violência urbana

Morte de menina de 6 anos durante operação do BOPE em Porto de Galinhas vira denúncia na ONU

Caso de violência em Porto de Galinhas ganha repercussão internacional

Jamildo Melo
Cadastrado por
Jamildo Melo
Publicado em 06/04/2022 às 8:52 | Atualizado em 06/04/2022 às 9:46
BLOG IMAGEM/CORTESIA
Clima tenso em Porto - FOTO: BLOG IMAGEM/CORTESIA
Leitura:

Na manhã dessa terça-feira (5), 119 entidades de todo o País apresentaram à ONU (Organização das Nações Unidas) e à CIDH (Corte Interamericana de Direitos Humanos) um apelo urgente sobre as graves violações de direitos humanos em Porto de Galinhas, em Ipojuca, Grande Recife.

O documento aponta dados e evidências sobre o que seria despreparo da polícia, além de violações de normas e recomendações internacionais durante as ações no território.

As entidades pedem, dentre outras solicitações, que os organismos internacionais demandem explicações ao Brasil e cobrem um plano de combate à violência e letalidade policial, com a participação da sociedade civil.

Heloysa Gabrielly, 6 anos, foi morta enquanto brincava na frente da casa de familiares, no dia 30 de março, em Porto de Galinhas. Na ocasião, havia uma operação policial em andamento na comunidade e a menina foi atingida com uma bala no peito.

Em apelo à justiça, familiares organizaram manifestações cobrando dos órgãos públicos a devida investigação e responsabilização do ocorrido e foram reprimidos por centenas de policiais, com forte armamento. A família e outros moradores relatam uma série de abusos das autoridades.

No Brasil, a polícia foi responsável por cerca de 13 em cada 100 mortes violentas, no ano de 2020, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Ao todo, foram registradas 6.146 mortes em decorrência da atividade policial. Destas, 68,8% eram jovens de 18 até 29 anos e 78,9% eram negras.

De acordo com dados da Secretaria de Defesa Social fornecidos para a Rede Observatórios de Segurança, no ano de 2020, 113 pessoas foram mortas em ações policiais no Estado de Pernambuco. Destas, 97,3% eram pretas e pardas.

O Instituto Fogo Cruzado, que mapeia a violência armada em Recife e na Região Metropolitana, registrou, de 2018 a 2022, 286 pessoas baleadas em operações policiais, destas, 127 morreram.

O aumento do último ano preocupa entidades da sociedade civil que acompanham o tema da segurança pública e direitos humanos no estado.

"A polícia de Pernambuco está sob responsabilidade do Governador, que tem o dever de zelar pela segurança pública. Cabe a ele responder quando a mesma age de maneira letal, contra aqueles e aquelas que deveria proteger", reclama a entidade.

"O caso da menina Heloysa é um dos retratos mais brutais do despreparo da polícia. O número de tiroteios e disparos de arma de fogo, durante operações policiais, aumentou 31%, em 2021, quando comparado ao ano anterior. O resultado disso é o aumento da letalidade e violência policial em territórios criminalizados. É inadmissível que apenas algumas crianças tenham o direito de brincar e estarem com suas famílias em segurança" diz Edna Jatobá, Coordenadora Executiva do GAJOP.

Igor Travassos, da ANEPE - Articulação Negra de Pernambuco, que também assina o apelo, culpa o Estado.

“O Governo de Pernambuco precisa ser responsabilizado pela ação de suas polícias. O que aconteceu nas comunidades dos arredores de Porto de Galinhas após a morte de Heloysa só reforça como é necessário repensar a ideia de segurança pública como está posta hoje. Um aparato de guerra foi colocado contra uma comunidade que sequer tem a possibilidade de viver o luto. Fica nítido que, para o Governo, o inimigo é o povo preto e periférico, e que, sob a falsa argumentação de guerra às drogas, vê-se autorizado a violar os direitos de todo um território que já sofre com o descaso e a ausência do poder público”.

“O assassinato de Heloysa é mais uma situação emblemática da política de morte executada pelo Estado contra a população negra. Nós estamos unidas e fortalecidas para enfrentar mais esse crime bárbaro”, disse Mônica Oliveira, representante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.

Comentários

Últimas notícias