Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

JC Negócios

Por Fernando Castilho
castilho@jc.com.br

Informação e análise econômica, negócios e mercados

Planejamento energético

O efeito de gatilho que vem do Amapá

Outros Estados brasileiros, inclusive Pernambuco, não estariam livres de um apagão de grandes proporções

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 12/11/2020 às 8:18
RUDJA SANTOS/DIVULGAÇÃO
Justiça já teve de dar três prazos diferentes, exigindo o retorno imediato da luz no Amapá - FOTO: RUDJA SANTOS/DIVULGAÇÃO
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Por Leonardo Spinelli, para a coluna JC Negócios

Inspirado no texto do historiador britânico James Burke.

Toda a tecnologia que nos rodeia forma o jeito que nós pensamos e nos comportamos, uma intricada cadeia de sistemas sem os quais seria impossível de viver nas grandes cidades. Não precisamos saber como funcionam os  chips de um computador ou a mecânica de um elevador, simplesmente usamos sem nos importar muito sobre as milhares de pessoas que pensaram em cada detalhe do funcionamento dessas máquinas e de outras tantas que, no passado, trouxeram ideias novas que foram sendo incorporadas ao longo da história.

Está além da capacidade de um indivíduo entender todos os detalhes. As invenções humanas que nos servem a todos formam uma vasta rede que se complementam entre si. Uma cidade para funcionar precisa de uma gigantesca rede de suprimentos, a maioria produzidos fora de seus limites geográficos.

Simplesmente acordamos e damos como certo que essa  rede complexa funcione a cada dia para tocarmos normalmente a nossa vida.

O apagão que transformou a vida de quase 90% da população do Amapá num inferno há 10 dias, no entanto, nos mostra como somos vulneráveis e dependentes de máquinas que individualmente sabemos pouco sobre seu funcionamento e do  trabalho vigilante de milhares de profissionais especializados envolvidos no bom funcionamento de todo esse equipamento. 

Bastou  um transformador pegar fogo para que todo o conforto proporcionado pela tecnologia saísse da vida dos amapaenses. O blecaute ensinou àquela população que a falta de energia não significa apenas dormir no calor úmido da região amazônica ,ou ficar no escuro, significa também ficar sem tomar banho, 756 mil pessoas estão nessa situação. Sem energia, as bombas de água da companhia distribuidora não conseguem abastecer as casas.

Foi um incêndio que comprometeu dois transformadores de uma subestação energética do Amapá,  segundo o Ministério de Minas e Energia. Um terceiro estava fora de uso. 

NOVA YORK

Acidentes acontecem, são imprevisíveis, mas há maneiras de contornar situações fortuitas com planejamento, e isso se sabe há bastante tempo. Um exemplo clássico aconteceu na região Nordeste dos EUA unidos em 1965, quando vários Estados e cidades, incluindo Nova York, ficaram sem energia. Conta-se que quase um milhão de pessoas ficaram presas dentro dos túneis do metrô por horas durante o horário de pico. Tudo por uma falha num equipamento elétrico chamado relé que apenas os iniciados na tecnologia elétrica sabem pra quê que serve.

A população não precisa saber, apenas precisa que os relés funcionem. Como resultado desse incidente, foram criados conselhos, novos padrões de coordenação entre os fornecedores e  planejadores para minimizar os riscos de novos apagões.

É neste sentido que se situa as principais críticas de técnicos da área energética no caso do apagão duradouro do Amapá. O evento não foi causado por um raio ou  explosão, mas pela falta de planejamento dos agentes públicos. Isso explica a revolta da população de Macapá contra os políticos a poucos dias de uma eleição municipal, que foi adiada sem data pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luíz Roberto Barroso.

No jargão do setor, a redundância, ou outra fonte de energia para evitar que uma região fique sem fornecimento que a rede principal cai, faz parte de um planejamento básico.

"É um erro primário. Você tinha no Amapá térmicas que poderiam ser ligadas em função do acidente, mas isso não aconteceu porque o governo descomissionou as térmicas", diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

O planejamento de energia de todo um Estado dependia apenas de uma única fonte. Foi o suficiente para, num pequeno acidente, deixar milhares de pessoas sob condições subumanas.

Segundo Pires, outros Estados brasileiros, inclusive Pernambuco, não estariam livres desse efeito de gatilho. "O evento traz responsabilidades para o Ministério de Minas e Energia. Trouxe a grande lição de que é necessário promover integração de energia elétrica com gás natural, uma energia de transição ainda pouco disponível no Brasil", diz o técnico.

Na visão do especialista, o Brasil tem que investir em térmicas flexíveis, de partida rápida, para gerar a citada redundância. Também precisa de térmicas de base, que funcionam o tempo todo e servem como gerenciadoras do nível dos reservatórios de fontes hidrelétricas. Num período seco, elas são mais demandadas ou quando o sistema principal falhar, há um reserva.

"O Nordeste dispõe de fontes intermitentes, solar e eólica, mas precisa de térmicas", diz. Hoje as usinas existentes, como a Termelétrica Pernambuco III instalada em Igarassu, são movias a óleo combustível. "A gente só tem térmica flexível, não tem as de base. O governo tem que olhar o Amapá como lição e repensar o sistema energético integrando a fonte de gás natural", diz.

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