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Os medos do presidente. O que assusta Jair Bolsonaro

O medo do presidente teme o clima que, hoje, o Chile de Sebastián Piñera vive e a possibilidade de o povo ir às ruas contra o seu governo.

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 25/03/2020 às 15:20
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JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
Bolsonaro durante o ato do dia 15 de março - FOTO: JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
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Por Fernando Castilho do JC Negócios

Talvez seja necessário recorrer a um pouco de psicologia para entender o que levou ao presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento tão radical e inteiramente contrário ao que todas as autoridades mundiais estão propondo no combate à covid-19. Talvez seja necessário tentar isolar do contexto do gesto uma coisa bem simples e natural do ser humano. O medo.

O presidente, por ele mesmo revelado, tem problemas para dormir. Sofre de ansiedade, acorda de madrugada quando sai disparando mensagens pelo WhatsApp para auxiliares e, não raro, é visto vagando pelos corredores do Palácio da Alvorada. E nesses momentos solidão ajudam a afloram seus medos.

E como estamos vendo nas suas últimas atitudes o presidente, cada vez mais, deu sinais de governar o Brasil pelos seus maiores medos. Ontem, numa de suas declarações, ele justificou seu discurso afirmando que o que “precisa ser feito: botar esse povo para trabalhar, preservar os idosos, preservar aqueles que têm problemas de saúde, mais nada além disso. Caso contrário, o que aconteceu no Chile vai ser fichinha perto do que pode acontecer no Brasil.”

O exemplo do Chile é, hoje, o maior medo do presidente. Importa pouco as condições sociais e políticas do país de Miguel Juan Sebastián Piñera. Ou como o presidente daquele país, conduziu erraticamente a situação desde o começo da crise que levou seu povo às ruas.

O medo do presidente do Brasil é o clima que, hoje, o Chile de Piñera enfrenta. Mais especificamente, a possibilidade de o povo ir às ruas contra ele. Isso é o que faz pensar dias, noites e madrugadas diante de uma pergunta inquietante: E se o meu povo for às ruas contra mim?

Existe um fator recente que alimentou esse medo. O som das panelas. Mesmo para o mais pessimista apoiador de Bolsonaro, um panelaço contra o “mito” era algo impensável. Como assim? Panelaço contra Bolsonaro? Panelaço é coisa do PT de Dilma, não do presidente que tem cinco milhões de seguidores nas redes sociais. Mas os panelaços viraram rotina nas últimas semanas. Até quando ele faz suas lives na internet

Jair Messias Bolsonaro sabe melhor do que ninguém que foi eleito por força das circunstâncias. Estava iniciando a campanha, sem ser levado a sério pela mídia tradicional até que o acontecimento da facada no interior de Minas Gerais o transportou para 20, 25 e até 30 minutos no Jornal Nacional.

De uma tarde para a noite ocupou todo o debate eleitoral sem enfrentar um só confronto. Sua eleição se deve muito a esse fato, as bobagens do PT e seu candidato e como costuma dizer a luta de seu exército digital.

Um exército que diante do medo de perder seu ídolo foi á luta nas plataformas digitais das quais, depois de superar o medo de morrer, ele se tornou escravo e para o qual governa. Isso é um fato político. O presidente se move de olho em cinco instrumentos digitais: Twitter, Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube. Esses são seus verdadeiros conselheiros políticos.

Foram esses cinco aplicativos que o fizeram decidir pelo discurso. O presidente “leu” que seguidores se queixavam que estavam em casa sem nenhuma renda. Que pequenos grupos de empresários (em pequenos círculos) já se queixavam de que a economia teria que ser preservada. Tinha muita gente, de fato, preocupado com a questão da renda, mas também havia  gente pensando apenas em não perder receita. E viu postagens no Instagram pessoas se queixando de já estar faltando comida.

Do Youtube, vieram das denúncias de prisões e imagens de falsificação de álcool gel. Finalmente, um conjunto de hashtags no Twitter, lhe deram os tópicos de sua fala. O presidente entendeu que havia sim uma parte de apoiadores que estariam com ele se aumentasse a pressão e decidiu agir.

Os analistas ainda vão descobrir os bastidores da cadência da decisão, o método de encobrimento da gravação e os ajustes que ao lado do filho Carlos fez no texto final. Mas o eixo seria a defesa da reabertura do comércio e das escolas e o fim do "confinamento em massa". As medidas têm sido utilizadas no combate ao novo coronavírus. Até mesmo o estamento militar que trabalha no Palácio do Planalto foi surpreendido.

O presidente sabia exatamente o potencial das reações ao seu discurso de também de preparou para isso. O discurso, a pressão sobre os auxiliares e a força das suas redes sociais estão dando o suporte, inclusive usando aceleradores.

Numa inversão de valores democrático e objetivos políticos dessa vez não foi a esperança que venceu o medo. Foi medo de perder seus apoiadores que mais uma levou Jair Bolsonaro a agir contra todas pessoas de bom senso. E talvez, pela primeira vez, o presidente foi dormir nesta terça-feira se sentindo, de novo, nos braços de seus apoiadores. 

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