Saúde

O velho coronavírus: qual a gravidade? Especialistas explicam

Dos dez casos descartados em Pernambuco um positivou para beta coronavírus OC43, um dos mais comuns que infectam humanos

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 03/03/2020 às 13:25
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Daniel Leal Olivas/AFP
O beta coronavírus OC43 já circula há um tempo entre os humanos, mas não é investigado na rotina laboratorial - FOTO: Daniel Leal Olivas/AFP
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O H1N1, que tem maior tendência a causar complicações respiratórias do que outros subtipos do vírus da gripe, continua a predominar entre os casos descartados, em Pernambuco, do novo coronavírus, responsável pela epidemia de Covid-19 (nome da doença provocada pelo vírus) que surgiu na China no fim do ano passado. Até ontem, dos 14 casos suspeitos do novo coronavírus no Estado, dez haviam sido descartados. Quatro deles positivaram para H1N1, dois para influenza B (outro subtipo de gripe), três para nenhum vírus respiratório e um curiosamente para beta coronavírus OC43 – um dos mais comuns que infectam humanos, ao lado do alpha coronavírus 229E e NL63 e do HKU1.

“Vamos aproveitar esta oportunidade para acalmar a população e falar que o coronavírus identificado ocasionalmente (no paciente que teve o caso descartado para Covid-19) não tem nada a ver com o novo coronavírus, que não está presente em Pernambuco”, informa o chefe do setor de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Demetrius Montenegro. Ele destaca que o beta coronavírus OC43 já circula há um tempo entre os humanos, mas não é investigado na rotina laboratorial. “O OC43 não tem importância clínica. Ele causa um resfriado comum e, por isso, só é investigado quando pesquisas são realizadas ou quando há vigência de um surto (de vírus respiratórios). Não há motivos para preocupações.”

O infectologista acrescenta que, mesmo se houver caso confirmado em Pernambuco, a população não precisa desesperar-se. “Trabalhamos para evitar que a epidemia aconteça. Precisamos ter calma. A população tem que lavar as mãos, evitar passá-las nos olhos e nariz. Não adianta colocar máscara se não lavar as mãos”, frisa.

Não foi a primeira vez que o velho coronavírus (o beta coronavírus OC43) foi encontrado laboratorialmente em Pernambuco. Entre abril de 2008 e março de 2009, o estudo “Detecção bacteriana viral e atípica na infecção respiratória aguda em crianças menores de cinco anos”, conduzido no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), pela pneumologista pediátrica Patrícia Bezerra, detectou que os coronavírus foram encontrados em 3,2% das amostras, sendo o OC43 o mais comum (1,7%). “Como foi uma amostra de crianças, 69% abaixo dos 12 meses, a frequência do VSR (sigla para vírus sincicial respiratório, associado à bronquiolite) é mais importante. Provavelmente, na população geral (em todas as faixas etárias), o beta coronavírus OC43 é bem mais frequente”, esclarece o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia. Pediatra e infectologista, ele também participou do estudo, publicado no periódico científico Plos One em 2011.

Diagnóstico 

Ontem a Secretaria Estadual de Saúde anunciou que terá capacidade laboratorial para diagnóstico do novo coronavírus. Amanhã o Ministério da Saúde começa a distribuir kits de teste específico para o Covid-19 a alguns Laboratórios Centrais de Saúde Pública do País. No Nordeste, os testes serão encaminhados à Bahia, ao Ceará, a Sergipe e a Pernambuco. Com a chegada dos kits, o ministério irá capacitar os técnicos estaduais.

No Estado, os testes serão realizados pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE). O Instituto Aggeu Magalhães, unidade da Fiocruz no Estado, será parceiro do Lacen-PE, estudando a biologia do vírus, com sequenciamento genético e análises comparativas por ferramentas de bioinformática. “Essa descentralização é importante para que o País possa dar uma resposta mais rápida aos pacientes e à sociedade sobre as suspeitas de coronavírus. Agilizar o diagnóstico e aprofundar as pesquisas sobre o vírus são determinantes para o desdobramento das ações”, frisa o secretário estadual de Saúde, André Longo.

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