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A Written Testimony, álbum do rapper Jay Electronica junto a Jay-Z, é laboratório do hip hop atual

Aos 43 anos, o rapper norte-americano lança seu primeiro projeto, cheio de experimentações e sonoridades diferentes. Confira a análise:

João Rêgo
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Publicado em 27/03/2020 às 18:00 | Atualizado em 29/05/2020 às 16:04
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O rapper Jay Electronica lançou seu primeiro álbum de estúdio, A Written Testimony, aos 43 anos. - FOTO: Reprodução
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Você pode encarar uma obra musical por cartilhas. Traçar pontos de avaliações que isolem cada parte do objeto e avaliar seus respectivos desempenhos. Letras, sonoridades, instrumentais, entre outras trocentas coisas, vão se circunscrever em uma espécie de teste, que querendo ou não, é estabelecido dentro de uma régua específica.

O mesmo fenômeno, por exemplo, atua sobre um olhar para os filmes; da fotografia as minuciosidades irrelevantes do design de som. O que nos faz questionar: se os parâmetros de funcionamento das coisas são médias estáticas de 1 a 10, há espaço para a exceção?

A resposta está na história. Toda genialidade artística parece ter escapado desse olhar limitador. Como se avalia, em notas paralelas, a montagem de um filme de um cineasta como Godard e outra do Bresson? A produção de um álbum do Death Grips e outra do Tupac? Um é um e dois são dois.

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No rap, por mais que essas réguas tenham sido quebradas, algumas de suas características insistem em perdurar. O olhar se volta para a lírica, o desempenho, os beats e a produção – cada um isoladamente, como uma avaliação de escolas de samba. De fora, sem espaço, ficam os contextos, as diferenças e o vanguardismo.

A recepção do novo – e primeiro – álbum do rapper norte-americano Jay Electronica, A Written Testimony, reativou a base dessas discussões. E não era esperado menos vindo de um projeto de rap que se encerra com uma faixa toda produzida pelo grupo psicodélico Khruangbin.

Sem antecipações, a principal pergunta de agora é quem é Jay Electronica?

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Jay Electronica (esquerda) ao lado de Jay-Z, líder da Roc Nation, que assinou um contrato com o rapper - Reprodução

Jay é um rapper veterano de 43 anos, mesmo tendo lançado seu primeiro álbum recentemente. Nascido e criado em Nova Orleans, nos Estados Unidos, se lançou em uma viagem por dentro do país na busca por novas experiências. Conheceu o Islamismo e os ensinamentos de Elijah Muhammad, Louis Farrakhan e, principalmente, Malcolm X.

No meio musical, estreou em 2007 com a mixtape Act 1: Eternal Sunshine (The Pledge). Mas foi em 2009 que alcançou sucesso lançando uma série de singles ao lado do produtor Just Blaze, intitulados Exhibit A, Exhibit B e Exhibit C.

Um ano depois, uma escolha mudaria os rumos artísticos de Jay Electronica para sempre: o rapper assinou com a Roc Nation, gerida por Jay-Z. A partir daí, uma série de singles, mixtapes e participações especiais em músicas de Big Sean (na famosa Control) e Mac Miller. Mas nada de um álbum.

A espera acabou agora com 39 minutos de música, em torno de dez faixas. A Written Testimony não esconde sua espiritualidade desde o seu título e capa. É um “testemunho” tardio de um dos mais talentosos artistas na cena atualmente, pelo menos quando se trata de lírica.

Na primeira música, The Overwhelming Event, Jay Electronica escolhe abrir todo seu repertório com um discurso de Louis Farrakhan, um dos líderes do grupo Nation of Islam, que une a religião ao movimento negro norte-americano. É um aperitivo para o que seguirá sendo explicitado liricamente.

Um atestado crítico de um afro-americano muçulmano atento a posição que ocupa no mundo ao seu entorno.

Tudo parece entranhado nos seus versos: a poesia, a percepção política e a espiritualidade. Uma síntese desses temas batidos no liquidificador, e não uma mistura mal feita.

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Afinal, são 43 anos. Para um rapper isso quer dizer muito, principalmente sobre o que suas letras vão circunscrever neste momento da carreira. 

Outro destaque no projeto é que ele é praticamente um álbum conjunto. Jay-Z, que é creditado como Hov, rima (inspirado) em oito das dez faixas. Electronica é uma espécie de diretor artístico de tudo, o que força, positivamente, um rapper do quilate de Jay-Z se debruçar sobre os temas levantados no álbum.

Isso quer dizer que temos um Jay-Z apontando sua caneta contra coisas como supremacia branca e a onda de racismo crescente nos EUA.

A liberdade também permite que o marido de Beyoncé transite nas faixas como bem entender; ocupando os refrões, trocando versos e flexionando seu flow nas músicas que participa.

Mas nem só de lírica é feito A Written Testimony. Toda literatura existe sem nunca se deslocar artisticamente das suas sonoridades. É aí, por exemplo, que reside toda genialidade do projeto.

Sonoramente, o disco parece estar derretendo. Há uma vibe próxima ao “hip hop clássico”, mas longe das recentes (e boas) emulações de grupos como Griselda. Jay Electronica percebe um esgotamento nessas tendências e a clara predisposição a um rapper de 43 anos a embarcar nelas.

É por esse caminho que o álbum assume uma roupagem perto do lo-fi mas longe de um trabalho propositalmente sujo. Jay também não tenta soar perto de uma produção de beats mais atual, que se repagina em tendências do trap (a participação de Travis Scott na faixa The Blinding é uma espécie de isca nesse sentido).

Toda construção sonora de A Written Testimony é uma viagem auto-consciente pelos caminhos que a produção do rap veio trafegando ao longo da década passada, e por onde vem se intensificando atualmente. 

Daí a participação no projeto de cientistas sonoros como The Alchemist – em The Neverending Story –, No I.D. (parceiro de Jay-Z no icônico 4:44) e James Blake. Assim, as camadas de samples vão desde os pianinhos repetitivos com vozes femininas do soul ao jazz, até a pulsante Flux Capacitor sampleando e acelerando a música Higher, de Rihanna.

Jay Electronica não precisa deslocar seu flow para lugares que não necessariamente se sinta confortável (felizmente não estamos falando de mais um Nasir, o projeto de Kanye West e Nas). Ressalte-se que Electronica também produz boa parte das músicas do álbum.

O trunfo do projeto, no entanto, está guardado para o fim. A.P.I.D.T.A. é uma balada melancólica produzida pelo trio Khruangbin, um grupo norte-americano que trafega por sonoridades como a música tailandesa dos anos 60 até os processos de samples do hip hop atual.

É quase como se Jay Electronica marcasse o início de algo já muito bom (afinal, é seu primeiro álbum), mas atiçasse um futuro cada vez mais experimental. Não no sentido mais usado da palavra, mas como uma forma de explorar cada vez mais novos horizontes.

Uma simbiose entre todos os processos do hip hop, que nunca está interessada em pensar como irá encaixar na sua recepção. Muito menos no desempenho isolado das suas características. É a arte como um fenômeno próprio disposto a ser pensado (e desconstruído) auto-conscientemente como tal.

E neste processo cada vez mais aberto ao novo, quem se importará ainda em delimitar suas qualidades pela avaliação da mixagem de som? 

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