RESENHA

Minissérie ''Nada Ortodoxa'' retrata a jornada corajosa de uma jovem judia em busca de liberdade

Nova produção da Netflix, a minissérie conta a história da jovem Esty que foge de sua comunidade hassídica e parte para Berlim em busca de uma nova vida

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 01/04/2020 às 12:31
Anika Molnar/Divulgação Netflix
Cena de casamento judaico ortodoxo - FOTO: Anika Molnar/Divulgação Netflix
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As quatro horas aproximadas de duração da nova minissérie da Netflix, Nada Ortodoxa, não podem ser medidas apenas pelo relógio. As reflexões provocadas por essa emocionante e corajosa narrativa continuam ressoando muito depois do episódio final. Baseada no livro autobiográfico de Derborah Feldam, Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots (2012), a série retrata a jornada extraordinária de emancipação de uma jovem mulher judia que nasceu e cresceu na comunidade hassídica Satmar, no bairro de Williamsburg, em Nova Iorque.

Esther Shapiro, Esty, tem 19 anos quando decide se libertar de um casamento infeliz para ir em busca de sua própria história e, com a ajuda financeira de uma ex-professora de piano, fugir para Berlim. Como é de costume na tradição ortodoxa, ela casou muito nova e de forma arranjada. Um ano depois, ela e seu marido, Yanky, continuam com dificuldade para ter filho e este é o ponto central de tensão entre os dois e suas respectivas famílias. Uma mulher recém-casada que não consegue engravidar é motivo de vergonha e preocupação na comunidade.

Sempre vista como um tanto diferente das outras meninas, Esther não foi criada pela mãe, que 15 anos atrás, também fugiu, e sim pelos avós, uma tia e o pai alcoólatra.  Sabendo de sua ascendência e cidadania alemã, a jovem decide escapar da vida limitada que lhe foi imposta, na qual nunca pode estudar formalmente, exercer seu direito de ir e vir ou até mesmo escolher o próprio jeito de se vestir.

Nova vida e desafios

Chegando em Berlim, ela se vê confrontada com a latência da sofrida história dos judeus durante o Nazismo na memória urbana da cidade e aprende novas formas (menos dolorosas) de lidar com essas referências. É fazendo o caminho contrário de seus antepassados que Esty ressignifica o exílio na busca por uma liberdade individual em que o peso da religião não cabe mais. "Deus esperava muito de mim", desabafa em uma conversa com os novos amigos.

Essas amizades surgem logo em seu primeiro dia na capital alemã, quando encontra com estudantes do conservatório em um café. Assim como Berlim, este grupo representa uma diversidade completamente oposta ao meio em que viveu até então.

A música é um elemento central na antiga e nova rotina de Etsy, desde quando ouvia sua avó cantar escondida. Sem casa nem trabalho, ela almeja a possibilidade de uma nova vida através de uma bolsa de estudo no conservatório e se inscreve no processo seletivo. Esse processo vai ser ainda mais complicado com a chegada de Yanki e seu primo a Berlim com a missão de trazer Esther de volta e das revelações a respeito da sua mãe.

Ao contrário do que poderia acontecer, Nada Ortodoxa não é um relato meramente dramático de uma bela história de superação. Analisá-la sob essa ótica seria reduzir a coragem da protagonista à uma rejeição da religião, sem levar em conta a delicadeza e a fidelidade com que a produção retrata a vida em uma comunidade hassídica.

Anika Molnar/Divulgação Netflix
A chegada do marido de Esty e seu primo em Berlim - Anika Molnar/Divulgação Netflix
Anika Molnar/Divulgação Netflix
Seguindo a tradição hassídica, as mulheres têm que raspar o cabelo e usar perucas ou lenços após o casamento - Anika Molnar/Divulgação Netflix
Anika Molnar/Divulgação Netflix
Esther Shapiro é uma jovem mulher judia ortodoxa que foge de sua comunidade - Anika Molnar/Divulgação Netflix
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Após sua chegada em Berlim, Esther começa a se libertar - Anika Molnar/Divulgação Netflix
Anika Molnar/Divulgação Netflix
Bastidores da minissérie Nada Ortodoxa - Anika Molnar/Divulgação Netflix

Os figurinos, as cenas do casamento, dos jantares em família, os rituais, a ousada e acertada escolha da maioria dos diálogos serem em iídiche revelam o cuidado e o respeito às tradições do grupo retratado, não sem denunciar as consequências repressivas à individualidade de seus integrantes.

Os hábitos radicais prejudicam principalmente as mulheres, mas não sem reverberarem negativamente no que se espera dos homens, dos maridos hassídicos. As figuras masculinas representadas na minissérie demonstram um cuidado com essas representações e escancaram as fragilidades de quem reproduz o que lhe foi ensinado a vida inteira.

A temática da deserção em uma comunidade judaica ortodoxa já havia sido tratada pela Netflix no documentário One Of Us (2017), ainda disponível no catálogo. Dirigida por Heidi Ewing e Rachel Grady - dupla indicada ao Oscar por Jesus Camp (2006) -, a produção acompanha três judeus (dois homens e uma mulher) que fogem da comunidade  e enfrentam inúmeras barreiras para reconstruir suas vidas.

Desde a busca por emprego até a luta pela guarda dos filhos, o mais chocante é a brutalidade com que suas famílias os rejeitam. Nenhum deles teve educação formal ou o mínimo de conhecimento tecnológico - nem internet - e ainda precisam lidar com o abandono.

Em Nada Ortodoxa essa fuga é retratada de maneira mais positiva através da atuação impecável de Shira Haas e da direção sensível de Anna Winger e Alexa Karolinski. Muitas curiosidades interessantes sobre o elenco, os sets de filmagens e os figurinos são contados em um episódio extra de making of de 20 minutos. Os quatro capítulos da minissérie fluem em uma dinâmica equilibrada entre emoção, tensão e aprendizado.

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