PERFORMANCE

Artista Flávia Pinheiro inaugura dois trabalhos que questionam a relação com o corpo

Os trabalhos da artista Flávia Pinheiro refletem sobre as relações dos corpos - humanos ou não - com o mundo contemporâneo

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 06/03/2020 às 11:34
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WELINGTON LIMA / JC IMAGEM
Flávia Pinheiro transita pelas artes visuais, dança e performance - FOTO: WELINGTON LIMA / JC IMAGEM
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A problemática do corpo no mundo instiga a pesquisa de Flávia Pinheiro, que transita entre performance, dança e artes visuais, há alguns anos. Há algo de distópico em sua produção, como se a hecatombe estivesse sempre próxima (e talvez esteja) e para sobreviver fosse preciso ativar a mais ancestral e avançada das tecnologias, o nosso instinto.

Ela aprofunda essa investigação em dois novos trabalhos, a exposição Abismos de Um Corpo Que Falha, que abre neste sábado (6), às 16h, na Galeria Massangana (Fundaj Casa Forte), e no espetáculo Ruínas de um Futuro em Desaparecimento, cuja estreia acontece dia 18 deste mês em São Paulo.

Resultado do projeto Residências Artísticas 2018 da Fundaj, o projeto de Flávia teve início em uma sala do Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro (Muafro) com pequenos objetos que evocavam a idéia de ruína, como materiais feitos de cabo de aço, tijolos e papel bolha.

Esses elementos já eram investigados em seu trabalho há algum tempo e lhe interessava entender como a gravidade incidia sobre esses corpos e como seria possível gerar outros contextos (sociais, afetivos, políticos) a partir desses materiais.

“Me questiono muito sobre como lidamos com a obsolescência programada, o acúmulo desse lixo que a gente produz, o que esses descartes dizem sobre nós, e quais os resultados dessa percepção de que o homem é o centro de todas as coisas”, explica Flávia Pinheiro. “Após esse primeiro momento, achei que seria interessante trabalhar com objetos em maior escala que já tivessem sofrido com a ação do tempo, apresentassem ferrugem e evocassem a ideia de apocalipse.”

O cenário encontrado pela artista para desenvolver essa segunda etapa da investigação foi o Bessa Lyra Sucatas, um ferro-velho na Guabiraba. Naquele espaço, Flávia desenvolveu uma série de performances que foram registradas em fotografias de Rhayssa Oliveira e Pedro Coelho, e os vídeos produzidos por Pedro Giongo.

Esse material audiovisual compõe a exposição junto a alguns dos objetos que aparecem nas imagens e que estarão em exibição na galeria. O projeto conta ainda com suporte curatorial de Moacir dos Anjos. Na abertura, Flávia Pinheiro fará uma performance às 18h.

“Estar naquele espaço ativou também uma série de questões que eu não esperava. Ser uma mulher naquele espaço predominantemente masculino, por exemplo. O que é esse meu corpo ali? Como esses objetos são ativados pela interação comigo?”, questiona. “Além das câmeras fotográficas, também utilizamos um drone para captar imagens, o que também abre outras possibilidades de interpretação. Afinal, é uma tecnologia criada para ser usada em contexto de guerra. Quero pensar como esses objetos podem, também, ser ressignificados para promover o encontro.”

Estar presente

Outra ramificação da pesquisa da artista resultou em Ruínas de um Futuro em Desaparecimento, trabalho que ela estreia dia 18 no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. A obra é fruto de uma pesquisa que teve apoio do Funcultura e pensa em uma tecnologia que vai além de fios e bytes.

“Para desenvolver esse trabalho, tive muitas trocas com Carolina Bianchi, entre outros artistas. Ficou cada vez mais claro para mim que a grande tecnologia que habita esta obra é a do encontro. As tecnologias digitais desabilitaram essa necessidade das pessoas de se encontrarem presencialmente. Estamos em vários lugares, interagimos com muita gente, mas cada vez menos com a presença física”, explica. “A exposição Abismo... reflete essa interação da matéria com o tempo, a percepção do próprio corpo em relação aos objetos. Em Ruínas... tensiono justamente essa decomposição pela falta do encontro. É um exercício sobre um projeto de humanidade.”

No espetáculo que ela apresenta na Avenida Paulista, Flávia Pinheiro vai lançar mão de uma série de tecnologias consideradas obsoletas, como truques de mágica, o uso da luz como técnica de ilusão, entre outras ações. “Queria brincar com essas técnicas que remetem a uma ideia mais arcaica, bem Idade Média, o que me parece pertinente diante do momento em que vivemos, quando o Brasil está retrocedendo em tantos âmbitos”, reforça.

Além das apresentações na capital paulista, Flávia irá desenvolver atividades ao longo da semana, como uma oficina com o compartilhamento dos procedimentos de criação e trocas com alguns artistas com quem trabalhou nos últimos anos.

Abertura da exposição Abismos de Um Corpo Que Falha – Neste sábado (6), às 16h, na Galeria Massangana (Fundação Joaquim Nabuco – Av. Dezessete de Agosto, 2187, Casa Forte). Visitação: de terça a sexta, das 8h30 às 17h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h, até 19 de abril. Gratuito. Informações: 3073-6331.

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