LITERATURA

''O Pequeno Príncipe Preto", de Rodrigo França, é um ensinamento sobre ancestralidade e união

Primeiro livro infantil do carioca Rodrigo frança chega às livrarias neste mês de março pela Editora Nova Fronteira. A obra nasceu como peça de teatro e primeiro rodou os palcos do Brasil

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 06/03/2020 às 15:18
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ADALBERTO NETO/ DIVULGAÇÃO
Rodrigo França é escritor, dramaturgo, ator e cientista social - FOTO: ADALBERTO NETO/ DIVULGAÇÃO
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Ter em mãos o primeiro livro infantil do ator, dramaturgo e cientista social carioca Rodrigo França é passar a questionar, como uma criança curiosa, os porquês mais básicos e necessários que iluminam o caminho de uma sociedade mais igualitária. Por que os protagonistas dos desenhos sempre são brancos? Por que as crianças negras não são representadas na maior parte da literatura infantil? Por que os baobás do clássico O Pequeno Príncipe são vistos como praga se em culturas africanas são árvores sagradas?

Muitas outras perguntas norteiam O Pequeno Príncipe Preto, recém-lançado pela Editora Nova Fronteira (32 pgs., R$ 39,90) e são respondidas de forma lúdica e emocionante, em uma história voltada para as crianças mas que toca em temas universais que atingem todas as idades.

Segundo Rodrigo, o livro não representa nem uma homenagem nem uma releitura à obra de Antoine de Saint-Exupéry. “O livro d’O Pequeno Príncipe é um gancho, um diálogo, na verdade, para impulsionar uma reflexão crítica sobre os personagens que temos como referência e questões de afeto, de relações.”

Na versão do carioca, um menino negro vive num minúsculo planeta apenas em companhia de uma baobá, mas sempre cultivou o sonho de viajar e conhecer outros planetas. Num dia de muito vento, ele se agarra à uma pipa que havia se enganchado nos galhos da árvore e, de carona, sai conhecer novos lugares.

Na primeira parada, no Planeta do Rei, o menino se depara com o orgulho, o egoísmo e a avareza, características que resultam na eterna solidão de seu único habitante.

Ele não se demora neste lugar estranho e segue viagem para O Planeta Terra, onde encontra logo uma raposa (em mais uma referência direta ao livro de Saint-Exupéry), que vai ensiná-lo sobre responsabilidade afetiva e liberdade. “Menino, não há nada melhor do que uma amizade sincera. Agora pode ir embora, antes que eu me apegue a você. Se achar que mereço uma visita sua,pode retornar. Mas volte na mesma hora. Se você vem às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz”, diz o animal.

O príncipe continua então sua viagem até encontrar com muitas crianças a caminho da escola. “O mais estranho era eles não serem unidos, todas as brincadeiras tinham disputa”, reflete. E a partir dessa percepção, ele decide compartilhar com as meninas e meninos sobre a filosofia Ubuntu, conceito de origem sul-africana que significa “sou o que sou pelo que nós somos.”

E este é um dos pontos principais da história, a mensagem que Rodrigo França recebeu em sua educação através dos pais e da avó e que sempre quis transmitir. “Eu acredito estar juntos é a coisa mais potente. Por mais que exista hierarquia na sociedade, ela pode ser conduzida de forma horizontal. No lugar do medo, haver respeito, porque fazer junto, sonhar junto, realizar junto é melhor do que ser sozinho”, avalia.

Ancestralidade

Dos traços da ilustradora Juliana Barbosa Pereira aos diálogos criados por Rodrigo, o tema da ancestralidade está presente em cada página do livro. O respeito aos mais velhos, às histórias que antecederam o presente, a natureza. “Isso veio da minha família, de pedir a bênção. E até hoje, em momentos de dúvidas, eu procuro uma pessoa mais velha para poder conversar”, ressalta o escritor.

“Este livro é um mergulho em tudo que adquiri de mais valioso na minha infância. Onde cheguei e onde me encontro nesse momento da carreira foi basicamente a partir de tudo que está no livro. Meus pais sempre me educaram para que eu cultivasse minha auto-estima e isso é muito importante sendo negro. Posso estar super feliz agora, porque estou lançando meu livro, e na rua, no caminho para o lançamento, posso ser parado pela polícia apenas por ser negro. E isso vai colocar minha auto estima lá para baixo, mas eu tenho as ferramentas dentro de mim para lidar com isso porque recebi isso dos meus ancestrais.”

Rodrigo sempre pesquisou temáticas relacionadas a questões raciais em seus trabalhos acadêmicos e, em 2014, decidiu tratar desses assuntos de uma forma voltada para as crianças. Foi assim que nasceu a peça O Pequeno Príncipe Preto, que rodou o Brasil por alguns anos. “Mas ainda assim que sentia que não conseguia furar a bolha como eu queria, que a peça não ia chegar em todos os lugares. Foi por isso que quis transformar em livro. Por mais que nem todos possam comprar, ele vai estar disponível em bibliotecas. A literatura pode chegar a lugares que a gente nem imagina.”

Ilustrações

Na hora de transformar a o texto teatral em prosa, o autor resolveu renovar a parceria com Juliana, jovem artista talentosa de apenas 22 anos que já havia trabalhado nas projeções animadas da peça. “Na programação visual eu tinha trabalhado em cima de imagens de orixás, que remetinham à parte da ancestralidade, assim como Marielle Franco e Malcolm X e também tinha desenvolvido o rosto do pequeno príncipe, mas com outros traços. Para o livro, quis dar mais cores, mais refinamento”, conta.

“Foi incrível trabalhar em uma livro infantil, Rodrigo acreditou muito no meu trabalho e isso que é Ubuntu também, uma filosofia que já me tocava e fazia parte da minha vida, mesmo sem ser através desse nome.”

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