Mais tecnologia a favor do trânsito, por favor

Publicado em 25/03/2018 às 16:00
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Com tecnologia de ponta, seria possível otimizar os resultados dos cruzamentos semafóricos e aliviar alguns gargalos, como a saída da Zona Sul do Recife. Foto: Arnaldo Carvalho/Drone/JC Imagem

 

Precisamos de mais tecnologia a favor do trânsito para beneficiar a circulação de veículos, tanto o transporte público quanto o automóvel. Usemos o exemplo do tráfego de saída da Zona Sul do Recife, alvo de polêmica porque os motoristas de carro viram o tempo de viagem triplicar depois da implantação da Faixa Azul na Avenida Antônio de Góis, no Pina. No entendimento técnico, se a Prefeitura do Recife tivesse uma rede semaforizada mais moderna, com controle de tráfego em tempo real, poderia haver um ganho imediato de 15% a 20% na fluidez da circulação.

De fato, há alguns cruzamentos na saída do Pina, seja pela Via Mangue ou pelas Avenidas Boa Viagem, Conselheiro Aguiar e Antônio de Góis, em que se percebe uma ociosidade de verde nos semáforos. Ou seja, os veículos ficam parados no cruzamento sem que haja um volume de tráfego na via transversal. No controle em tempo real, automaticamente o sistema identifica que não há veículos e estende o tempo de verde para o corredor com maior tráfego. O sistema que temos hoje não permite a otimização”, Bernardo Limongi, da SinalVida

Ou seja, com semáforos mais modernos, se perderia menos tempo de verde nas vias com maior volume de veículos, ampliando a capacidade de vazão nos cruzamentos. E tecnologia para isso não falta. Um exemplo é o Software de Controle de Tráfego Adaptativo em Tempo Real (Scats), um sistema australiano que já está sendo utilizado na Região Metropolitana do Recife com excelentes resultados.

Na prática, o sistema identifica a quantidade de veículos em cada corredor de um determinado cruzamento e, em tempo real, amplia o tempo de verde para a via que tem maior volume. A nova tecnologia já está funcionando no Grande Recife, precisamente na BR-101, na altura do centro urbano de Abreu e Lima, e com resultados positivos. O tempo de retenção caiu 50%. Os veículos que demoravam, em média, dez minutos para percorrer os dois quilômetros da travessia urbana, agora estão levando metade do tempo. O mesmo sistema chegou a ser testado na capital, em 2013, num cruzamento da Avenida Abdias de Carvalho, Zona Oeste, também com bons resultados e sob supervisão da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), mas não foi incorporado pela gestão municipal.

 

A diferença para a tecnologia hoje predominante na rede semafórica não só do Recife, mas de toda a Região Metropolitana, são semáforos com pré-programação. O chamado controle de tráfego a tempo fixo. Eles funcionam da seguinte forma: com base em contagens feitas anteriormente, que seguem padrões de volume de veículos a partir de horário, dia da semana e sentido de tráfego, o engenheiro de tráfego faz uma programação fixa para cada horário.

Em muitos casos, essa programação pode ser alterada da central controle operacional, mas por não haver uma leitura em tempo real, é grande o risco de a alteração de um conjunto semafórico impactar em outros. Esse modelo predomina na grande maioria dos 700 cruzamentos semaforizados do Recife, por exemplo. A capital, inclusive, ainda coleciona um modelo ainda mais antigo: cuja programação, além de ser manual, é feita apenas presencialmente.

 

 

Central de controle operacional instalada no Dnit. Foto: Divulgação Bernardo Limongi, diretor da SinalVida, empresa de dispositivos de segurança viária que está à frente do contrato na BR-101, explica as vantagens do controle de tráfego adaptativo em tempo real. “O volume de veículos num conjunto de cruzamentos é monitorado por câmeras que alimentam, constantemente e em tempo real, uma central de controle operacional.

Com esses dados enviados continuamente, a central faz o cálculo dos tempos de verde necessários para cada semáforo dar vazão a maior quantidade possível de veículos, defasagens e ciclos, tudo sendo sincronizado em tempo real”, diz o diretor. Tudo é feito de forma automática e independente da ação de um operador. “A programação dos semáforos se adequa ao exato momento do tráfego para otimizar a circulação dos veículos e, dessa forma, evita a formação de engarrafamentos. Por isso a vantagem sobre o sistema de controle de tráfego a tempo fixo. Esse tipo de sistema é mais limitado porque é pré-programado.

E, como o trânsito é algo dinâmico, que sofre constantemente interferências externas, a programação em tempo real ajuda muito. É claro que há o limite da via provocado pela quantidade de veículos, que não tem tecnologia que dê solução. Mas até alcançar esse limite há uma margem grande”, completa Limongi.

 

Tecnologia instalada em semáforo da BR-101, em Abreu e Lima, reduziu as retenções em 50%

APLICAÇÃO

Na avaliação do engenheiro elétrico, o conjunto de semáforos que compõem a saída da Zona Sul do Recife seria um ambiente perfeito para testar a tecnologia, com expectativa de sucesso certo. “De fato, há alguns cruzamentos na saída do Pina, seja pela Via Mangue ou pelas Avenidas Boa Viagem, Conselheiro Aguiar e Antônio de Góis, em que se percebe uma ociosidade de verde nos semáforos. Ou seja, os veículos ficam parados no cruzamento sem que haja um volume de tráfego na via transversal. No controle em tempo real, automaticamente o sistema identifica que não há veículos e estende o tempo de verde para o corredor com maior tráfego. O sistema que temos hoje não permite a otimização”, ensina.

CUSTO

A tecnologia, entretanto, custa caro. O monitoramento de um cruzamento pelo software de controle de tráfego adaptativo em tempo real custaria, em média, R$ 55 mil. Custo dividido da seguinte forma: R$ 40 mil de equipamentos, R$ 16 mil do software e R$ 500 de manutenção mensal. Mas, lembrando que o valor do software reduz de acordo com a quantidade de cruzamentos. Ou seja, quanto mais cruzamentos menor o preço. CTTU Por nota, a CTTU afirmou que o uso do controle de tráfego adaptativo em tempo real, de fato, já foi testado na cidade e está sendo considerado para uma futura licitação operacional. Não dá prazos - o que seria o mínimo, já que o trânsito é dinâmico  -, mas diz que tem interesse. Confira a reposta na íntegra: "A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) informa que, desde 2013, vem investindo cada vez mais em tecnologia para a gestão de trânsito, a exemplo da implantação de novos e mais mordernos equipamentos de fiscalização eletrônica, câmeras de monitoramento em alta resolução, implantação de nobreaks, compra de talonários eletrônicos, contratação de softwares de simulação para projetos de engenharia de tráfego etc.

Em relação à rede semafórica não é diferente, uma vez que a CTTU já avaliou a viabilidade do Sistema de Semáforos adaptativos com a programação dinâmica, utilizados por empresas detentoras dessa tecnologia e que prestam o serviço em diferentes cidades. No momento, a Autarquia trabalha no novo termo de referência para a contratação do serviço, onde as inovações tecnológicas, como sistema adaptativo em tempo real, estão sendo levadas em consideração. O investimento é de cerca de seis milhões de reais por ano".

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