Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios para o Jornal do Commercio
No começo do mês, quando em alguns países algumas empresas começaram a reorganizar a volta às atividades normais dentro nas novas regras que se tornaram padrão após a covid-19, o Twitter comunicou a seus funcionários que todos eles poderiam trabalhar em casa, indefinidamente. A companhia avaliou que sua força de trabalho inteira poderia trabalhar em home office sem perder produtividade.
O caso do Twitter é radical, mas passados quatro meses de convivência com o novo vírus, milhões de empresas ao redor do mundo, inclusive no Brasil – onde a curva da doença ainda é ascendente, portanto, sem perspectiva de uma volta segura – começam a se perguntar se não chegou a hora de deixar parte de sua força de trabalho trabalhar em casa. Muitas perceberam que não perderam produtividade e mantiveram sistemas de trabalho que se mostraram eficientes.
Na outra ponta, abriu-se um debate sobre o futuro do emprego, a partir dessa nova realidade. O que isso pode provocar nas relações de trabalho no futuro, onde o escritório tradicional foi substituído por uma estação de trabalho em casa e onde a entrega passou a ser mais importante que o registro no cartão de ponto?
O impacto dessa mudança trouxe para a realidade do mundo, em 2020, situações que se previa para 2025 e 2030 que se revelaram possíveis em menos de um mês na maioria das companhias.
Elas experimentaram situações que jamais seus dirigentes imaginaram possíveis e que, surpreendentemente, funcionaram. Mas a questão é: será esse o futuro do trabalho no mundo corporativo para quem, necessariamente, não precisa desenvolver sua atividade na sede da companhia? A hashtag #FiqueEmCasa será capaz de virar um padrão para os empregos que não dependem da realização presencial?
A resposta de analistas ouvidos pelo JC é que o caso do Twitter é um ponto fora da curva. Para eles, a convivência na empresa é também um momento criativo. Em países como Brasil, onde a infraestrutura ainda está por construir o home office, o espaço é ainda menor.
E mesmo em relação ao emprego, a dificuldades de selecionar talentos não deve fazer do home office motivos de demissão, podendo até gerar empregos para os mais qualificados, que terão a opção de também poder trabalhar em casa.
Mas ainda não é possível prever o futuro. Cientistas trabalham com cenários diversos, inclusive os que preveem mudanças radicais de comportamento de toda a sociedade, seja pela questão do distanciamento em função do risco de contágio, seja em função de decisões relacionadas à economia global.
Ninguém vai trabalhar em casa sozinho
Para o cientista chefe do CESAR, Silvio Meia, a primeira coisa é não esquecer que que alguma coisa já vinha acontecendo. Já havia um processo de transformação. É o caso do trabalho de serviço urbano que já vinha sendo transformado em robô de software, assim como vinha sendo no comércio transformado por sites de ecommerce por aplicativos.
Então já havia um conjunto de processos que não era mais feito por uma pessoa, assim como o atendimento. E mesmo na indústria, de certa forma, o apertador de parafusos clássico foi substituído por um robô operador da prensa.
Segundo Meira, o fato mais relevante que aconteceu nessa transição da covid-19 foi acontecer uma espécie de download de vinte e cinco anos de futuro, que chegou nas empresas de uma hora para outra. “Isso nunca aconteceu assim. Esse futuro, que já estava funcionando para um número significativo de companhias, chegou para empresas de todos os tipos e portes”, diz
Mas, para ele, isso não quer dizer que todos vão migrar para o home office. “Ninguém vai trabalhar em casa sozinho. Você trabalha para realizar algum conjunto de ações que está associado a um propósito. Exige que você doe uma parte da sua competência. Tem que ser feito em time”, adverte.
Meira também lembra que trabalho online não é a mesma coisa que o trabalho remoto. “As pessoas estão online, mas elas tão fazendo uma reunião totalmente analógica. Uma reunião no Zoom, trabalho online analógico. Desculpe, mas a mudança acontece quando você olha para um tipo de trabalho online distribuído”.
Ele dá o exemplo de um conjunto de arquitetos em cima da mesma planta em tempo real. Ou médicos distribuídos com uma ferramenta de diagnóstico. Todos trabalhando em cima do mesmo problema, com o mesmo paciente, em operações cirurgias online digitais.
Tudo isso já é possível hoje. Mas eles estão trabalhando em conjunto, dentro de um ambiente digital. Empresas do Porto Digital, que escrevem código e fazem design, estão usando plataformas há muito tempo e elas já são online e digitais para fazer trabalho distribuído e descentralizado. Essas empresas já estavam preparadas para isso.
Mas o cientista pernambucano reconhece que a covid-19 foi um salto absurdo para as competências. As empresas descobriram que podem fazer esse trabalho distribuído em todo lugar. Isso vai mudar dramaticamente, no médio prazo, como é que a gente articula o trabalho das pessoas e o trabalho nas empresas.
Silvio Meira alerta, entretanto, que isso não quer dizer que a gente não precisa mais do local físico de trabalho. “Os seres humanos são agregadores. O trabalho é o único ponto de encontro onde eles têm uma comunidade no negócio. É uma comunidade. É uma associação no sentido social, e muito provavelmente, um número muito grande de pessoas vai sentir um estresse muito alto sem esse lugar físico. Elas trabalharem de forma remota, no sentido de não estarem em contato físico direto com um grupo de pessoas, que fazem parte dos seus relacionamentos”, diz Silvio Meira.
Descobrir que o trabalho tem um papel tão importante, tão relevante na sociedade contemporânea parece ser uma constatação nesses tempos de isolamento social. É compreender que ele é uma das poucas formas que realmente articula as pessoas que passam oito dez horas por dia no seu local de trabalho.
“Não acho que a relação de trabalho, no sentido do das aglomerações de locais de trabalho, vão desaparecer”, adverte o cientista do CESAR. Hospitais certamente não desaparecerão, porque exigem presença física. O que há é uma mudança radical da percepção de como se trabalha. “De repente, eu poder trabalhar um dia lá e dois dias em outro lugar, é ser mais produtivo.”
Uma década de crises profundas
Para o futurista Jaques Barcia, fundador da Dream Machine Futures Studio e membro da Association of Professional Futurists (APF), a chegada da covid-19 permite traçar quatro cenários relacionados à questão do trabalho e do emprego, classificados como de crescimento, restrição, colapso e transformação. Mas de qualquer forma, adverte o pesquisador, a covid-19 inaugura a uma década de crises profundas, de possibilidades da vida e do trabalho para 2030.
No cenário de crescimento, existiria uma vigilância tecnológica extrema com a população sendo testada a todo momento para verificação em sua carga viral. As pessoas teriam passaporte de saúde que apresentarão toda vez que interagir, revelando se esteve doente se não esteve, lugares que frequentou. É um cenário de vigilância tecnológica constante e, inclusive, sobre o poder de decidir quem pode e quem não pode trabalhar. É um cenário privatizado. Um cenário de crescimento baseado na abertura da economia
No cenário de restrição é a economia que é colocada em segundo plano. O objetivo é preservar as vidas e novas formas de solidariedade surgem. Bens e serviços continuam circulando, mas isso é menos importante do que a vida das pessoas. Uma economia baseada em um serviço hiper local, numa nova era de compartilhamento. Ela entende que as comunidades precisam existir e esses bens são administrados de forma comum, fortalecendo a ideia de renda básica universal.
Segundo o cientista associado do Institute For The Future (IFTF), no cenário de colapso, seria a forma extrema de convívio entre os que querem abrir a economia e os que querem preservar vidas. Com atuação, inclusive, de facções criminosas ditando regras de isolamento e de convívio. Elas controlariam esse fluxo de pessoas de trabalho e de emprego podendo, em alguns lugares, haver mesmo a divisão política essas pessoas que chegam ao ponto de usar armas num nível micro e num nível macro propor uma abertura da economia por divisões na geografia política.
Finalmente, um cenário de transformação. Nele, a ideia é da hiper localização social. Tem menos empregos e muito limite para o crescimento econômico. Ela se torna várias pequenas bolhas diferentes em termos de cargas virais e diferentes anticorpos. Elas não convivem entre si e haveria um modo distanciamento constante determinado. No trabalho, intervalos maiores entre jornadas e descanso. Com espaços e geografias limitadas pelo tempo que as pessoas podem passar juntas. Essa ideia de hiper, localização e intermitência é bastante controlada.
Mão de obra presencial terá espaço no Brasil
Para o professor-sênior da Faculdade de Economia USP, Helio Zilberstein, embora as empresas tenham, num curto espaço de tempo, adotado o home-office, o Brasil ainda é um País por construir, de modo que a mão de obras presencial ainda terá um grande espaço.
“O Brasil ainda precisa construir sua infraestrutura. Ainda precisamos fazer ferrovias, rodovias, portos, aeroporto, saneamento e habitação. E isso não dá para fazer por home-office. Temos muita lenha para queimar nesse aspecto”, diz o professor. Mas essa não é uma característica exclusiva do Brasil.
Segundo Zilberstein, um estudo recente da OIT revela que o trabalho a distância vai representar, no futuro, apenas 12% de toda a força de trabalho desempenhando no mundo. Historicamente, a tecnologia sempre destruiu empregos e criou empregos. “O que nós não sabemos é, se desta vez, a equação se manterá como das vezes anteriores”, avalia.
Zilberstein lembra que a entrada das empresas, de uma forma rápida, não foi um fato isolado. A universidade inteira está hoje trabalhando home office. “Esse fenômeno tornou-se uma necessidade e, mesmo os professores mais resistentes à tecnologia aplicada como ferramenta na sala de aula, tiveram que se adaptar e, supreendentemente, eles estão respondendo bem a isso. Eu acho que a universidade é um bom caso de como o home office pode ser interessante e produtivo.”
Mas o professor, que coordena o Projeto Salariômetro da FIPE, adverte que não se pode esquecer que toda essa movimentação em direção ao trabalho só aconteceu porque a tecnologia já existia. Estava disponível.
“O que aconteceu foi que as empresas se apropriaram dela num tempo. Mas os aplicativos de vídeo conferência e trabalho digital já existiam e eram usados por os demais setores”, diz Helio Zilberstein
Mas ele insiste que não se pode achar que o home office substitui o trabalho presencial de forma generalizada. “Nada substitui o contato, a conversa com os seus colegas. Esses momentos são também momentos de grande criatividade no trabalho. Vale para a universidade, para dezenas de profissões e para as empresas.”
Fora do endereço da empresa
O assessor jurídico da Fercomércio SP, e especialista em direito do trabalho, Eduardo Pastore, acredita que a adoção do home office, mesmo de forma emergencial, acabou se tornando uma oportunidade para observar que vários segmentos das empresas podem funcionar muito bem fora do ambiente corporativo.
Ele cita, entre outros, departamentos de contabilidade, de recursos humanos que têm revelado desempenho muito satisfatório. Mas ele adverte que isso não será motivo para que elas tendam a reduzir o quadro, lembrando que o treinamento de pessoal custa caro, leva tempo e as empresas tendem a querer segurar seus quadros. Ele lembrou que o primeiro movimento das empresas foi buscar formas de segurar seus quadros, inclusive com ajuda dos programas do governo.
Após dois meses de home office, diz Pastore, as empresas estão descobrindo que a produtividade, no mínimo, se manteve e, em alguns casos, até aumentou. “A grande lição que podemos observar é que os funcionários continuaram interagindo comunitariamente, entrando e saindo da jornada de trabalho normalmente, cumprindo horários apenas em casa.” Segundo o consultor, essa não é mais uma tendência. É uma nova forma de trabalhar que as empresas vão incorporar.
Ele esclarece que essa não é uma realidade vivida por empresas de todo os tamanhos. È claro que as micro e pequenas empresas não podem adotar o home office em sua escala máxima. As empresas têm como característica o atendimento presencial. Nem todas vão poder atuar dessa forma.
Entretanto, elas também vão se utilizar do trabalho distribuído. “A partir de agora, as empresas devem reavaliar uma série de comportamentos. Mas, na minha opinião, a adoção do home office não será justificativa para redução de pessoal. Até porque, a maioria das atividades terá que ser presencial e feita nos endereços da companhia
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