Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

JC Negócios

Por Fernando Castilho
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Coluna JC Negócios

Mesmo com alta qualificação universitária, profissionais negros recebem menos salários no Brasil

A mobilização no Brasil em pautas relacionadas a discriminação contra negros ainda não é suficiente para diminuir a desigualdade de oportunidades.

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 25/11/2020 às 7:00
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Entre as mulheres negras presença em cargos de chefia é pequena mesmo com formação universitária. - FOTO: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios do Jornal do Commercio.

No Brasil de João Alberto, um cidadão negro que foi assassinado num loja do Carrefour há uma semana, o discurso de que a Educação é uma das formas pelo qual a população afrodescendente pode subir na escala social e financeiro encontra dificuldades mesmo naquela que conseguiram passa da graduação universitária.

Uma pesquisa da empresa de consultoria Catho mostra que a igualdade salarial entre brancos e negros ainda está longe de existir quando levamos em conta os níveis de escolaridade. Profissionais negros recebem menos mesmo com doutorado (-15%), mestrado (-23%) e MBA (-23%) e em todos os outros graus.

"Os negros não apenas são os que ganham menos em níveis hierárquicos e de escolaridade, mas também são os que mais enfrentam dificuldades para encontrar empregos, de acordo com o último levantamento do Pnad Continua, e todos esses dados têm origem no racismo", finaliza a gerente sênior da Catho, Bianca Machado.

Segundo os dados da Catho, os trabalhadores negros em todos os níveis hierárquicos recebem menos que os brancos. Em cargos de diretoria ganham, em média, 30% a menos e a desigualdade segue em todos outros níveis de atuação, como coordenador (-22%), especialista graduado (-13%), analista (-10%), especialista técnico (-10%), assistente (-4%) e operacional (-5%).

"O levantamento é mais uma constatação de que a discriminação racial está presente em todos os âmbitos da sociedade, inclusive, no mercado de trabalho", destaca a gerente sênior da Catho, Bianca Machado.

A Catho faz parte do grupo Seek, líder mundial em recrutamento online e considerada a companhia mais inovadora da Austrália e conta com mais de 700 colaboradores no Brasil, tem como missão mudar a vida das pessoas por meio do trabalho e carreira.

Na empresa, diversidade e inclusão também são estimuladas e vivenciadas de verdade. O levantamento da Catho foi feito com mais de 10 mil profissionais respondentes por todo o país.

As constatações da Catho não encontrou resultados diferente de outras investigações. O site VAGAS.com também encontrou cenário semelhantes. Os negros estão com participação reduzida em cargos de suporte, média e alta gestão. De acordo com o levantamento, os negros representam 8,9% dos cargos de nível pleno ante 13% dos brancos e 12% dos amarelos.

No cargo de direção é onde se constata a diferença mais acentuada: 0,7% dessas posições são ocupadas por negros enquanto os brancos, amarelos e indígenas aparecem com 2%, cada. Os negros só são maioria frente às demais raças em posições operacionais (47,6%) e técnicas (11,4%).

"São dados extremamente alarmantes e que comprovam a clara presença do racismo no mercado de trabalho. Os números mostram que esse público é totalmente discriminado, tendo mais espaço em cargos operacionais. Essa discrepância fica ainda mais notória quando analisamos o nível de graduação de todas as raças, comprovando que há uma clara distinção de oportunidades para os negros, especialmente em posições de suporte e gestão" segundo explica Renan Batistela, integrante do comitê de Diversidade & Inclusão da VAGAS.com.

O estudo mostra que em outros níveis hierárquicos, os negros também têm participação menor em relação aos outros grupos. É verificado em níveis de suporte à gestão como júnior (6,3% X 8% amarelos e 7% brancos), pleno (8,9% X 13% brancos e 12% amarelos) e sênior (3,5% X 6% brancos e amarelos, cada).

Em cargos de alta e média gestão, a desigualdade racial continua escancarada: supervisão/ coordenação (8,3% X 12% amarelos, 11% brancos e 10% indígenas) e gerentes (3,4% X 7% brancos e 6% amarelos).

O levantamento foi realizado em agosto último considerando o nível de cargo cadastrado pelos usuários da VAGAS.com.br e que preencheram o campo de declaração racial, ferramenta disponível na plataforma desde abril deste ano pela empresa que lançou recentemente um recurso de declaração racial.

Por meio dessa nova solução, os processos seletivos podem se tornar mais inclusivos e diversos. As empresas interessadas em utilizar a nova ferramenta têm de assinar um termo de responsabilidade para utilizar essa informação em seus processos seletivos. Já os candidatos precisam apenas preencher o campo de auto declaração no currículo da plataforma.

"Antes as empresas só descobriam a ausência ou baixa participação de profissionais negros no momento das entrevistas, e raramente reiniciavam as etapas anteriores para corrigir o erro. Além disso, para aquelas companhias interessadas em criar processos afirmativamente inclusivos, surgia a dúvida: mas onde encontro essas pessoas?", diz Renan Batistela.

Um outro estudo “Women in The Boardroom - Uma Perspectiva Global”, realizado pela Deloitte, em 2019, 25% das aberturas de empresas foram por mulheres. Em 2016, eram 18%. No período, também houve expansão de 7% no empreendedorismo feminino.

A mesma pesquisa porém revelou que a presença feminina em cargos de chefia é pequena. Em assentos de conselhos, subiu 1,9% desde 2017, chegando a 16,9% em todo o mundo. No Brasil, apenas 8,6% dos colegiados são preenchidos por mulheres. Especialmente se ela é negra.

Uma pesquisa feita pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas mostra que as mulheres empreendedoras negras são o segmento mais afetado pela pandemia do novo corona vírus entre todos os grupos de empreendedores brasileiros.

De acordo com o levantamento, os pequenos negócios liderados por mulheres negras representam a maior proporção entre as empresas que ainda permanecem com a atividade interrompida, são o grupo com maior dificuldade de funcionar de forma virtual e reúnem a maior proporção de empreendedores que tiveram crédito bancário negado em razão do CPF negativado.

A pesquisa ouviu 6.470 donos de pequenos negócios de todos os estados do país e Distrito Federal, entre os dias 25 e 30 de junho. Os dados mostram que enquanto 36% das empreendedoras negras estão com a atividade interrompida temporariamente, essa proporção cai para 29% entre as empresárias brancas e 24% entre os homens brancos (entre os homens negros, essa proporção é de 30%).

Essa dificuldade enfrentada pelas mulheres negras para manterem suas empresas em atividade é explicada, em parte, pelo fato de que os seus negócios só conseguem operar de forma presencial (27%). Entre as mulheres brancas essa proporção cai para 21% e entre os empreendedores brancos esse segmento representa 20% (entre os empresários negros esse percentual é de 25%).

Considerando o acesso a crédito, as empresas lideradas por mulheres negras também apresentam uma situação mais difícil. Segundo o levantamento, 58% dessas empreendedoras negras que pediram empréstimo não conseguiram obter crédito.

Esse percentual só é mais baixo que a proporção de homens negros (64%), que tiveram o pedido recusado. Já quando analisamos as razões apresentadas pelas instituições financeiras para a recusa, as mulheres negras apresentaram a maior proporção de CPF negativados (25%), contra 24% dos empresários negros, 17% de mulheres brancas e 15% de homens brancos.

A mobilização crescente no Brasil e no mundo acerca de pautas relacionadas a discriminação contra negros ainda não é suficiente para diminuir a desigualdade de oportunidades e de salários entre brancos e negros.

 

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