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Fim da pandemia? Com queda de 92% em casos graves em Pernambuco, pesquisadora fala em "lua de mel" da covid-19 nos próximos meses

A médica epidemiologista Ana Brito usa a denominação "lua de mel" para ilustrar uma possível fase de convivência com o vírus em que se tem uma taxa de cobertura vacinal adequada para controlar a transmissão

Cinthya Leite
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Cinthya Leite
Publicado em 23/02/2022 às 18:12 | Atualizado em 24/02/2022 às 16:04
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Ana Brito é médica epidemiologista e pesquisadora da Fiocruz Pernambuco - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Com a taxa de transmissão do coronavírus em queda no Brasil atualmente, pesquisadores e profissionais de saúde têm levantado a possibilidade de o País estar perto do fim da pandemia. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, informou, inclusive, que avalia a reclassificação da covid-19 como endemia em território brasileiro. Ele não deu detalhes sobre a forma com que esse processo ocorrerá nem falou em datas. Para a ciência, com a classificação de endemia, a doença provocada pelo coronavírus deixará de ser vista como uma emergência de saúde. Dessa maneira, a tendência é que venha o relaxamento das restrições e do uso de máscaras. 

Médica epidemiologista, a pesquisadora Ana Brito, da Fiocruz Pernambuco, foi uma das primeiras porta-vozes da ciência que vieram a público quando a pandemia surgiu no Estado, em março de 2020. Naquela época, ela alertava sobre o cenário de gravidade da doença, os impactos socioeconômicos impostos pela pandemia e a necessidade de se adotar medida restritiva. Agora, ela continua a defender um comportamento de convivência equilibrado com a pandemia, sem deixar de lado o uso de máscaras por enquanto. No entanto, Ana Brito acredita que, se a vacinação continuar avançando, os dias duros com alta de casos poderão ser substituídos por um momento de estabilização. 

"É possível que, nos próximos meses, a gente entre na chamada lua de mel da covid-19. Para isso acontecer, o Brasil precisa continuar priorizando a vacinação, buscar as pessoas que precisam completar os esquemas básicos de imunização, com duas e três doses. Dessa maneira, será possível, para o País, controlar a transmissão em níveis baixos", diz Ana Brito, que já trabalhou no enfrentamento de diversas epidemias ao longo de 44 anos de profissão. A médica epidemiologista usa a denominação "lua de mel" para ilustrar uma possível fase de convivência com o vírus em que se tem uma taxa de cobertura vacinal adequada para controlar a transmissão. 

Em Pernambuco, os indicadores atuais da covid-19 têm mostrado um comportamento de queda, após ter atingido um auge de casos entre janeiro e o início deste mês. Na última semana epidemiológica, entre os dias 13 e 19, o Estado notificou 593 casos de síndrome respiratória aguda grave (srag). Desse total, 217 tiveram resultado confirmado para covid-19. Isso representa, respectivamente, uma redução de 39,7% e de 92,6%, em comparação com a semana anterior, de 6 a 12 de fevereiro. Além disso, a taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva (UTI) se mantém, desde o último fim de semana, menor do que 70%. Outro detalhe é que o painel de leitos atualizado pela Secretaria de Planejamento e Gestão de Pernambuco mostra que não há mais fila de espera por vagas de UTI nem de enfermaria. 

Diante desses números que parecem ser otimistas, ainda não se pode decretar que a onda da covid-19, provocada pela ômicron, passou e que o problema se resolveu. Ainda há, no Estado, 735 pacientes com sintomas da doença internados em leitos de UTI e outros 608 em enfermaria. Ou seja, os indicadores hospitalares ainda permanecem em patamares elevados, embora outros tenham mostrado que estão em queda. 

Por isso, prever flexibilização das restrições neste momento ainda é cedo, por mais que os números sugiram um prenúncio otimista. Não podemos esquecer que Pernambuco está perto do período de sazonalidade das doenças respiratórias (começo de março), o que pode impactar o cenário epidemiológico. O caminho ainda é incerto. Por isso, a população não pode baixar a guarda nem deixar de cumprindo os atuais protocolos e de completar o esquema vacinal contra a covid-19.

Crianças 

Na visão da pesquisadora Ana Brito, além de o Estado precisar ir atrás das pessoas que precisam completar o esquema vacinal (com a segunda e a terceira doses), é necessário acelerar a imunização infantil para manter os indicares da pandemia estáveis. "É o comportamento coletivo que pode colaborar para o platô de casos arrefecer. Pode até estar mais perto de deixarmos de colocar máscara no dia a dia, mas 2022 ainda será um ano em que a usaremos. Precisamos aguardar o movimento de vírus. Afinal, não se descarta o surgimento de uma nova variante", frisa Ana.

Nesse sentido, a vacinação das crianças se faz necessária. Especialistas afirmam que, sem altas coberturas nessa faixa etária, o número de pessoas vulneráveis à covid-19 será maior, o que pode fazer com que o coronavírus se multiplique e gere novas variantes. "Uma cobertura vacinal baixa implica riscos não apenas para as crianças, mas para toda a sociedade. E não podemos correr riscos desnecessários. As vacinas, além de seguras, salvam vidas; já está mais do que comprovado. As estratégias desenvolvidas pelos municípios, com apoio do Estado, estão atingindo locais de grande circulação dos pequenos, como as escolas", frisa o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo.

"Para o Dia C (mobilização que acontece neste sábado, dia 26, para vacinar de 5 a 11 anos), os gestores devem ampliar ainda mais o acesso à vacina, desburocratizando o processo de imunização dos nossos pequenos", alerta Longo.

A superintendente de Imunizações de Pernambuco, Ana Catarina de Melo, reforça que o Estado tem expertise na imunização de crianças e que os municípios são capacitados para proteger os pequenos. "Ter, até o momento, apenas 30% desse público vacinado com a primeira dose contra a covid-19 revela como o processo está lento, o que nos preocupa, já que tradicionalmente Pernambuco sempre imunizou muito rápido as crianças nas campanhas de vacinação. É preciso lembrar que estamos no período de retorno às aulas, assim como da circulação da ômicron. Então, a vacina, estratégia efetiva e eficaz, é essencial", salienta Ana Catarina.

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