Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho
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Por Fernando Castilho
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Zelenograd, a cidade onde é feita a Sputnik V

Foi na planta da Binnopharm, em Zelenograd, que a Sputnik V começou a ser produzida, depois que o Instituto de Pesquisa Científica Gamaleya concluiu os estudos pré-clínicos da amostra experimental da vacina

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 28/02/2021 às 10:00
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Foi na planta da Binnopharm, em Zelenograd, que a Sputnik V começou a ser produzida. - FOTO: DIVULGAÇÃO
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Zelenograd. No ocidente, certamente, poucas pessoas já ouviram falar dessa cidade distante a 37 quilômetros de Moscou. Ela é o menor distrito da região que gravita ao redor da capital soviética, mas ainda assim, uma das 100 maiores cidades da Rússia.

Mas Zelenograd virou uma referência para a pandemia do coronavírus, por abrigar a planta industrial da Binnopharm, onde é fabricada a Sputnik V, a primeira vacina colocada pronta no mercado.

Foi na planta da Binnopharm, em Zelenograd, que a Sputnik V começou a ser produzida, depois que o Instituto de Pesquisa Científica Gamaleya concluiu os estudos pré-clínicos da amostra experimental de uma das vacinas contra o coronavírus.

Ela produz o chamado Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) e, também, a vacina na formulação final que é aplicada na população.

A fábrica da Binnopharm, em Zelenograd, faz parte do grupo farmacêutico russo Alium Sistema e é uma unidade de produção biofarmacêutica de ciclo vertical completo.

Ele ocupa uma área de 32 mil m². Antes da Sputnik V, o principal produto da Binnopharm era a Regevac, uma vacina contra hepatite B desenvolvida pela empresa.

A Sputnik V foi primeira vacina de coronavírus do mundo, mas foi recebida com desconfiança pelo mundo científico ocidental por não divulgar detalhes técnicos de seu desenvolvimento. Só este mês, depois do primeiro artigo científico publicado na revista internacional The Lancet, vieram mais informações sobre ela.

E, como a maioria dos produtos da indústria farmacêutica russa, sofre de preconceito sobre sua pesquisa e processos de produção, especialmente na Europa e Estados Unidos.

Entretanto, no Oriente Médio e países vizinhos à antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a nova indústria farmacêutica russa é quem domina o mercado, pelo dinamismo de Moscou e outras grandes cidades da Rússia, depois que empresas privadas passaram a ser financiadas pelo governo e pelo Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID). Essa megacorporação foi criada pelo Governo Putin para bancar financiamentos que vão de estradas a medicamentos.

O Grupo Alium Sistema - que é dono da Binnopharm, que fabrica a Sputnik V - é uma holding farmacêutica apoiada pelo fundo. Ele foi criado por meio da fusão da Binnopharm com a OBL Pharm, uma das farmacêuticas líderes russas constituída a partir do apoio do fundo russo.

O fundo, por sua vez, é parceiro dos Fundos de Investimento Russo-Chinês e uma série de outros veículos de investimentos do Oriente Médio e Leste Europeu. A área de produção de fármacos da Alium Sistema ocupa um quarto de todas as instalações de alta tecnologia da região de Moscou.

Isso explica porque, assim que o Instituto Gamaleya fechou a pesquisa da Sputnik V, a Binnopharm, junto a sua fábrica pôde iniciar imediatamente a produção, fechando uma cadeia produtiva que vai da fábrica de vidros a seringas e embalagens.

E porque, enquanto isso acontecia, os diretores do FRID cuidavam de fechar os contratos de entrega em vários países, garantindo entrega rápida e sem as exigências contratuais das indústrias americanas como a Pfizer e a Moderna.

O problema da Sputnik V é que o mundo acadêmico ocidental não tem o volume de informações sobre sua pesquisa clínica como as demais vacinas, com dezenas de artigos publicados. A própria Anvisa, no Brasil, tem restrições e se queixa da falta de informações científicas em revistas internacionais.

Um desses entraves é que quem se apresenta como o vendedor no Brasil é o representante do FRID. Foi ele quem fechou a parceria com a empresa brasileira União Química que já tem sua fábrica pronta para processar as vacinas russas assim que receber o IFA da unidade de Zelenograd.

Além disso, a Sputnik V está no centro de um debate no Congresso pela liberação, pela Anvisa, sem que seja analisada no Brasil ou ter a chancela de ao menos uma das grandes agências reguladoras internacionais, além da própria agência russa.

A Sputnik V, que é uma vacina russa baseada no vetor de adenovírus e foi registrada pelo Ministério da Saúde da Rússia em 11 de agosto de 2020, e se tornou a primeira vacina contra o novo coronavírus SARS-COV-2 no mercado.

Desenvolvida pelo Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, os ensaios clínicos de Fase 1 e 2 foram concluídos em 1º de agosto e os ensaios clínicos pós-registro foram testados em mais de 40 mil pessoas.

 

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Vacina da Rússia Fábrica de Zelenograd Moscou - DIVULGAÇÃO

BRASIL É CONSIDERADO ESTRATÉGICO

A importância do Brasil para a estratégia da Rússia para ter a Sputnik V na América do Sul pode ser avaliada pelo destaque que o CEO do Fundo Russo de Investimentos Diretos (FRID), Kirill Dmitriev, conferiu ao anunciar, em Moscou, parceria com a brasileira União Química para fornecer 150 milhões de doses de sua vacina ao Brasil neste ano.

Dmitriev acertou com o presidente da empresa, Fernando de Castro Marques, o envio de 10 milhões da vacina antes que o princípio ativo da vacina comece a ser produzido na unidade da União Química, em Brasília, e o fracionamento da vacina será feito numa unidade de Guarulhos, graças à transferência tecnológica, garantida pelo FRID e o Instituto Gamaleya.

Marques entrou no noticiário em função de sua presença no Brasil de modo a reduzir a resistência da Anvisa. Depois de contratar o ex-deputado Rogério Rosso como diretor de Negócios Internacionais, no começo do mês ele contratou o ex-diretor da agência, Fernando Mendes, para sua área de relações institucionais.

A atuação da União Química está na origem da edição de uma Medida Provisória (nº 1026) que dispensou de licitação para a compra de vacinas e a autorização do uso emergencial pela Anvisa do imunizante em até cinco dias. Ela levou o diretor da agência, Antônio Barra Torres, a pedir ao presidente Jair Bolsonaro que vete o artigo. Torres foi ao Planalto depois que o líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros, dizer que iria enquadrar a Anvisa.

A pressão da União Química já obteve resultados. O Ministério da Saúde autorizou, a dispensa de licitação para comprar as vacinas russa, Sputnik V e Covaxin, indiana O custo dessas duas compras somam R$ 2,3 bilhões dos quais R$ 693,6 milhões da vacina Sputnik V.

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Instituto de Pesquisa Científica Gamaleya - DIVULGAÇÃO

O DESCONHECIDO INSTITUTO GAMALEYA DE MOSCOU

Criador da Sputnik V, o Centro Nacional de Pesquisa Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde da Rússia, era praticamente desconhecido na maioria dos países do ocidente, a despeito de ter 130 anos.
Nikolay Fyodorovich Gamaleya, que foi aluno do francês Louis Pasteur, em Paris, é considerado o pai das vacinas na Rússia.

Na era Putin, o Gamaleya virou âncora do programa de produção de vacinas, focado nos países que circunvizinham os antigos integrantes da chamada cortina de ferro e do Oriente Médio, que tem pouca oferta de medicamentos.

Ele tem uma das maiores "bibliotecas de vírus" do mundo e possui sua própria unidade de produção de vacinas.

Em 2015, entregou duas contra a febre ebola usando a plataforma de vetores de adenovírus. E quando surgiu o coronavírus, trabalhava no desenvolvimento de vacinas contra influenza e da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) que no ocidente é desconhecida.

Quando ficou evidenciada a busca por uma nova vacina, o Fundo Russo de Investimentos Diretos apostou no Gamaleya. O fundo, que tem negócios de US$ 40 bilhões, com 18 países, selecionou e financiou a criação dos sistemas mais promissores para testes de presença de coronavírus, medicamentos para seu tratamento e vacinas.

Além da Sputnik V (nome dado pelo Governo russo), o Gamaleya pesquisa Ebola, MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), gripe e coqueluche.

Ele desenvolveu o fluorotiazinona, um medicamento para o tratamento de infecções bacterianas largamente usado no país. E dentro da burocracia russa, ele é classificado como uma Instituição Federal Orçamentária do Estado.

Entretanto, mesmo tendo lançado, em agosto, a Sputnik V, os cientistas ocidentais advertiram que o Gamaleya não tinha publicado nada em uma revista científica de renome.

E somente quando, no último dia 21, o Dr. Denis Logunov e seus colegas, publicaram seu artigo na The Lancet, as desconfianças foram reduzidas. Logunov relatou os resultados provisórios de um ensaio clínico de Fase 3 da vacina Sputnik V Covid-19, revelando eficácia de 91,4% e revelou que a rota de proteção do adenovírus recombinante estava sendo compartilhada com as vacinas Oxford - AstraZeneca, Johnson & Johnson e o CanSinoBIO-Beijing Institute.

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ARMA DE INFLUÊNCIA GEOPOLÍTICA

Assim como a americanas Pfizer e Moderna e a inglesa AstraZeneca têm nas suas vacinas um importante instrumento político no disputado mercado de medicamentos global, China, Índia e a Rússia vêm na produção das vacinas contra o coronavírus uma forma de ter uma presença mais visível no setor de fármacos.

A China já se consolidou como produtora de vacinas e plantas industriais. A Índia virou o maior produtor mundial de insumos para medicamentos básicos e tem lugar demarcado no Ocidente. Mas a nova indústria de fármacos russa vê na Sputnik V o seu novo cartão de apresentação.

A Rússia se orgulha de ter uma importante pesquisa de fármacos, plantas industriais completas e centenas de produtos que são inteiramente desconhecidos fora do Leste Europeu.

O Fundo Russo de Investimentos Direto virou o veículo financeiro para avançar nessa estratégia de classe mundial. Na nota de apresentação da Sputnik V, por exemplo, se revela que, aos menos oito empresas estiveram ligadas à produção do insumo, além de outras seis com itens que vão de vidros, embalagens e uma série de insumos que dão uma visão de como a Rússia verticalizou internamente sua produção de fármacos.

O próprio projeto da Sputnik V, bancado pelo FRID, envolveu, além da Binnopharm, a farmacêutica R-Pharm que faz parte do grupo Alium Sistema. O esforço da Rússia com a vacina "Sputnik V" já permitiu que ela fosse registrada em mais de 35 países, incluindo países da América do Norte e do Sul, Oriente Médio, Europa, Ásia e África.

A Rússia já fechou acordos de produção com a Coreia do Sul e Índia e está negociando com a China e Bielorrússia. E fez uma aposta alta com a França que, inclusive, mandou suas equipes a Moscou para conhecer as plantas. Foram recebidos pelo diretor-geral do FRID, Kirill Dmitriev que, desde o começo cuida das negociações com os governos.

 

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