Pandemia

O que é a miocardite, inflamação que pode afetar pessoas infectadas pela covid-19

Especialistas destacam a relação entre a covid-19 e o coração

Cássio Oliveira
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Cássio Oliveira
Publicado em 18/02/2022 às 19:31 | Atualizado em 18/02/2022 às 21:13
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
REFERÊNCIA O Procape é um dos principais centros destinados ao tratamento de enfermidades cardiovasculares no Norte/Nordeste - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Apontada inicialmente como uma doença pulmonar, a covid-19 (SARS-CoV-2) logo se mostrou uma enfermidade sistêmica, que afeta praticamente todas as funções e os órgãos do corpo humano. Entre eles, o coração.

Ao JC, cardiologistas explicam que a miocardite (inflamação do músculo cardíaco) associada à covid-19 foi e ainda é um problema verificado mesmo em pacientes que não apresentaram um quadro grave e até entre assintomáticos. A miocardite não é uma condição necessariamente grave, mas, em alguns casos, pode levar à insuficiência cardíaca.

Heitor Albanez Medeiros, cardiologista no Real Hospital Português, explica que a miocardite decorre de uma resposta inflamatória do próprio corpo e acontece em qualquer infecção viral, não só na covid. Ele destaca que entre os sintomas estão dor torácica e falta de ar.

“A covid tem predisposição de ir para essa área do coração e causa inflamação. Não temos como dizer quem tem predisposição para isso acontecer, acontece aleatoriamente. Vemos alguma alteração no ecocardiograma e na ressonância, mas geralmente não deixa nenhuma sequela. O paciente reverte e volta a ter coração normal, sem evoluir o quadro. Acontece na fase aguda. Inclusive, desconheço relação de perimiocardite em quadro posterior à cura, pois acontece durante a infecção viral. Depois, em geral, não aparece mais”, comentou o médico.

Pessoas doentes do coração tinham medo de sair de casa e procurar ajuda médica, agora voltam mais graves. Há má assistência a pessoas que já sabiam da doença, no privado e, principalmente, no SUS, onde houve prioridade para a emergência em detrimento do ambulatório. Agora voltam descompensados e recomendamos que voltem, seguindo todos os cuidados e protocolos.
Heitor Medeiros

A contaminação pelo novo coronavírus pode ocorrer em vários graus. Isso significa que, em uma infecção leve, pode não comprometer o coração, mas, nos casos graves, causar inflamações, como a miocardite viral. Como o miocárdio é responsável pela contração do coração, a inflamação acaba prejudicando o bombeamento do sangue pelo corpo. Entre as possíveis consequências estão arritmias e até a insuficiência cardíaca.

Médico clínico-geral e cardiologista, coordenador da emergência do Procape, Humberto Caldas ressalta que a miocardite é uma inflamação que pode levar a alterações, geralmente, temporárias, com rápida e completa recuperação.

Na variante ômicron, foram extremamente raros casos de miocardite nos vacinados. Mas, vimos alguns casos graves em não vacinados.<br>
Humberto Caldas

“Estudos apontam avaliação de pacientes covid por meio de ressonância magnética. Pegaram vários pacientes pós-covid e ainda existia pequena sequela de acometimento em boa parte desses. Alguns trabalhos mostram que em casos moderados a graves esses acometimentos de miocardite chegaram a 70%. Mas, os trabalhos mostram que é temporário. Acomete o coração, a covid gosta do coração, mas, para nossa sorte, não deixa sequelas graves de miocardite”, comentou Humberto Caldas.

Gerente executivo do Procape, que é um centro de referência cardiovascular, o doutor Ricardo Lima ressalta que a temática ainda é nova e requer estudos mais aprofundados, pois ainda há uma limitação dos estudos em relação aos reais impactos que a covid pode causar no paciente cardiopata ao longo do tempo. “Grupos que trabalham com o coração estão estudando, os que trabalham com o pulmão também. Cada especialidade começa a estudar sua área e publica trabalhos, com o conhecimento sendo transferido. É muito cedo para termos esses números e análises concretos. Tudo sai em trabalho científico, avaliado pelos pares”, disse.

A covid é como um furacão, ele passa, o sol brilha, mas ele deixa a terra arrasada, deixa sequelas, mesmo após a cura, nas não em todos os pacientes.<br>
Ricardo Lima

Ainda assim, o médico trouxe o relato do que viu trabalhando no Pronto-Socorro Cardiológico e explicou a diferença dos sintomas em pacientes que já apresentavam cardiopatia. “Uma sequela a longo prazo da covid pode ser pulmonar, hepática, AVC, pode ter problemas cardíacos, que temos observado, às vezes, três meses depois da doença, não vemos com muita frequência, mas isso acontece. No último surto da (variante) ômicron vimos nos nossos pacientes que são cardiopatas que a doença se assemelha a uma gripe. Se pega uma pessoa com coração normal, se passa um dia ou dois prostrado, pode haver febre ou não, mas depois recupera, fica bom. Mas, o cardíaco quando pega a ômicron, além dos efeitos dela, descompensa a parte cardíaca dele, a função cardíaca não é normal, é optimizada com medicamentos, não são todos, mas o atendimento pode internar, ir à UTI, e vimos muito isso, mas diminuiu bastante e, na quinta-feira (17), estávamos com zero paciente de covid no Procape", disse.

O doutor Heitor Albanez ressalta que a infecção viral descompensa os quadros cardiológicos, principalmente aqueles com insuficiência cardíaca. “Quando se tem infecção descompensa a frequência do coração, pode subir a pressão e leva à descompensação. No coração normal, geralmente há infecção viral, vai ter sequelas, mas não vai levar a um problema. Isso ocorre mais em quem tem quadro mais grave, pode descompensar levando a internamento, UTI, por esse motivo pode haver infarto, mas não se pode dizer relação causal, pode ser o próprio estresse do organismo que leve a isso”, disse.

Com a pandemia de covid-19, algumas pessoas descobriram problemas cardíacos que nem imaginavam ter e isso foi verificado nas emergências. “Verificamos pacientes com obstrução de artéria do coração e nem sabiam. A covid foi um gatilho, a pessoa teve infarto agudo do miocárdio como primeira manifestação da covid. Chegavam e iam para o cateterismo e no dia seguinte testaram positivo para covid. Então, se associa a covid como gatilho ao infarto, mas é possível já ter obstrução coronária, inflamou a região e ocorreu isso”, afirmou Humberto Caldas. O médico ainda deixa um alerta: “Muitos problemas cardiovasculares e cardiológicos são silenciosos, devemos estar atentos, procurando cuidar, fazer check up rotineiro, não precisa de uma pandemia servindo de gatilho para descobrir problema cardíaco”.

Vacinação

Os especialistas destacaram os cenários pré e pós vacinação contra o coronavírus. “Vimos muita infecção até mais que na primeira onda, mas com pouca gravidade nessa nova variante, apesar de ser contagiosa. Com certeza o vírus veio mais atenuado por vários motivos, entre eles a vacina", disse Heitor Albanez.

No último ano, a Anvisa informou que os Estados Unidos (EUA) relataram a ocorrência de casos de miocardite e de pericardite (inflamação do tecido que envolve o coração) após a vacinação contra covid-19. Segundo Heitor Albanez, por desinformação, pessoas justificam a não vacinação por esse motivo. Mas, a miocardite é comum após diversas vacinas.

“Toda infecção viral como a vacinação podem causar inflamação como reposta do organismo, que tenta combater o vírus e acomete o coração de forma equivocada. Isso pode ocorrer em qualquer vacina e infecção. É bom deixar claro que alguns não tomam vacina por esse motivo, mas além de ser raro, geralmente ocorre com sintomas muitas vezes imperceptíveis.”

Humberto Caldas destaca haver números contundentes mostrando que a imensa maioria de casos de miocardite pós-vacinação são de casos leves e transitórios. “É como nas vacinas habituais e nunca foi questionado. Pode haver um ou outro caso grave, claro, mas números mostram que apesar de existirem são extremamente raros”.

A reportagem recebeu reclamações relacionadas ao Procape, no qual pacientes estavam sendo atendidos no corredor. Questionamos a Ricardo Lima se havia relação com miocardite e covid e ele refutou. Segundo o médico, há uma demanda reprimida de todo o Estado que vai ao Procape e, segundo ele, a lotação em emergências é um problema crônico no País.

“A emergência tem um problema crônico no Brasil todo, leitos de emergência são insuficientes para a demanda existente, no sistema básico de saúde deveria haver redes nos municípios e só procurasse hospital terciário, como o Procape, com encaminhamento, mas eles não são assistidos na sua localidade e vêm para o hospital que trabalha acima de sua capacidade. O Procape funciona muitíssimo bem, é de alta qualidade, apesar de público e universitário, mas a emergência é problema por ser acima da capacidade, mas não vamos deixar doente na rua, ele bate na porta nós atendemos, é bem vindo, vamos tentar ajudar”, comentou.

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Pessoas doentes do coração tinham medo de sair de casa e procurar ajuda médica, agora voltam mais graves. Há má assistência a pessoas que já sabiam da doença, no privado e, principalmente, no SUS, ond

Heitor Medeiros
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Na variante ômicron, foram extremamente raros casos de miocardite nos vacinados. Mas, vimos alguns casos graves em não vacinados.<br>

Humberto Caldas
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A covid é como um furacão, ele passa, o sol brilha, mas ele deixa a terra arrasada, deixa sequelas, mesmo após a cura, nas não em todos os pacientes.<br>

Ricardo Lima

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