Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Carlos Garcia formou uma geração de jornalistas de precisão quando nem se falava de jornalismo de dados

Carlos Garcia ajudou a formar uma geração de jornalistas, sempre exigindo boa apuração e qualidade nos textos

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 27/04/2021 às 16:55
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ARQUIVO PESSOAL
Jarbas Vasconcelos e Carlos Garcia que por muitos anos frequentou a sede da Sucursal do Estadão na Rua do Riachuelo. - FOTO: ARQUIVO PESSOAL
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O falecimento do jornalista Carlos Garcia, ex-presidente da AIP, que aos 87 anos foi vítima da covid-19, representa a perda de um dos mais respeitados profissionais da Imprensa de Pernambuco - pelo seu compromisso ético, sua atuação humanitária e profissionalismo, mas sobretudo por ter ajudado a fazer um tipo de apuração que a gente hoje chama de jornalismo de precisão, mineração de dados e pesquisa de documentos em fontes primárias.

>>> Morre Carlos Garcia, ex-secretário de Cultura de Jarbas Vasconcelos

Podemos chamar isso de entrevista de números com capacidade cognitiva. E isso exige conhecimento dos fatos, capacidade de interpretação da informação no contexto histórico, com um pouco de maldade no texto para atrair o leitor.

É importante lembrar ao mais novos. Não existia a internet, a planilha Excel e a máquina de calcular era, no máximo, uma HP que só quem conhecia era engenheiro.

Outras pessoas com mais propriedade podem falar de sua atuação politica e suas ligações com a Esquerda brasileira. Certamente podem acrescentar mais que o que esta escrito aqui.  

Mas o curioso é que "Seu Garcia" começou a fazer isso quando passou a liderar a lendária sucursal do Estado de São Paulo, na Rua do Riachuelo com Gervásio Pires. A gente só tinha os dados dos relatórios do IBGE, da Sudene, da Chesf e das secretarias em papel.

Dessa sucursal saíram jornalistas como Homero Fonseca, Ricardo Carvalho, Ângela Lacerda, Geneton Moraes, Paulo Moraes, Ernesto Neves, Feliz Filho e uma penca de gente do primeiro time que disputava manchete a nível nacional falando do Nordeste o que dava certo e o que dava errado.

Era um trabalho duro juntar dados. Era entrar de manhã, pegar um monte de relatório do IGBE e sair cruzando dados para no final da tarde obter uma informação. Garcia exigia apuração precisa e checagem de dados, porque o problema era que o erro era cobrado do outro lado numa tempestade de informações dos contestados.

As pessoas falam de Carlos Garcia pelo inúmeros depoimentos da sua atuação contra o Regime Militar (1964-1985), tendo já desde 1963, na presidência da AIP, lutado contra ações que culminaram no AI-5. Como está nas atas da AIP que ajudou a fundar, não faltam registros da sua atuação em defesa da democracia e dos colegas de redação.

Mas é importante lembrar do Carlos Garcia que exigia informação de qualidade de modo incontestável. Até porque na mesma rua, na Sucursal do jornal o Globo, estava Ronildo Maia Leite - que era tão exigente quanto Garcia. Era a briga do Rio de Janeiro contra São Paulo pelo que hoje a gente chama de jornalismo de precisão.

Ah, a sucursal do Estadão era o ponto de dezenas de políticos que iam lá para se informar e saber o que os jornalistas estavam apurando. Isso vai de Jarbas Vasconcelos, Maurilio Ferreira, Lima Fernando Lyra, Raul Jungmann, Cristina Tavares Correia e não raro o pessoal da Direita que passava lá para conversar sobre política. Curiosamente com um sujeito que foi vitima da tortura nos tempos da Ditadura

Isso num tempo em que o telefone era analógico, todos os documentos estavam guardados em bibliotecas físicas e terminar uma pauta para página inteira durava até 15 dias ou até um mês. E quando ser estagiário na Sucursal do Estadão era o passaporte para entrar por cima na Redação do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco.

Claro que a visão de mundo e a capacidade de interpretação dos fatos e sua posição de intelectual de esquerda ajudavam a formular e formar muita gente. Mas é importante não deixar de registrar isso da personalidade de Carlos Garcia. Um sujeito sério, às vezes calado, e que falava de tabelas, gráficos e dados bem apresentados e com leitura fácil quando o jornalismo invariavelmente era debatido nas mesas do Bar Mustang, da Avenida Conde da Boa Vista, onde ninguém falava da pauta secreta que estava trabalhando para a edição de domingo.

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