Dia do Forró

No Dia do Forró, relembre como o ritmo foi da safadeza sutil ao trocadilho explícito

No Dia do Forró, uma pequena história do duplo sentido no gênero

José Teles
José Teles
Publicado em 13/12/2020 às 9:36
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Acervo JC Imagem
Lua e Marinês, malícia sutil - FOTO: Acervo JC Imagem
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Na poesia oral nordestina, os trocadilhos, o duplo sentido, ou o explicitamente fescenino, são uma tradição que passou para a música popular da região. O forró, este guarda¬-chuva de ritmos aberto por Luiz Gonzaga e parceiros há 70 anos, valeu-¬se da poesia popular para suas letras, tanto no lirismo quanto na safadeza. No segundo caso, são muitos os forrós de sucesso que são escutados e cantados sem que se atente para a malícia da letra.

Um bom exemplo, é a embolada Na Base da Chinela, de Rosil Cavalcanti, sucesso com Jackson do Pandeiro. Nos versos finais sabe¬-se que "o baile da Gabriela acabou na chinelada". Chinela, o calçado, transformado no verbo chinelar na Paraíba dos anos 50, 60, significava fornicar. Outra aparentemente inocente canção conhecida na voz do mesmo Jackson do Pandeiro é Quadro Negro, que começa com o soletrar da cartilha: "Um b com a. be¬-a-¬bá/um b com é, bê¬-é-¬bé/um bê com i, bê¬i-¬bi/um bê com o, bê-¬ó-¬bó/vamos estudar que é melhor".

E aí entra a história: "Estudei com a professora Filomena/Numa vila chamada Tacauã". Essa professora era, como então se dizia, um "peixão", usava roupas ousadas e endoidava os alunos, "enfeitada, que só uma vedete". O arremate dos versos finais, explica a aflição do aluno: "Eu sentado na frente estudava/ E olhava ligeiro lá pra mesa/ Porque tinha cinema sem despesa/ Filomena deu pra desconfiar/ Porque a turma parou de soletrar/ Levantou-¬se e foi logo perguntando/ O que é que vocês estão olhando/ Porque é que tem aqui tanto sossego/ Eu então respondi a Filomena/ Eu estudo é olhando o quadro negro". Está óbvio de que quadro-negro se trata.

Era a malícia com sutileza, como no clássico Peba na Pimenta: "Ai, ai, ai, seu Malaquia/ ai, ai, senhor disse que não ardia/ ai, ai, que tá bom eu sei que tá/ mas tá me dando uma agonia". A inflexão dos "ais", de Benta, a que comeu do Peba na Pimenta, esclarece o porquê dos gemidos. Esclarecido ainda pelo diálogo entre Benta e o vivaldino do Malaquia, no meio do xote: "Ô sujeito, tu não disseste que esse peba não ardia?. ¬ E ardeu, Benta? ¬ Ardeu. ¬ Mas tu gostou? ¬ Eu gostei. Gostei, mas tô com os beiços pegando fogo".

Luiz Gonzaga, que não aprovava o duplo sentido quase explícito dos forrós nos anos 70, também cantou os seus, mas com bastante sutileza. Zé Dantas era um craque no duplo sentido bem disfarçado. Fez isto em Farinhada: "Eu tava na peneira/ eu tava peneirando/ eu tava no namoro/ eu tava namorando. Na farinhada lá da Serra do Teixeira/ Namorei uma cabôca nunca vi tão feiticeira/ A mininada descascava macaxeira/ Zé Migué no caititu/ e eu e ela na peneira". Para não ir muito longe, nem revelar o que está implícito na peneiragem dos namorados, é lembrar que "descascar a macaxeira" é eufemismo para o chamado vício solitário.

A música de Marinês é entremeada de forrós de malícia sem apelação, pelo menos até os anos 60. Um dos seus sucessos naquela década foi Xote da Pipira, um passarinho, entre os muitos criados por um tal Mané. A Pipira é chegada a dar uma bicada, porém só nas moças, um perigo àquelas de carne reimosa: "Rosinha tava brincando/ Pipira lhe beliscou/ O dedo inchava, ela chorava/ Ai, ai, ai, dor/ O que é menina?/ Foi a pipira de Mané que beliscou/... Por via disso lá no Bacabal/ Ninguém pode vê outra engordando/ Censura, ai meu deus, que é um horror/ E o povo comentando/ Mais uma que a pipira beliscou".

Na época do forró pesado, Gonzagão, sem apelar pro trocadilho de mau gosto, nem mesmo pro duplo sentido, conta a história de um sanfoneiro que deixa a sanfona de vez em quando pra dar uns amassos numa morena, de nome Karolina com K, o título do xote. Para encurtar a conversa, o sanfoneiro sobe numa égua, bota Karolina na garupa e vão se amoitar, literalmente, perto de um riacho: "Nois três ali dentro da moita/ eu... Karolina... e minha égua/e ali nois três/ escutando a cantiga das águas/ tirei a sela/ e lavei a égua!". Lavar a égua, quase desnecessário explicar, é se dar bem. Num dos trechos de sua história, falada, com o apoio da sanfona, Lua conta que no meio do forró: "Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d’eu./ cubria a sanfona/ ai eu só sentia aquele cheiro de fulô de amor”.

“Fulô de amor" é um eufemismo óbvio. João do Vale se aproveita dele em Pisa na Fulô, também sucesso com Marinês, que canta sobre um forró assemelhado ao da casa da Gabriela. Só emprega outro termo. Em vez de chineladas, pisa¬-se na fulô. E a coisa está tão boa que, feito o sanfoneiro de Karolina com K, o tocador de fole do xote de João do Vale, também larga o instrumento: "De madrugada, Zé Caxangá/ Disse ao dono da casa/ Num precisa me pagá/ Mas por favor/ Arranje outro tocador/ que eu também quero/pisa na fulô".

OUTRO JOÃO

O João baiano contribuiu para mudar o modo de fazer samba, o João paraibano o de se fazer forró. O primeiro, claro, é João Gilberto, o segundo, anda meio esquecido, é João Gonçalves, nascido em Campina Grande, há 81 anos. A composição mais conhecida de Gonçalves é Severina Xique-¬Xique, que tornou Genival Lacerda um sucesso nacional, porém o marcou como o principal intérprete do duplo sentido. O impagável refrão "Ele tá de olho/ na butique dela" é um trocadilho explícito.

João Gonçalves exerceu os mais diversos ofícios, até se tornar autor bem¬-sucedido. Fazia música, foi gravado por forrozeiros, como Joci Batista e Messias Holanda, mas nada que chamasse atenção. Severina Xique-¬Xique (inspirada numa moça que João conheceu na cidade baiana de Xique¬-Xique) foi recusada por Marinês, Zé Calixto e Messias Holanda, que sugeriu a João Gonçalves que a oferecesse a Genival Lacerda, que a gravou na Copacabana, com produção do potiguar Oseás Lopes (que também usa o pseudônimo de Carlos André): "Quase perco meu emprego por causa de Severina Xique-¬Xique. Os donos da gravadora não queriam Genival. Gravei sem eles saberem. Me deram três meses pra música fazer sucesso, senão eu saía. Dois meses depois estava estourada", lembra Oseás Lopes, que também produziu os primeiros LPs de João Gonçalves: "Produzi três discos deles. O primeiro, com Pescaria em Boqueirão vendeu muito, mais de cem mil cópias", conta Lopes, que também foi produtor de cinco álbuns de Luiz Gonzaga.

Até metade dos anos 70, João Gonçalves foi um dos maiores recebedores de direitos autorais do País, estourado com Genival Lacerda também com A Filha de Mané Bento e Pescaria em Boqueirão, tornou-¬se o Rei do Duplo Sentido, gravado até pelos Novos Baianos. Outros compositores correram para explorar o filão. Cecéu fez Por Debaixo dos Panos para Marinês, que gravou, entre outras, Buraco no Tamanco, de Tarcísio Capistrano e Zé Pretinho da Bahia, e estourou com o xote Só Gosto de Tudo Grande, de Adolpho de Carvalho e Adélio Silva.

Se até os anos 70 ainda era duplo sentido, a partir dos 80 acabou-¬se a sutileza. A sergipana Clemilda, com longa carreira com o marido Gerson Filho, emplacou Prenda o Tadeu (parceria dela com Antonio Sima). O título dos álbuns passou a ser chamativo. Em 1986, a citada Clemilda lançou A Minhoca do Severino (dela e João Caetano), sequência da Pescaria em Boqueirão, de João Gonçalves. O sanfoneiro pernambucano Zenilton foi outro que escanteou a sutileza, em álbuns como Vou Pedir o Quati (1989), ou O Cachimbo da Mulher (1981), com influência que chegou ao rock da banda Os Raimundos, com quem ele dividiu palco nos anos 90.

A porteira foi escancarada pelo alagoano (de Palmeira dos Índios) Durval Vieira, fornecedor de sucessos para Sandro Becker, Jackson do Pandeiro, Clemilda, e que também foi cantor, com vários LPs gravados. Mas aí já não se tratava de duplo sentido, músicas como Lambi a Bochecha, ou Botei o Dedo e Cheirei criavam uma nova subcategoria, o porno-forró.Nos primeiros anos do século 21, as bandas de fuleiragem enveredaram pelo triplo sentido, incluindo também o gestual no palco.

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