COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

A difícil equação do retorno das aulas presencias durante a pandemia de covid-19

Pernambuco permanecerá com unidades de ensino da educação básica e superior fechadas até 15 de agosto

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 31/07/2020 às 22:48
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YACY RIBEIRO
Em outdoor, Sindicato dos Professores da rede municipal do Recife diz que escolas não têm condições de retornar as aulas. Prefeitura garante que sim - FOTO: YACY RIBEIRO
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A retomada das atividades educacionais na pandemia de covid-10 não é uma equação de fácil resolução. Por um lado, famílias e professores inseguros em relação ao retorno das aulas presenciais, com medo de contágio, sobretudo entre estudantes que convivem com pessoas de grupos de riscos. Do outro, pais que precisam voltar às atividades profissionais e dependem das escolas funcionando para deixar os filhos. Ou que estão preocupados com as consequências emocionais do isolamento social nas crianças e adolescentes.

>> Aulas presenciais em Pernambuco continuam suspensas até 15 de agosto

Há ainda o aspecto pedagógico. Quanto mais retardar a retomada das aulas, mais desafiador será para as redes de ensino da educação básica cumprirem as 800 horas mínimas exigidas por lei. Enquanto não houver definição, as aulas remotas continuarão sendo a alternativa para não deixar estudantes sem aulas durante a pandemia. A maioria das redes têm usado internet. Mas para chegar aos alunos que não dispõem de equipamentos ou de acesso à web, outras opções são aulas pela TV ou o envio de material impresso para os alunos.

Nas próximas duas semanas, escolas, faculdades e universidades de Pernambuco, públicas e privadas, continuarão fechadas. Pela quarta vez, desde 18 de março, o governo estadual decidiu prorrogar o decreto que proíbe aulas presenciais em unidades de ensino devido ao coronavírus. A medida atinge cerca de 2,5 milhões de alunos do Estado, que permanecerão em casa ao menos até 15 de agosto, data que mais uma vez a determinação perderá a validade.

SEM DATAS

Havia uma grande expectativa que a gestão estadual informasse nesta sexta-feira (31) a partir de qual data os estabelecimentos de ensino estariam autorizados para reabrir. Porém o Comitê Estadual de Enfrentamento ao Coronavírus achou melhor adiar o anúncio por mais alguns dias, a fim de observar ainda mais os números do coronavírus no Estado. Já são mais de 95 mil pessoas infectadas em Pernambuco e 2,6 milhões no País. A previsão é que o cronograma seja liberado na próxima semana.

"A definição das datas de retorno presencial na educação tem a ver com análise permanente dos números da covid-19. É a última das atividades que voltará", diz o secretário de Educação de Pernambuco, Fred Amancio. "Claro que se o retorno demorar muito, começa a comprometer o ano letivo e o cumprimento da carga horária vai depender das soluções que as redes e escolas encontrarem. A Secretaria de Educação tem uma proposta de datas, com retomada por etapas, mas não é a educação que decide sozinha. Passa pela validação do comitê e, principalmente, pela Secretaria de Saúde", explica Fred Amancio.

Ele informa que serão três cronogramas diferentes: um para educação básica (educação infantil e ensinos fundamental e médio), outro para ensino superior e o terceiro para cursos livres. Para que as unidades de ensino se preparem, um protocolo com 51 determinações foi divulgado em 15 de julho. As universidades públicas do Estado (UFPE, UFRPE, UPE, UFAPE e Univasf) já decidiram que o retorno das aulas será apenas no modelo remoto.

FLEXIBILIDADE

Para o presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe), José Ricardo Diniz, era importante o governo já ter anunciado as datas de reabertura, mesmo que devido ao fato de estarem condicionadas ao cenário da covid-19, fossem modificadas depois. "É frustrante demais. É impossível imaginar uma data que todos possam voltar ao mesmo tempo pois há diferenças de organização entre redes públicas e privadas e dentro das próprias redes. Se quiser universalizar o retorno, dificilmente conseguiremos retomar as aulas presenciais. Defendemos que haja uma flexibilização por região", observa José Ricardo.

"Meus filhos não voltam presencialmente, este ano, para escola. Continuarão com as aulas remotas, que está dando certo. Prefiro não correr o risco de adoecerem, principalmente o mais velho, que é asmático e tem imunidade baixa. Eles perderam um tio vítima de covid", afirma a professora Andréa Paguetti, mãe de Lucas, 15 anos, e Davi, 9 anos. Os dois estudam no Colégio CFI, na Madalena, Zona Oeste do Recife.

"O índice de contaminação em crianças é baixo. Tenho médicos na família e acompanho os dados. Acredito que o equilíbrio emocional do meu filho é importante. Quando houver autorização do governo para os colégios reabrirem ele vai. Confio na escola, ele é saudável e não convivemos com pessoas dos grupos de risco", diz a consultora Isabella Alves, mãe de Bento, 7 anos. aluno do Colégio Apoio, em Casa Amarela, Zona Norte da capital.

SEM ESTRUTURA

Presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), Heleno Araújo considera que por enquanto não há condições estruturais das escolas públicas voltarem a ter aulas presenciais . "Realizamos uma pesquisa que indicou que 84% dos professores no País estão envolvidos com atividades remotas. Queremos continuar trabalhando, dar aulas, mas é um absurdo retornar com a estrutura hoje da maioria das escolas", diz Heleno.

Diretor do Sindicato dos Professores da Rede Municipal do Recife (Simpere), Carlos Elias concorda. "Temos escolas com salas sem janelas, com turmas superlotadas, espaços apertados, banheiros faltando água. Não há garantia de que as medidas sanitárias serão cumpridas", afirma. A entidade espalhou outdoors na capital denunciando o problema.

Por meio de nota, a Secretaria de Educação do Recife garante que a rede municipal de ensino está pronta tanto em relação à infraestrutura como ao planejamento pedagógico para o retorno das aulas presenciais. E que cumprirá todo o protocolo exigido pelo Estado. Diz ainda que a publicidade do Simpere é improcedente.

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