, já que eles serão a base de uma sociedade mais crítica. E, a melhor forma de fazer isso é, sem dúvidas, ouvindo as suas vozes e pedidos, como o que lhes faço nesse momento. Caso a contraproposta de uma estudante do terceiro ano do Ensino Médio não seja aceita, gostaria de lhes fazer um pedido enquanto amiga próxima de Rafael: que o seu nome e nota não apareçam junto aos dos demais estudantes no listão com os resultados do SSA 2 2019, visto que não há motivo para a divulgação do seu desempenho em um único e turbulento dia de prova, já que, infelizmente, ele não está mais entre nós e tal divulgação apenas irá incitar uma curiosidade desrespeitosa a sua memória.Nós, jovens, somos chamados de ?o futuro da nação? e, mais importante do que as notas que o ?futuro brasileiro? tira em avaliações externas, é a sua integridade mental.Agradeço a todos pela atenção e espero resposta,Maria Clara Gois Cavalcanti Rodrigues"

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