ARTIGO

'Símbolos da democracia', por José Paulo Cavalcanti Filho

Leia a coluna desta sexta, 20 de maio de 2022, assinada por José Paulo Cavalcanti Filho

Augusto Tenório
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Augusto Tenório
Publicado em 20/05/2022 às 8:03
ALEXANDRE GONDIM/ACERVO JC IMAGEM
TRADIÇÃO José Paulo Cavalcanti Filho foi eleito em novembro para vaga que já pertenceu a dois pernambucanos, Oliveira Lima e Marco Maciel - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/ACERVO JC IMAGEM
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Juscelino Kubitschek era candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. E precisava do voto de José Américo de... Paro aqui, pois falar o nome completo do cidadão traz 7 anos de azar. Por isso melhor dizer, como toda gente, só “Zé 3 Pancadas” – reproduzindo o bater 3 vezes, na madeira, para tirar mau-olhado. Agosto de 1975 e foi encontrar o paraibano. Problema é que, naquele tempo, não havia vôos diretos para João Pessoa. E teve que aterrissar no aeroporto dos Guararapes. Como era nosso padrinho, fomos buscá-lo. Quase meia noite, já passando por Goiana, ele comentou

– Havia um restaurante do guaiamum, nesta cidade.

Era o Buraco da Gia, claro. Batemos na porta, semi-aberta, e o dono gritou

– Está fechado, lamento.

– Pena, o homem vai ficar sem jantar.

– Quem?

– O presidente JK.

– Está aberto.

E nos serviu um jantar esplêndido. Ao chegar, a cidade estava às escuras. E ainda não havia internet. Mas, por mistérios insondáveis, 15 minutos depois acordou, com multidão na porta do restaurante. Sem entrar, em uma espécie de reverência. No fim, ao sair, perguntaram onde iríamos.

– João Pessoa.

– É perigoso. Pode haver um atentado. Vamos acompanhar vocês, para garantir a segurança do presidente.

E seguimos, em comitiva. Era bonito de ver. Nosso carro, na frente; e, seguindo, uma fila com centenas de luzes dos faróis a perder de vista, como se fosse o rabo de um cometa. Até que chegamos. Fomos à recepção do hotel. Menos JK; que ficou na calçada, para agradecer, acenando a todos os carros. Fez isso por quase uma hora e, só depois que o último voltou para Goiana, entrou.

Na eleição, em 23/10/1975, perdeu (20 x 18) para o escritor goiano Bernardo Élis. Em seu diário, anotou “Estou pulverizado por dentro. Desejava, ardentemente, o prestígio que compensaria os imensos dissabores de 1964”. Não deu. Pena. Mas essa é outra história.

Lembro o episódio apenas porque JK era, na época da Ditadura, símbolo de uma Democracia despedaçada. E comparo, desalentado, com os símbolos de hoje. Pobres símbolos. Com receio da reação dos eleitores. Alguns sem conseguir voar em aviões de carreira, como JK. Ou jantar em restaurantes, como JK. Ou ficar no meio da rua, longe de apoiadores, como JK. Naquele tempo, os símbolos eram amados. Venerados. Respeitados. Hoje serão?

Por José Paulo Cavalcanti Filho | jp@jpc.com.br 

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