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Guerra da cloroquina revela Índia como potência dos genéricos.

A indústria farmacêutica indiana se tornou a 3ª maior em termos de volume e a 13ª maior em termos de valor em todo o mundo.

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Publicado em 21/05/2020 às 12:35
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OMS ressaltou que ainda não há muitos artigos científicos que comprovam eficácia da cloroquina - FOTO: YURI CORTEZ/AFP
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Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios

No começo do debate do atendimento aos pacientes da covid-19, chamou a atenção a informação de importação, pelo governo federal, de um lotes especial de hidróxido de cloroquina a partir da Índia destinada aos laboratórios da Marinha do Brasil, Exército e Força Aérea, todos localizados no Rio de Janeiro

Eles passaram a produzir cerca de 500 mil comprimidos por semana. Em três semanas, foram feitos 1.250.000 comprimidos, que estão sendo enviados aos estados. No caso do Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx), um aumento de 900% em relação aos 125 mil comprimidos que costumava produzir por ano inteiro, principalmente para consumo interno contra a malária.

Foi uma ação rápida e que se mostrou estratégica. A Índia, o principal fornecedor mundial de medicamentos genéricos, restringiu a exportação de 26 ingredientes farmacêuticos e dos medicamentos feitos a partir deles devido a disseminação do novo coronavírus pode causar nas cadeias de suplementos.

Laboratórios privados se viram privados de insumos importantes pois ao menos 31,6 toneladas de ingredientes usados na fabricação de medicamentos pela indústria farmacêutica no Brasil fiaram presos.

Na lista de produtos bloqueados estão o anti-inflamatório nimesulida e pantoprazol, usado para reduzir acidez estomacal e contra sintomas de gastrite. O Brasil pediu ao ministro da Indústria e Comércio da Índia, Piyush Goyal, a liberação de produtos que estão sendo testados para a covid-19, como sulfato de hidroxicloroquina e a azitromicina.

Para muitas pessoas pode parecer estranho que além da China, o Brasil tenha que apelar para a Índia. Mas o que poucas sabem é que o pais se tornou uma potência na produção de medicamentos, especialmente os genéricos.

Segundo um relatório recente do Índia Trade, nos últimos 20 anos, a indústria farmacêutica indiana se tornou a 3ª maior em termos de volume e a 13ª maior em termos de valor em todo o mundo. A indústria é a maior fornecedora de medicamentos genéricos em todo o mundo.

As maiores empresas indianas atendem o mercado de medicamentos genéricos nos Estados Unidos, Europa e em alguns mercados semi-regulamentados. Como na China, a indústria é predominantemente voltada para a exportação.

No mercado de genéricos, as exportações da Índia contribuíram com cerca de 20% para a oferta global de genéricos em termos de volume, tornando-a a maior fornecedora de medicamentos genéricos em todo o mundo.

Apesar de ser um dos setores com grande foco governamental e industrial, o mercado farmacêutico continua fragmentado na Índia, com cerca de 24 mil empresas.

Estados como Himachal, Pradesh Maharashtra e Gujarate, possuem hoje uma alta concentração de unidades de produção de farmacêuticos, que representam cerca de 45% do total de unidades de produção de farmacêuticos na Índia.

A paralisação das exportações de fármacos da Índia assustou a indústria de Farmacêuticos, O presidente do Sindusfarma, Nelson Mussolini, advertiu para o risco de desabastecimento embora ele não será imediato, pois as empresas têm estoques para, em média, quatro ou cinco meses. E confirmou que se a China é importante, a Índia é quem fornece mais insumo para a indústria brasileira.

A Índia restringiu a exportação de uma série de produtos em meio à pandemia da covid-19. No último dia 25, o país proibiu a exportação da hidroxicloroquina, ao lado da China, o país é importante fornecedor de matéria-prima para fabricação de medicamentos no mundo.

A presença da Índia como potência de fármacos tem a ver com decisões tomadas há mais de 20 anos quando o governo decidiu apostar nos genéricos.

Segundo um estudo comparativo (A indústria farmacêutica no Brasil e na Índia), dos professor Mariane Santos Françoso e Eduardo Strachman da Unesp, a partir de 1970, o governo indiano deu início à implantação de uma série de políticas públicas, que favoreceram a criação de empresas nacionais, através da redução às barreiras à entrada de parceiros internacionais.

Uma das medidas que visavam o desenvolvimento local foi criar uma Lei de Patentes extremamente fraca, que impedia a concessão de patentes a produtos e permitia a prática de engenharia reversa.

A Índia também concedeu incentivos a laboratórios, institutos de pesquisa, universidades e à formação de mão- -de-obra qualificada, contribuiu para a geração de novas capacitações, na indústria local. Além disso, a Índia protegeu ao máximo a indústria nacional.

É uma situação bem diferente do Brasil onde a indústria farmacêutica caracteriza-se, no Brasil, pela presença expressiva de empresas nacionais, voltadas ao segmento de genéricos e ao mercado interno.

Segundo Françoso e Strachman, no Brasil, foram implantadas políticas que visavam o crescimento da produção e o desenvolvimento tecnológico.

Contudo, as últimas não mostraram muito êxito, por diversos motivos, como problemas de financiamento, falta de infra-estrutura, entre outros. Já na Índia, as políticas implantadas, que também visavam o aumento da produção e o desenvolvimento tecnológico.

Mas a proximidade com a China ajudou. Os fabricantes de medicamentos indianos confiam na China para quase 70% dos ingredientes ativos. E se a Índia é a fonte de cerca de 20% dos suplementos mundiais de medicamentos genéricos do mundo ela depende da China para cerca de 66% dos componentes químicos necessários à produção desses fármacos.

Uma análise do governo indiano mostrou que 450 ingredientes de medicamentos podem ser afetados pela contenção de coronavírus na China, que inclui o bloqueio completo da província de Hubei – o centro da indústria farmacêutica do país.

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