LUTO

Morre o delegado Josedite Ferreira, que investigou o Caso Arturo Gatti

Investigador ficou conhecido mundialmente em 2009, após afirmar que a morte do boxeador canadense em Porto de Galinhas tratava-se de homicídio

Raphael Guerra
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Raphael Guerra
Publicado em 08/10/2021 às 20:54 | Atualizado em 09/10/2021 às 8:47
ALEXANDRE BELÉM/ACERVO JC IMAGEM
Delegado Josedite Ferreira - FOTO: ALEXANDRE BELÉM/ACERVO JC IMAGEM
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Morreu, aos 74 anos, nesta sexta-feira (08), o delegado aposentado Josedite Ferreira. O falecimento dele foi confirmado em nota oficial pela Polícia Civil de Pernambuco, onde ele atuou por 30 anos. Josedite, que por muitos anos atuou investigando assassinatos no Estado, ficou conhecido internacionalmente em 2009, após afirmar que a morte do boxeador canadense Arturo Gatti, 37 anos, em um flat na praia de Porto de Galinhas, no Litoral Sul do Estado, tratava-se de um homicídio. 

Leia: Lembra do Caso Arturo Gatti? Boxeador canadense foi encontrado morto em flat em Porto de Galinhas em crime misterioso

A causa da morte do delegado aposentado não foi informada. Em nota publicada nas redes sociais, a Polícia Civil destacou que Josedite Ferreira "prestou relevantes serviços de Polícia Judiciária à população, tendo desempenhado as suas atividades com correção e compromisso em diversas delegacias". Também foi agraciado com a Medalha do Mérito Policial Civil - Classe Prata e a Medalha de Tempo de Serviço Policial Civil - Classe Ouro e Classe Prata. 

O CASO ARTURO GATTI

Poucas horas depois de ter início mais um plantão no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a força-tarefa sul foi acionada. A equipe, comandada pelo delegado Josedite Ferreira, seguiu às pressas para a praia de Porto de Galinhas. Não era um caso comum: um ex-boxeador canadense havia sido encontrado morto dentro de um flat. Era manhã de 11 de julho de 2009. O corpo de Arturo Gatti estava caído no meio da sala. O pugilista trajava apenas cueca. Ao lado, uma alça de bolsa suja de sangue. Peritos criminalistas encontraram duas marcas de ferimentos: uma no pescoço e outra na parte de trás da cabeça dele. À polícia, Amanda Rodrigues, esposa de Gatti, contou que foi a primeira pessoa a encontrar o corpo. Dizia estar em choque pelo suicídio do marido.

Foto: Alexandre Belém/JC Imagem
Dentre os pedidos feitos pelo MPPE está o esclarecimento por parte do Instituto de Criminalística (IC) a respeito da análise da tração e resistência da alça de uma bolsa, que teoricamente serviu para o enforcamento da vítima - Foto: Alexandre Belém/JC Imagem

Diante do cenário, Josedite Ferreira pediu que ela o acompanhasse até o DHPP. Era preciso, naquele momento, um depoimento formal da mulher - a única que estava dentro de casa com o lutador, além do filho do casal, de apenas um ano. Delegado experiente, Josedite não tinha dúvidas: Amanda havia assassinado o próprio marido, por enforcamento, enquanto ele dormia. Mas tudo foi negado por ela, que revelou ter tido uma discussão na noite anterior por conta de ciúmes. Gatti, embriagado, teria a agredido. Mesmo assim, foram para casa e dormiram. Somente no meio da manhã, ao acordar, é que ela teria visto o corpo e acionado a polícia. Ao final do depoimento, a surpresa.

Na condição de viúva, ela foi informada que seria autuada em flagrante por homicídio e encaminhada à Colônia Penal Feminina. "Há contradições", sentenciou Josedite Ferreira. À imprensa, ele ainda afirmou que a mulher teria questionado sobre a possibilidade de outra pessoa ter entrado no quarto. "Humanamente impossível isso. No quarto só entra quem tem cartão magnético. E fica no segundo andar. Não tinha como alguém ter subido pela janela", disse à época.

Foto: Clemilsom Campos/JC Imagem
Amanda Carine Barbosa Rodrigues chegou a ser presa após a morte de Gatti - Foto: Clemilsom Campos/JC Imagem

Amanda permaneceu por 19 dias presa até que a Justiça concedeu o habeas-corpus, graças a uma reviravolta no caso. Laudos dos institutos de Medicina Legal e Criminalística apontaram que o ex-boxeador havia cometido suicídio. O delegado Paulo Alberes, que havia assumido as investigações, decidiu seguir a tese dos peritos e encerrou o caso concluindo que Amanda era inocente e que a vítima tirou a própria vida em um momento de fúria. Mas os familiares de Gatti não aceitaram esse resultado. Para eles, a mulher do ex-boxeador foi responsável pelo assassinato dele com o objetivo de ficar com a herança. O testamento havia sido modificado cerca de um mês antes dele morrer. Nas linhas, Gatti afirmava que tudo seria deixado para Amanda e para os filhos. O Ministério Público de Pernambuco seguiu a tese da polícia. Pediu o arquivamento do processo.

Em 2011, o caso Arturo Gatti volta à tona:peritos particulares, contratados pela família do lutador revelam supostas contradições nos laudos dos profissionais pernambucanos. Eles concordaram com a teoria do enforcamento. Mas, enquanto os peritos daqui afirmaram que a morte foi provocada por asfixia após o ex-boxeador se enforcar, os estrangeiros garantiram que a asfixia foi provocada por "ação homicida". A novela Gatti ganhava novo capítulo.

O Ministério Público de Pernambuco decidiu analisar as duas perícias para decidir se o caso seria reaberto. E foi o que aconteceu meses mais tarde, já em 2012. A promotora de Justiça Paula Catherine Ismail anunciou à imprensa que novas diligências e solicitações de perícias complementares seriam necessárias para esclarecer a morte de Gatti. Amanda Rodrigues estava de volta à condição de suspeita. Mas com um vitória: a Corte Superior de Justiça da cidade de Quebec, no Canadá, decidiu que ela e o filho teriam direito a US$ 3,4 milhões (aproximadamente R$ 6,1 milhões) do patrimônio do ex-lutador.

Sem alarde, todas as solicitações de perícias foram atendidas, a pedido da Justiça. No ano seguinte, a promotora afirmou novamente que Gatti cometera suicídio. O caso estava encerrado. "Não havia qualquer indício de homicídio nos exames realizados pelos peritos. Para mim, não há dúvidas de que foi suicídio. E a justiça acatou a recomendação do Ministério Público para que o processo fosse arquivado", revelou a promotora Paula Ismail, em entrevista à coluna Ronda JC em 2016. 

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