Sete Brasil é gigante. No papel

Publicado em 25/02/2015 às 13:43
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Fernando Castilho castilho@jc.com.br   Para quem achou que o empresário Eike Batista vendeu ao mercado um conglomerado de empresas que só existia na chamada Tecnologia WPP+E (Word, Power Point e Excel), que esclarece qualquer dúvida sobre o potencial de mercado, uma consulta às apresentações da Sete Brasil pode fazer de Eike um cidadão altamente conservador. Nas apresentações, a Sete Brasil é simplesmente a maior empresa do mundo em quantidade de sondas contratadas (ainda que nenhuma delas exista). Está à frente de gigantes de verdade como a americana Noble, do Texas (EUA), da Norueguesa Transocean e da inglesa com sede nas Bermudas Seadrill. Também é líder em volume de contratos, que somam US$ 89 bilhões, bem à frente das tradicionais empresas globais. No mundo virtual, a Sete Brasil é uma resposta à descoberta do pré­sal, em 2006: uma das maiores reservas descobertas nos últimos 30 anos exige maior capacitação técnica para ser explorada. Além, claro, de grandes investimentos. Ainda no papel, a Sete também visa valorizar a indústria brasileira e aproveitar todas as possibilidades que o pré­sal disponibiliza, uma vez que a ANP determinou que as empresas de óleo e gás interessadas em explorar o pré­sal devem cumprir exigências crescentes em termos de conteúdo local. Esse foi o argumento para que na formação da Sete Brasil fossem reunidos não só a Petrobras como grandes bancos nacionais e internacionais. O clima era tão bom que BTG Pactual, Bradesco e Santander, além de vários fundos de pensão ligados ao governo, viraram sócios da super empresa criada em 2011. Com esse portfólio, a Sete Brasil foi ao mercado de construção naval com um megapacote de pedidos. Sete navios sonda no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), mais seis ao Estaleiro BrasFELS (Keppel Fels), três ao Estaleiro Rio Grande, mais sete no Estaleiro Jurong Aracruz (SembCorp Marine) e mais seis no Estaleiro Enseada Indústria Naval (associação da Odebrecht, Kawasaki, OAS e UTC). O cronograma ficou assim: 9 sondas seriam entregues até 2016, 12 até 2018 e mais 8 até 2020 o que, naturalmente, não aconteceu. Tem mais: ao se apresentar no mercado, declarou ser um instrumento facilitador. Um novo integrante no mercado de perfuração, criado para viabilizar a construção de sondas no Brasil, sem objetivo de substituir os players existentes. Os problemas começaram quando os estaleiros não conseguiram andar com os projetos e o dinheiro foi ficando difícil. O BNDES, que deveria colocar no projeto US$ 14 bilhões, não fechou as condições dos empréstimos. Foi aí que um ex­diretor da empresa, Pedro Barusco, foi preso pela Polícia Federal e fechou um acordo de delação premiada onde acusou todos os estaleiros de estarem envolvidos na Operação Lava Jato. Segundo Barusco, eles também estariam ligados ao esquema descoberto pela Lava a Jato para fechar os contratos. Em setembro, enquanto Pedro Barusco estava falando aos procuradores e negociando os termos de sua delação, a a diretoria da Sete Brasil ainda fazia apresentações sobre o potencial de negócios em fóruns de petróleo e gás. Mas os seus problemas de caixa já estavam consolidados. Sem conseguir os empréstimos, os atuais diretores da Sete Brasil foram pedir ajuda ao governo. E eles obtiveram algum sucesso. Preocupada com as dificuldades da empresa que seria a maior fornecedora da Petrobras no pré­sal, a presidente Dilma Rousseff teve uma reunião com os presidentes do BNDES e o Banco do Brasil no Palácio para tentar destravar empréstimos. A ordem era para que Luciano Coutinho (BNDES) e Aldemir Bendine (então do BB), liberassem os recursos já aprovados ou em negociação com as duas instituições. O problema é que na confusão da operação Lava a Jato, o BNDES, que chegou a programar a assinatura dos contratos, adiou por duas vezes. Sem receber, os estaleiros estão demitindo cada vez mais gente. O Atlântico Sul fez o que pode ser o início de um caminho que será seguido pelos demais estaleiros. Ele abriu mão dos contratos já que não há perspectiva de que a Sete Brasil, envolvida na Operação Lava Jato por um de seus exdiretores, não consiga fechar os contratos de financiamento com os bancos oficiais. Até porque seu único cliente (a Petrobras) antes de ajudar a salvá­-la, agora terá que, primeiro, cuidar da sobreviver à crise provocada pelo fenômeno do petrolão.

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