Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho
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Por Fernando Castilho
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Paulo Guedes agora trabalha apenas para criar "assistências" para Bolsonaro marcar posição

A proposta de travar os reajuste de quem recebe um salário minimo - o que é proibido atualmente pela Constituição - é um factoide criado para que o presidente rechaçar nas redes sociais.

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 15/09/2020 às 12:55
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ISAC NÓBREGA/DIVULGAÇÃO
O presidente quer um plano que não inclua a revisão ou a extinção de outros benefícios, como o abono salarial - FOTO: ISAC NÓBREGA/DIVULGAÇÃO
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Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios.

No basquete, a assistência é um passe final de uma jogada que resulta em cesta. Ela é bastante valorizada por contribuir diretamente para os pontos, pois o jogador que recebe a bola fica em uma posição privilegiada para o arremesso.

No futebol, é quando os meio-campistas realizam a tarefa de conectar-se ao ataque no momento certo e entregar a bola aos atacantes na frente do gol.

Na política brasileira, é quando a equipe econômica produz um factoide absurdo para o presidente desmentir nas redes sociais e faturar politicamente.

O ministro da economia, Paulo Guedes e, por consequência, sua equipe está se especializando em fazer assistências políticas. Ontem, a equipe de Guedes produziu mais uma assistência para Bolsonaro fazer uma enterrada hoje pela manhã.

Qualquer pessoa, razoavelmente informada, sabe que uma proposta de cancelar reajuste de aposentado, pensionista e até o pessoal do BPC é um despropósito.

E mesmo que tenha sido confirmada pelo secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, a medida que atingiria tanto quem ganha um salário mínimo (hoje, em RR$ 1.045) como os demais, é uma coisa de quem não tem o mínimo de sensibilidade politica o que não é o caso de Rodrigues.

Portanto, a proposta de travar os reajuste não só de quem recebe um mas também mais de um salário minimo - o que é proibido atualmente pela Constituição - é uma assistência política para que o presidente diga o que disse:

"Até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final", afirmou Bolsonaro, em vídeo postado nas redes sociais.

Claro que nem Paulo Guedes, nem Waldery e muito menos os secretários da equipe econômica sabiam que uma proposta dessas não iria adiante. A menos que os assessores que ainda ficaram na equipe de Paulo Guedes sejam um grupo de completos lunáticos fora da realidade política brasileira. E eles não são.

O ruim disso tudo é que esse tipo de atitude vai desmoralizando o ministro e, por consequência, seus assessores. Gente séria, de boa fé, que entrou no projeto e comprometeu seu currículo. Não é justo para uma servidor de alto nível ouvir Bolsonaro dizer:

"Eu já disse, há poucas semanas, que eu jamais vou tirar dinheiro dos pobres para dar para os paupérrimos. É gente que não tem o mínimo de coração, o mínimo de entendimento de como vivem os aposentados do Brasil".

Conversa. O presidente tem contato diário com o ministro da Economia e discute com eles uma série de possibilidades. O que surpreende é Paulo Guedes se prestar a esse papel.

O problema do presidente é que ele não sabe como arranjar dinheiro para pagar o Renda Brasil. Numa situação normal ele cortaria uma parte de dezenas de programas - que estão no orçamento e que não vão ser gastos mesmo - e aguentar a chiadeira de quem iria perder recursos. Mas ele não quer fazer isso. Na verdade, Bolsonaro agora não quer perder nenhum apoio.

O desafio de Bolsonaro no projeto do Renda Brasil é que ele não tem caixa.

Tem uma coisa que pouca gente sabe que existe nas contas públicas do governo federal, mas está dentro do Plano Anual de Financiamento da União. E atende pelo nome de Despesas Primárias a Serem Pagas com Fontes de Emissão de Títulos Públicos (empréstimo). Este ano, elas somam R$ 376,3 bilhões. Ou seja: aquilo que o governo vai ter que tomar no mercado financeiro.

Está escrito que, para 2020, além dos R$ 213,7 bilhões para pagar certinho o salário dos servidores federais, existem mais 9 bilhões do Bolsa Família. Porque, ao contrário das despesas previstas no orçamento que podem ser contingenciadas,  essa despesas têm que ser pagas no dia certo. Nessas despesas estão também os encargos sociais que somam R$ 84,4 bilhões.

Se o Bolsa Família - que tinha um orçamento previsto de R$ 29,48 bilhões para este ano -  já precisaria de R$ 9 bilhões pagos com Emissão de Títulos Públicos, imagina um programa estimado em, pelo menos, R$ 120 bilhões, se forem incluídos dos os beneficiários do Auxilio Emergencial inscritos no Bolsa Família e no CadÚnico?

Então, fica nesse vai e não vai com a equipe econômica fazendo esse papel. No fundo, a verdade é que Bolsonaro e Paulo Guedes não sabem onde arranjar cerca de R$ 80 milhões - além dos 34,85 bilhões previstos para o Bolsa Família em 2021 no orçamento.

E aí a equipe econômica fica inventando factoides. Ou... assistências.

 

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