Fé na política

Bolsonaro contraria pastor e irrita evangélicos na Marcha para Jesus

Participação de políticos locais na Marcha para Jesus e motociata estariam causando mal-estar entre representantes de igrejas evangélicas

Jamildo Melo
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Jamildo Melo
Publicado em 04/08/2022 às 7:32 | Atualizado em 04/08/2022 às 12:00
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Gilson Machado almoçou com o presidente Bolsonaro nesta quarta-feira - FOTO: Divulgação
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No começo de julho, o Blog de Jamildo já informava, com exclusividade, que a Marcha Para Jesus do Recife, um dos maiores eventos do segmento evangélico do Brasil, a ser realizada no dia 06 de agosto, faria um esforço para evitar a politização do evento.

A coluna eletrônica registrava que, em reunião naquela semana, o Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (Fenasp) e o Conselho de Pastores de Pernambuco acordaram pela total proibição de qualquer ato político eleitoral por parte de qualquer candidato durante a realização da Marcha, como também na concentração e encerramento do evento.

O presidente do Fenasp em Pernambuco, Marcelo Ramos, em informe ao Blog de Jamildo naquele momento, disse que todas as lideranças políticas presentes, por unanimidade, apoiaram a orientação e determinação.

"Todos entenderem que a Marcha tem o objetivo exclusivo de unir as igrejas cristãs em um ato profético de louvor, adoração e intercessão ao nome do Senhor Jesus", declarou então.

Carta aberta aos cristãos

No evento, as duas entidades deliberaram pela confecção e a publicação de uma Carta Aberta aos cristãos de Pernambuco. A ideia então era que ela fosse assinada pelos líderes políticos e os candidatos, assumindo o compromisso público de honrar esta determinação da coordenação da Marcha.

Na véspera da marcha, o caldo entornou e está causando profundo mal-estar entre os evangélicos.

Em entrevista exclusiva ao Blog de Jamildo, o pastor Pedro Santos, organizador da Marcha, explica que os evangélicos locais fizeram um grande esforço para que o evento fosse um momento religioso e tivesse reconhecimento, sem sofrer preconceitos.

Acervo Pessoal/Divulgação
Pastor Pedro Santos, organizador da Marcha de Jesus no Recife - Acervo Pessoal/Divulgação

"Carnaval dos crentes"

"No passado recente, revistas nacionais chamavam o evento de 'Carnaval dos Crentes' e diziam maldosamente que os jovens iam com camisinhas escondidas no bolso", rememora o pastor Pedro dos Santos.

"Nos fizemos um trabalho sério para restaurar o nome da Marcha para Jesus do Recife. Queremos adorar a Jesus, queremos eleições em paz, queremos que não haja roubo, queremos que quem ganhe de fato faça o melhor pela população", frisa.

"Nos evangélicos entendemos que Bolsonaro atende à agenda cristã. Não é pelos olhos dele ou porque ele é contra Lula. A fé é o nosso escudo, não é o lado ideológico", explica.

Nesta linha, relembra ele, foi que a coordenação da Marcha para Jesus do Recife fez um acordo com os candidatos que professam a religião para se abster e apenas a Presidência da República havia sido convidada. "A gente indagava, se não seria possível colocar Cristo acima das eleições", explica.

"(O combinado com todos era) Bolsonaro vem assistir o culto, é um ato profético, faz um discurso e nós encerramos com uma oração por ele", revela.

Almoço com pastores desmarcado

Antes do ato em si na avenida Boa Viagem, haveria um almoço marcado com os pastores e presbíteros e padres, com a presença do presidente Bolsonaro.

O evento seria realizado no espaço da faculdade Universo, na Imbiribeira. Um buffet havia sido contratado e até as aulas da faculdade foram suspensas no sábado da marcha, para acomodar os convidados de forma mais reservada. Fiel ao princípio de não misturar política e evangelho, mais uma vez os candidatos foram deixados de fora.

Nesta quarta-feira, os planos iniciam foram mudados, abruptamente.

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Gilson Machado almoçou com o presidente Bolsonaro nesta quarta-feira - Divulgação

"Nesta quarta-feira, Gilson Machado (candidato do PL ao Senado e ex-ministro do Turismo) foi a Brasília, desfez o almoço e emplacou a motociata. Gilson questionava a decisão de não ter políticos, mas todos assinaram (a carta), todos estão servindo como ovelhas. Cristo é mais fraco do que uma eleição?"

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Card de Gilson Machado chama para motociata com Bolsonaro no Recife - Divulgação

"Não é só isto. A motociata vai terminar na Marcha. Quem vai dizer que a marcha é religiosa? Como o povo vai acreditar? Isto depois de dois meses de esforço. O almoço cancelado não seria problema, mas emendar uma motociata com a marcha?

"Gilson Machado nunca ligou para a organização, ele se acha o dono de Bolsonaro em Pernambuco, mas o evento é da Fenasp, não é dele. Aliás, este seria o primeiro evento de Bolsonaro no Estado que ele não mete o dedo. Até as inaugurações do Turismo ele organizava, como se fosse mestre de cerimônia. Talvez ele tenha se sentido impotente (neste evento). Eu entenderia as razões de Brasília, eu não entendo é Gilson..."

O pastor Pedro Santos conta que o episódio, além de mal estar, pode repercutir politicamente entre os evangélicos locais.

Críticas a Gilson Machado

"Depois da marcha, teremos um encontro com quase 600 pastores ou mais. O evento já estava previsto, para avaliar o evento e estabelecer a estratégia a seguir. Eu vou ter que falar o que aconteceu. Gilson (Machado) vai perder muito voto. Tem seis ou sete empresários que nos ajudam que ficaram com muita raiva. Nós ficamos com cara de tacho, mas não vou colocar tudo nas minhas costas", conclui.

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