Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Agronegócio, que só dá notícia boa ao país, agora dá notícia ruim no supermercado

O Índice de Preços ao Produtor de Grupos de Produtos Agropecuários subiu 14,24% de janeiro a junho de 2020 frente ao mesmo semestre de 2019.

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 07/09/2020 às 21:00
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PRESSÃO Auxílio emergencial fez preços dos alimentos dispararem, o que refletiu na alta da inflação em 2020 - FOTO: DIVULGAÇÃO
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Uma das imagens mais icônicas do Brasil, em tempos de crise, é a performance do agronegócio. Moderno, tecnológico, altamente informatizado, usando cada vez mais inteligência artificial e investidor pesado em Tecnologia da Informação.

O agronegócio - que quer distância do pessoal que desmata e faz duras críticas por atrapalhar seu negócio internacional – só dá notícia boa com exportação. Mas agora está dando notícia ruim no supermercado da esquina.

Vai continuar dando. Pelo menos até o final do ano.

E os motivos são, essencialmente, dois: a disparada da cotação do dólar que passou de R$ 4,02, em 2 de janeiro, para R$ 5,33 na última sexta-feira. E as compras da China de toda proteína que estivesse disponível no mundo.

Segundo analistas de mercado, um dos motivos é que a China decidiu fazer estoques estratégicos de alimentos, depois de sentir o risco de faltar comida para mais de um bilhão de pessoas por causa da paralisação provocada pela pandemia. Ameaçada pela guerra comercial com os Estados Unidos, o Brasil era o fornecedor que estava disponível.

De janeiro a julho, o Brasil exportou para China 50,5 milhões de toneladas de soja, um volume 32% maior do que no mesmo período de 2019, diz Wagner Ikeda, analista sênior do Rabobank Brasil. “Entre 90% a 95% da safra de soja está vendida”, diz.

Com os preços subindo, as negociações foram retomadas e os preços pedidos têm reajustes que variam entre 40% e 50%. Além do leite, produtos como óleo de soja e arroz também estão tendo preços majorados. Porém os novos valores pedidos não são tão elevados quanto os do setor de laticínios.

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) afirma que está atuando para evitar a proliferação do coronavírus (Covid-19) no país. A entidade estava atenta aos avanços dos casos da doença e da necessidade da população em se proteger, principalmente, por meio de produtos essenciais à prevenção como álcool em gel, vendidos nas lojas. Mas o problema agora é com os preços dos alimentos.

Junto como os mercados de milho e arroz, o mercado de soja vem apresentando desempenhos que chamam a atenção neste ano. Em apenas seis meses, os preços subiram de R$ 102,3, a tonelada, para R$ 136,14 na última sexta-feira. A pressão é tão forte que a soja que será colhida em 2022 já começa a ser negociada no Brasil.

Os preços do milho seguem em acentuado movimento de alta no mercado interno. Em seis meses os preços subiram de R$ 53,0, a tonelada, para R$ 60,0 na última sexta-feira.

O caso do arroz não é diferente. No dia 1º de setembro, o Brasil teve novo recorde real na série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-USP), um aumento de 12,5%. Em seis meses, saiu de R$ 65,6, a tonelada, para R$ 103. Até o preço do açúcar subiu em 60 dia passou de R$ 60 para R$ 86.

Tem mais: no caso da proteína animal os números não são diferentes. Mas o caso do boi é mais expressivo. Em seis meses, os preços subiram de R$ 200,00 para R$ 240,00. Em seis meses, os preços do frango passaram de R$ 4,90 para R$ 5,30. Finalmente, o caso do suíno que saiu de R$ 3,80 o quilo para 7,40.

A consequência desse movimento no campo está sendo sentida nas gondolas dos supermercados. Os preços dos produtos da cesta básica subiram em 13 capitais e não há indicações de que o movimento seja revertido nos próximos meses.

Durante a quarentena, o consumidor brasileiro passou por mudanças, moldadas especialmente em preocupações atreladas à saúde, à segurança e a finanças.

Os supermercados e hipermercados, por exemplo, ganharam mais espaço como canais de compras de alimentos, devido, em partes, ao aumento de refeições preparadas em casa.

Desde o início de 2020, o preço do leite no campo apresenta alta acumulada real de 42,9%. Tradicionalmente, existe uma tendência típica de aumento das cotações ao produtor entre março e agosto. Mas esse ano o produtor está se assustando com o cheque maior.

E o que agrada o produtor, assusta o consumidor. O valor do leite spot (negociado entre indústrias) em Minas Gerais chegou a R$ 2,75, o litro, na segunda quinzena de agosto. Imagina o preço que ele vai chegar na ponta da gondola do supermercado?

O problema, segundo o Cepea, é que ao longo do primeiro semestre de 2020, a pandemia de covid-19 teve, em geral, um efeito altista nos preços agropecuários brasileiros, movimento esse que fugiu do esperado para esse período.

O Índice de Preços ao Produtor de Grupos de Produtos Agropecuários subiu 14,24% de janeiro a junho de 2020 frente ao mesmo semestre de 2019.

Segundo pesquisadores do Cepea, os efeitos da pandemia sobre os mercados ocorreram por meio de altas pontuais significativas na demanda interna, relacionadas às incertezas logísticas e de abastecimento, que elevaram os preços de importantes cadeias.

 

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