Nas mãos de Sérgio Moro, Lula agora só articula se manter solto

Publicado em 19/03/2016 às 11:00
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Lula Fernando Donasci Animal político, o ex-presidente Lula sabe que nessa atividade o tempo é fundamento no jogo. Como no Eclesiastes (3:1,2) onde se diz que: para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu; tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Perder tempo é perder o bonde da História. Por isso ele sabe melhor que ninguém que errou no tempo político para ajudar a presidente Dilma Rousseff o que, por consequência seria ajudar a manter o seu próprio legado. Sem Lula, não existiria Dilma, mas sem Dilma no lugar que ele a colocou tudo que construiu em 45 anos de luta agora corre o risco de ser perdido. O ex-presidente pode reconhecer isso hoje, mas o fato já não tem qualquer importância. A quimera de voltar ao Palácio do Planalto e salvar o seu legado passou do tempo. Hoje, o que preocupa Lula não é como vai iniciar sua missão de articulador político para salvar Dilma do Impeachment que aparece no horizonte como um fato se fazendo cada vez mais real. É saber como terá que agir para não perder uma coisa básica para qualquer cidadão comum: a liberdade. Nas mãos de Sérgio Moro - por ordem do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal - Lula sabe que a missão que Dilma deu de salvar o seu governo perdeu qualquer condição de ser desenvolvida. Dilma chamou Lula, não só porque temia que ele fosse preso por uma ordem da 13ª Vara Federal de Curitiba. Chamou Lula para ele articular uma conversa no Congresso que matasse a ideia de um impedimento de seu governo já no nascedouro. Mas, hoje, Lula conversa com “fé de oficio” com quem? Quem na República está interessado em lhe dar credito? E, no exercício da missão, pode entregar o que? E quando diz falar em nome do Governo de Dilma Rousseff, tem mesmo essa prerrogativa? Bom, legalmente não, embora ele até possa achar que sim. E até que acredite ser capaz de ser ouvido por interlocutores credenciados. Precisa pensar assim para sair de casa. O problema é que, de novo, nas mãos de Sérgio Moro, embora o Governo tente de todas as formas lhe devolver o foro privilegiado que tanta confusão causou na semana que acaba neste sábado, Lula sabe que a partir de hoje pode ser preso a qualquer momento. Do ponto de vista político, e para a sua base, talvez até veja numa eventual prisão a fagulha que permita ao PT e seus apoiadores voltarem as ruas furiosamente. Poderia, para sua militância, ao menos dizer que é o primeiro preso político após as Constituição de 1988. Mas quem sabe o que se passa na cabe do juiz da Lava Jato? Entretanto, o que lhe angustia é a possibilidade de não ser preso. De, a partir de hoje, ter que andar com essa insegurança. De saber que, até que o plenário do Supremo diga que ele tem direito a ser julgado pela corte suprema revertendo a decisão do ministro Gilmar Mendes, uma equipe da Polícia Federal poderá lhe conduzir até Curitiba onde estiver. Então o problema de Lula hoje, não é ser preso, mas não ser preso. A sua liberdade integral foi para o espaço assim como sua missão de coordenador político de Dilma. E essa situação devolve o problema para o Palácio do Planalto pois se Lula, sub ameaça de prisão, não pode garantir nem a sua liberdade física o que poderá prometer aos seus interlocutores?  Ou de uma forma mais dura: Sem ser ministro e com a espada da Justiça sobre sua cabeça, Lula serve de que para Dilma e seu governo? Dilma, Lula, seus ministros sabem, que o Judiciário virou adversário. A suprema corte dificilmente lhe acolherá depois dos fatos revelados (seletivamente ou não) e as demais instâncias, conectadas com a voz das ruas. todas estão dia-a-dia lhe barrando os argumentos. A indignação dos juízes do STF sinalizou para os demais juízes uma ordem de “Basta!”. De se posicionar, nos autos, de forma dura contra as manobras e tentativas desesperadas. De certa forma Dilma e Lula acabaram levando para dentro do governo a indignação da sociedade contra os que roubaram na Lava Jato. Exatamente o que governo, de forma mais ampla, sempre temeu  por dois anos e tentou evitar. Ou como se diz na torcida do Corinthians: Agora é nos! Tem mais: As revelações das gravações de seus diálogos pelo juiz Moro expuseram um Lula que está a quilômetros da personalidade descrita da Carta Aberta que divulgou e que, certamente, não tem uma só palavra colocada por ele no texto. Certo, pode mesmo ser a confirmação de que já pensam os 47% que votaram contra Dilma em outubro de 2014. Mas é muito sofrida para os 53% que, por Lula, deram a ela um novo governo. Suas falas, o comportamento, o desprezo para com os seus e com os que lhe protegem e, o mais grave, com as instituições obrigaram as seus amigos e companheiros a construção de um discurso intelectual que, internamente, causaram muito sofrimento aos militantes. É imaginável para quem sempre viu em Lula a última barreira do PT (cuja elite está no presidio da Paupuda condenada como ladrão e corrupto) ter que justificar em público um discurso em sua defesa. Não há mais o que defender do líder carismático que operou a maior revolução social deste país. Só resta se agarrar em sofismas e evidenciar como essencial aspectos jurídicos. É preciso ao menos manter uma defesa. O Lula que fala de uma celular pré-pago da Claro sem qualquer sinal de respeito especialmente  para com os seus, não é Lula que todos os que o defendem construíram no seu imaginário ao longo de anos. Mas há que seguir com o sonho do ideal do PT de raiz. Até para não perder a razão de viver.

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