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Voz di Sanicolau, do Cabo Verde, tem lendário disco relançado

O grupo é parte de uma diáspora inusitada: há duas vezes mais cabo-verdianos pelo mundo do que no seu país

José Teles
José Teles
Publicado em 16/07/2020 às 12:34
Crítica
Francois Renoncourt/Divulgação
Voz di Sanicolau, coladeiras - FOTO: Francois Renoncourt/Divulgação
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Cabe Verde é o país da diáspora, com uma população de 500 mil habitantes, espalhadas por dez ilhas. No entanto, apenas nos Estados Unidos vivem 250 mil cabo-verdianos. Cerca de 800 mil espalhados pela Europa, Canadá ou Brasil. Em abril, o primeiro-ministro José Ulisses Correia e Silva fez um pronunciamento sobre os perigos da covid-19 para os que moram no arquipélago, mas também, e principalmente, o dirigiu aos que compatriotas no exterior, uma importante fonte de renda do país, pelo dinheiro que enviam aos parentes em Cabo Verde.
Nessa diáspora atípica obviamente há arte feita por cabo-verdianos mundo afora. Literatura, artes plásticas e muita música. A pequena Cabo Verde é uma terra bastante musical, geograficamente no continente africano, a influência portuguesa é muito forte na música do país, que se vale menos da percussão e de mais instrumentos harmônicos, embora a África esteja no ritmo, na levada da coladeira que se assemelha ao carimbó paraense, no canto e resposta.
Na Holanda, em Roterdam, nos anos 70, sete cabo-verdianos formaram o grupo Voz Di Sanicolau, criando músicas inspiradas na Ilha de São Nicolau. Todos eles trabalhavam em ofícios que nada tinham a ver com música. Mas se entrosaram tão bem, que acabaram gravando o um disco, com um repertório de coladeiras, porém já com influências do que escutavam na Holanda. Uma guitarra caprichada no agudo (lembram a guitarrada do Norte do Brasil), teclados, cavaquinho e percussão. O ritmo é mais acelerado do que a coladeira original (que já é bastante suingada).
O álbum, com seis faixas, foi gravado em seis dias, durante a folga do trabalho dos integrantes, e lançado com o título de Fundo de Marê Palinha, cantado em crioulo, pelos vocalista Tô-Zé e Joana do Rosário. O disco foi relativamente bem recebido na Holanda, e no Cabo Verde, mas em 1976, a música feita fora dos grandes mercados, ainda era mal assimilada, mais para pesquisadores, estudiosos, do que para o consumidor habitual.
Como Fundo de Marê de Palinha não emplacou, os músicos trataram de assegurar seus empregos, com o qual ganhavam a vida, e motivo de terem emigrado. 44 anos mais tarde, o selo alemão Analog Africa recupera esta relíquia, e a relança em vinil e digital (está nas plataformas de streaming desde dia 10 de julho)), dando uma levantada na sonoridade. O Voz di Sanicolau está tendo a repercussão que não teve em sua época, quando a música do Cabo Verde só era conhecida praticamente pelos cabo-verdianos. Aliás, este álbum também fez história. Joana di Rosário foi a primeira mulher do país a ter sua voz registrada em disco.

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