Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Ficha da Covid-19 ainda não caiu para boa parte dos brasileiros

Dificuldades enfrentadas pelos brasileiros de baixa renda e conivência com a violência das grandes cidades faz população rebatizar riscos da doença que se aproxima.

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 16/03/2020 às 13:22
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Isso abre uma enorme perspectiva de negligência inicial da população especialmente a de baixa renda - FOTO: LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM
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Por Fernando Castilho do JC Negócios.

Aqui para nós e o povo da Secretaria de Saúde, mas a ficha do brasileiro para a Covid-19 ainda não caiu. Talvez pelo fato que até agora não se tenha notícia de uma morte em decorrência da doença. Talvez porque o presidente Jair Bolsonaro não esteja colaborando no alerta dos riscos que a doença vai provocar.

Talvez porque o próprio modo de encarar a vida do cidadão, eleitor contribuinte, diante de suas dificuldades do seu cotidiano, ele interprete que essa será apenas mais uma doença que ele já convive no seu dia-a-dia. Afinal, o que é morrer de Covid19 para quem a morte pela violência já se tornou uma rotina introjetada?

Isso abre uma enorme perspectiva de negligência inicial da população especialmente a de baixa renda. Cuja preocupação  é como será a sua sobrevivência diante da parada na economia que ela já sabe que vai acontecer.

Isso explica o comportamento de certa forma irresponsável de grande parte da população. Como se preocupar com a Covid19 se na comunidade a violência do trafego já mata regularmente os jovens atraídos pelo tráfico? Como sensibilizar uma família que mora numa comunidade se cirurgias de doenças graves, inclusive o câncer de colo do útero e de mama, faz as mulheres esperar meses para o primeiro diagnóstico?

Como falar de álcool gel, máscaras e lavagem repetidas de mãos para quem não tem sequer água encanada regularmente e, não raro, nem comida assegurada?

O grande desafio da Covid19 é sensibilizar a classe C, D e E que serão as que naturalmente já são mais vulneráveis e as que vão congestionar ainda mais o sistema do SUS.

Isso, naturalmente, é assustador para as autoridades sanitárias que já dimensionaram o tamanho do problema, mas que simplesmente não conseguem passar essa mensagem para os que potencialmente serão os mais atingidos.

Por uma dessas coisas mais absurdas que possa parecer, as duas notícias que realmente despertaram interesse da população foram a antecipação do 13º salário dos aposentados e a possibilidade de reinclusão de um milhão de famílias no Bolsa Família.

No mais, é como se a Covid19 não seja uma ameaça grave. Ainda que a sua ocorrência na população acima de 65 anos pode estancar única renda assegurada que a família possuiu depois do corte no Bolsa Família.

A questão do Covid19 ainda é uma ameaça percebida pela classe A e B e apenas uma pequena parte das demais. E a falta de percepção dessa ameaça talvez seja o maior desafio das autoridades.

Do ponto de vista o cidadão comum, a leitura da Pandemia é a de que foi a eficiência da China rica que resolveu a questão e que a Itália se tornou o segundo país com mais morte porque lá um quarto das pessoas temais de 70 anos. E que não tendo o Brasil essas condições vamos perder muitas vidas mesmo.

Esse comportamento, espera-se, tende a mudar com o agravamento da situação. A chegada nas grandes cidades e a ocorrência de óbitos em pessoas próximas é que, infelizmente, trarão a percepção da grandiosidade do problema a da necessidade de ações de proteção.

Claro que o posicionamento do presidente atrapalha pela importância de sua figura. Quando diz que não vai “viver preso dentro do Alvorada. Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Tenho obrigação de saudar o povo” está dizendo ao cidadão que ele também não deve tomar cuidados.

Quando o presidente diz que não está preocupado. E que toma as devidas precauções. E que “devemos tomar as medidas cabíveis, mas não podemos entrar numa neurose, como se fossem o fim do mundo". O presidente não sinaliza para a classe média que está informada, mas que ainda tem plano de saúde para recorrer quando a doença chegar no estado de transmissão comunitária, mas tornando mais vulnerável exatamente a população mais vulnerável e que depende do SUS e que não vai ter em que se espelhar.

Talvez por isso possa se dizer que, de fato, a ficha dos risco da Covid19 ainda não caiu para a população desempregado e subempregada e abaixo da linha da pobreza. A despeito de todo o esforço das autoridades. Infelizmente vamos precisar de muitos cadáveres para fazer uma grande parte da população perceber o risco de uma pandemia aqui no Brasil.

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