Coluna JC Negócios

Depois de quatro meses da covid-19, UFPE descobre que pode usar internet para ter aulas virtuais

UFPE oferecerá um semestre alternativo até quando a situação da pandemia da covid-19 permitir voltar as aulas

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 11/07/2020 às 17:02
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ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
A UFPE estará um semestre até quando a situação da pandemia da covid-19 não permite voltar as aulas. - FOTO: ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
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Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios

A Universidade Federal de Pernambuco acaba de descobrir que alunos podem ter aulas virtuais e que podem, até mesmo, cursar um semestre enquanto a situação da pandemia da covid-19 não permite voltar as aulas.

É uma iniciativa importante. Se não fosse anunciada depois que suspendeu as aulas em março, por tempo indeterminado, e durante todos os 120 dias que Pernambuco convive com a doença.

Mas se a instituição tivesse passado para a sociedade a mensagem de que estava buscando soluções alternativas. Se preocupando em apoiar seus alunos para que não ficassem ainda mais prejudicados nas suas atividades.

A mesma UFPE que jacta-se de ter um dos mais renomados Centros de Informática (CIn) do Brasil - onde se originou a mais arrojada inciativa da Tecnologia da Informação como o CESAR e o Porto Digital - não cuidou de desafiar os seus cientistas e professores a buscarem soluções tecnológicas que pudessem ajudar os professores a não perder o contato com seus alunos e encontrar uma forma de redução dos danos da paralisação.

Esta semana, a UFPE - que já tinha anunciado que aulas físicas só mesmo em 2021 - anunciou que, daqui a um mês, portanto, cinco meses após o início dos problemas causados pela covid-19, oferecerá um semestre extra, chamado de Calendário Acadêmico Suplementar. Bela iniciativa se não chegasse quatro meses depois que a crise instalou. O semestre terá todas as disciplinas serão ministradas virtualmente.

Certo, professor, mas aula virtual, centenas de faculdades privadas já estão dando e com resultados bem interessante. A maior parte das faculdades privadas, por exemplo, já encerrou o seu semestre letivo 2020.1.

O problema é que a “novidade” da UFPE vem com um componente especial: A matrícula dos alunos é facultativa e os professores também têm autonomia para participar ou não.

Ou seja, estudante que não puder ou não quiser se matricular poderá voltar às atividades apenas quando o ano letivo de 2020 for reiniciado. E não acontecerá nada.

Com todo respeito, professor, mas se é para propor um semestre alternativo que o aluno e o professor não estarão obrigados a frequentar nem a ministrá-lo é melhor não propor nada.

Seria melhor permanecer no silêncio obsequioso que a UFPE se manteve até agora a despeito de se saber quer boa parte do seu corpo docente desejava tentar alternativas para oferecer aprendizado construindo alternativas com seus alunos.

O que mais chama atenção da proposta do semestre alternativo tipo “vai quem quer” e que, segundo a UFPE, foi “amplamente discutida com todos os segmentos da universidade” é que só tenha sido apresentada depois que os alunos pressionaram a instituição. Para que a instituição fizesse algum gesto diante da paralisia de quatro meses. Bom, o gesto se efetivado será implantado depois quase um semestre.

É importante que nesse debate se reconheça um argumento de vários educadores e, frequentemente usado pela UFPE, de que uma parte importante do corpo de 40 mil alunos, dos quais pouco mais de 30 mil estudam nos 109 cursos de graduação, não tem acesso a internet de qualidade como aliás, acontece com os alunos do ensino médio da rede pública estadual.

Mas, esse argumento vale para o aluno nessas condições de não participar do Calendário Acadêmico Suplementar. Ainda que a comunidade acadêmica formada por 2.504 professores possa oferecer as aulas.

Não é esse o objeto da crítica. O que se cobra da proposta é oferecê-la somente, em agosto, cinco meses depois da parda do ano letivo, e ainda assim como uma alternativa opcional.

O que se cobra de uma das três melhores universidade do Nordeste é a atitude de não ter buscado soluções de baixo custo e não ter desafiado seus chefes de departamento a se mexerem.

Ao contrário, com os salários pagos em dia, sem possibilidade de desconto de um único dia, a UFPE se comportou como se a covid-19 não lhe dissesse respeito.

Claro que temos dificuldades. Claro que parte dos alunos sofre mais que outros pela dificuldade de uma linha de internet. Mas a UFPE não podia esperar tanto tempo para reunir Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) para aprovar uma solução que centenas de faculdades já implantaram há meses e para a aplicação de aulas normais da graduação.

As aulas presenciais na UFPE estão suspensas desde 16 de março e a previsão é que só voltem em 2021. Esse é um fato do qual não podemos fugir. E a nova proposta apenas mostra como a UFPE preferiu a posição confortável de não desafiar seus cientistas e professores para se destacar e buscar soluções.

Claro que como a maioria da universidades públicas, onde a falta até de um ministro da Educação ajudou a escancarar a falta de prioridade do governo com o assunto, pode explicar. Mas, a UFPE tinha todas as condições de liderar ações que visassem descobrir alternativas dente desse desafio.

Dizer que a universidade está se organizando para ofertar internet e equipamentos para os alunos que não dispõem de acesso à tecnologia apenas constata o atraso da iniciativa. Esse era um tema de debate para ter sido feito em abril. Demorou.

Até porque a existência de redes sociais como WhatsApp estavam na lista desde março. Assim como plataformas em Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), Moodle e Google Classroom. Então por que não procurar soluções?

A proposta de semestre extra, chamado de Calendário Acadêmico Suplementar, é interessante. Mas a condição do estudante e do professor que não puder ou não quiser se matricular nos cursos oferecidos só reforça a ideia de a UFPE está tentando se redimir de uma falha na sua missão de ser um ente vivo e provocador às questões da sociedade.

Passa ideia de que ofereceu uma proposta que, se não tiver sucesso, não poderá haver cobranças a suas lideranças.

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