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Cinthya Leite: jornalista faz relato emocionante sobre os dias em que esteve internada para tratar a covid-19

"Não podemos mais aceitar a negação diante da gravidade da covid-19. Afinal, nunca foi só uma gripezinha. Nunca", escreve a repórter

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 20/03/2021 às 21:27
Artigo
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Ao lado do marido e do filho, Cinthya Leite celebra recuperação. "Momento é de nos unirmos." - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Era noite do último dia 1º março. Chovia muito, muito mesmo no Recife. Enquanto eu repousava deitada na cama, observava o horizonte, sentia um aperto gigante no peito e conversava muito com Deus. Estava no sétimo dia de sintomas da covid-19, diagnóstico confirmado dias antes (26/2), quando completei 40 anos. Para aquele 1º de março, eu estava com uma tomografia de tórax marcada para as 19h. Os resultados dos exames de sangue que havia feito em 27 de fevereiro, para acompanhar a evolução da doença, nem foram tão ruins. Mas, naquele dia 1º, já sentia a minha respiração diferente, e o oxímetro de dedo (equipamento que mede a quantidade de oxigênio transportado no sangue), ao meu lado, em casa, também já mostrava uma queda no padrão de oxigenação sanguínea, em comparação com os dias anteriores.

Apesar da chuva intensa, saí de casa para fazer a tomografia. Cheguei ao Real Hospital Português e dei um passinho ligeiro para não me molhar - o suficiente para eu ter a certeza de que precisaria de uma assistência mais de perto, pois o fôlego sumiu. Vi tudo rodar. Mas logo a respiração voltou, e eu entrei na sala para fazer o exame, que foi rápido. Voltei para casa e, em menos de uma hora, o resultado estava no meu e-mail. Eu fui logo para a última linha: "achados com padrão típico de pneumonia viral, habitualmente encontrados nos quadros de pneumonia por covid-19".

Subi mais as linhas, e vi que já havia um acometimento pulmonar importante. O coração apertou muito. Pensei no meu filho, João Antonio, de 6 anos; no meu marido, Antonio Carlos; nos meus pais; na minha família. Liguei para o meu pneumologista, Dr. Isaac Secundo, que orientou a volta ao hospital, ainda naquela noite, para fazer uma gasometria (exame que mede os níveis de oxigênio e gás carbônico numa artéria). "Dependendo do resultado, você retorna e segue o tratamento em casa." Mas eu fui preparada para ficar. Na emergência, antes mesmo de passar pela gasometria e após as primeiras observações da equipe, já ouvi a indicação de internamento pelo plantonista. Foi tão difícil... Mas aceitei. Sim, claro, eu tinha que ser grata por ter tido a serenidade para reconhecer os sinais do meu corpo diante da evolução da doença, além de ter a oportunidade de receber atendimento adequado, em tempo oportuno, sob cuidados de uma equipe que já conhecia muito sobre os efeitos da covid-19.

Com os trâmites resolvidos para a internação, meu marido (também infectado e felizmente teve sintomas leves, assim como o meu filho — que adoeceu, mas teve o teste negativo) me acompanhou até o quarto. Um misto de sentimentos despontou, e eu segurava o choro. Vieram o medo diante da possibilidade de maior agravamento da doença, o receio de não saber o que poderia acontecer no dia seguinte e a incerteza sobre tudo que ainda ronda a covid-19. Com mais de 18 anos fazendo coberturas jornalísticas de temas relacionados à saúde neste JC (sendo um deles dedicado quase que exclusivamente à pandemia), eu me via do outro lado naquele momento. Passava por uma experiência semelhante a de milhares de pessoas que entrevistei ao longo de todo esse tempo. Quando meu marido seguiu de volta para casa, e a porta do quarto se fechou, tentei relaxar e pensar no lado positivo que meu médico havia falado: "Você tem muitas coisas ao seu favor: não tem hipertensão, não tem diabetes nem outra doença crônica. Logo vai recuperar". E eu me segurei nessa fala ao longo de todo o internamento.

Foram oito dias no hospital. Em sete deles, precisei fazer uso de uma cânula nasal — um tubinho com dois prolongamentos, conectado a um dispositivo para o suprimento de oxigênio através do nariz. Não incomoda; alivia. A hospitalização só não foi mais difícil porque, mesmo sozinha no quarto, eu sentia a minha família perto, enviando mensagens e fazendo orações, sempre com a esperança de um alta breve. Milhares de mensagens de amigos e colegas de trabalho deste Sistema Jornal do Commercio de Comunicação também me davam mais ânimo. Talvez eu não tenha conseguido responder todas pela minha condição que exigia repouso. Mas eu sou muito agradecida por toda a energia boa que recebi. E foi assim que a solidão não se fez reinar.

Nos três primeiros dias no hospital, ajudou muito o fato de eu ter solicitado apoio terapêutico para evitar pensar em coisas negativas. Ao psicólogo Celestino, toda a minha gratidão. E o que falar dos técnicos de enfermagem, dos enfermeiros? A eles, que exercem com amor e entrega o papel de cuidar como ação terapêutica, o meu agradecimento mais que especial. À equipe da nutrição, sempre preocupada com meus enjoos, o meu obrigada também. Para os fisioterapeutas, que conseguiram me conquistar com tantas orientações valiosas, eu quero deixar registrado que nunca vou esquecer como foi valioso permanecer horas deitada de bruços. A técnica, também chamada de pronação, permite que os pulmões se expandam novamente, ajudando a aumentar a quantidade de oxigênio que entra no órgão. Ainda a todo o time que cuidou de mim no hospital, sob orientação do meu pneumologista, meu eterno reconhecimento. Abraço agora sessões de fisioterapia, fazendo diariamente um treinamento muscular respiratório para ficar totalmente bem.

Eu continuo seguindo cada vez mais firme com o propósito de compartilhar informações em saúde, de dialogar sempre com vocês, meus queridos leitores, sobre o papel valioso da ciência para vencermos esta triste tragédia sanitária. E vamos vencer; tenho fé. Precisamos de mais e mais vacinas. A imunização é segura. Lamento a falta de uma coordenação nacional para o enfrentamento a esta pandemia. Dói ver tantas vidas perdidas. Entristece saber que, enquanto eu escrevo este relato, milhares de pessoas aguardam assistência e oram para conseguir um leito de terapia intensiva (UTI). Vou continuar pedindo a Deus proteção para o mundo.

Enquanto o Brasil não faz uma vacinação em massa, vamos seguir com todos os cuidados. Aceitar este momento de quarentena mais rígida é difícil; é um remédio extremamente amargo. Todos nós gostaríamos de desfrutar da nossa liberdade. Mas agora o momento é de nos unirmos, mesmo a distância, cada vez mais, sem deixar de lado algo que ouvimos por meses: usar máscara de forma adequada (cobrindo boca e nariz), respeitar o isolamento e distanciamento social, fazer higienização correta das mãos. Não podemos mais aceitar a negação diante da gravidade da covid-19. Afinal, nunca foi só uma gripezinha. Nunca.

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