ARMORIAL

Livro inédito de Ariano Suassuna, 'O Sedutor do Sertão', é um romance épico com o bom-humor sertanejo

Escrito em 1966, o livro seria um roteiro de cinema de um filme que nunca foi rodado. Seis anos após a morte de Ariano Suassuna, sua família e a editora Nova Fronteira lançam este romance inédito

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 03/04/2020 às 20:32
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RODRIGO LOBO/ACERVO JC IMAGEM
OBRA Box traz também ilustrações criadas por Ariano Suassuna, manuscritos do escritor e textos de apoio - FOTO: RODRIGO LOBO/ACERVO JC IMAGEM
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O último dia 22 de março deveria ter sido de celebração, debate, apresentações musicais e homenagem à memória de Ariano Suassuna com o lançamento oficial, no Recife, de seu romance póstumo O Sedutor do Sertão (Nova Fronteira, 248 pgs., R$ 49,90). O evento não aconteceu devido ao avanço da pandemia que assola o mundo e, apesar de estarmos presenciando um tempo estranho e difícil – ou justamente por tudo isso -, este livro não poderia chegar em melhor momento. Pois que atire a primeira ilumiara quem não está precisando do humor inteligente de Ariano Suassuna em um romance épico até então inédito.

Escrito em março de 1966, em apenas 23 dias (rapidez que não era tão comum no processo de criação do paraibano), O Sedutor do Sertão nasceu na verdade de uma encomenda cinematográfica. Ariano foi convidado a desenvolver uma história que seria adaptada às telas de cinema e, mergulhado na escrita de sua grande obra A Pedra do Reino, ele criou este sagaz enredo que tem como protagonista o cavaleiro sertanejo Malaquias Pavão.

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Aos leitores atentos este nome não é desconhecido: Malaquias é irmão de Quaderna, o narrador d’A Pedra do Reino. Naquele ano de 66, o romance, que se tornaria um dos seus livros mais conhecidos, estava sendo pensando como uma trilogia, plano que o destino por motivos diversos não levou adiante, assim como o filme d’O Sedutor do Sertão nunca fora realizado por falta de verba.

O manuscrito foi parar em uma das tantas gavetas do escritor e, apesar dele sempre citar essa obra com carinho para seus familiares, não voltou a trabalhar em cima da história. O lançamento, 54 anos após a escrita original e seis anos após a morte de seu autor, faz parte do arrojado projeto da Nova Fronteira de reeditar toda sua obra com apoio da família Suassuna.

O pesquisador e professor Carlos Newton Júnior e o designer Ricardo Gouveia estão linha de frente dessa empreitada junto ao artista plástico e filho de Ariano, Manuel Dantas Suassuna. Desde 2015 eles vêm se dedicando ao universo armorial dos romances, peças de teatro e poemas do escritor, trabalho este que já resultou em alguns relançamentos, além do também inédito e grandioso Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores (2017).

Em O Sedutor do Sertão, é possível reencontrar não apenas Malaquias Pavão, agora com o merecido destaque que esse anti-herói sertanejo merece, mas alguns outros elementos que permeiam os livros e as aulas-espetáculos de Ariano Suassuna. Fica mais uma vez evidente a sua genialidade em ter criado um universo particular que atravessa toda sua obra.

Há também um pouco Chicó e João Grilo, os icônicos personagens d’ O Auto da Compadecida (1955) em Malaquias e seu fiel companheiro e assistente Miguel Bôco nesta epopeia sertaneja. Juntos, eles viajam vendendo folhetos, elixires, retratos do Padre Cícero e cachaça sem selo, se salvando de situações perigosas envolvendo polícia e cangaceiros na base de lábia e malícia.

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Ricardo Gouveia de Melo, Manuel Dantas Suassuna e Carlos Newton Júnior trabalham nas edições póstumas de Ariano Suassuna - LEO MOTTA/ JC IMAGEM
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Ilustração de Manuel Dantas Suassuna, em O Sedutor do Sertão - DIVULGAÇÃO
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Ilustração de Manuel Dantas Suassuna, em O Sedutor do Sertão - DIVULGAÇÃO
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Ilustração de Manuel Dantas Suassuna, em O Sedutor do Sertão - DIVULGAÇÃO
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Capa do livro O Sedutor do Sertão, escrito em 1966 por Ariano Suassuna e que nunca havia sido publicado - DIVULGAÇÃO

Universo particular em livro atemporal

"Muita gente pergunta do porquê desse novo livro ter ficado tanto tempo guardado, acham que era um texto renegado por Ariano, mas não é nada disso. É que ele, na verdade, não tinha muita habilidade para correr atrás das editoras. Ele gostava de dedicar seu tempo a escrever. No começo dos anos 90, Rachel de Queiroz, de quem era muito amigo, o aconselha a contratar uma agente literária e a partir daí realmente seus livros começam a ser editados", pontua Carlos Newton que, além de pesquisar a obra de Ariano Suassuna há muitos anos, também foi um amigo próximo e assistente do escritor e assina a apresentação do romance.

"Você não vai encontrar aqui as características de um roteiro de cinema, mas sim um romance em que predominam os diálogos. O narrador é importante, mas participa o mínimo possível. No manuscrito original havia indicação de como deveriam ser os letreiros e outras informações de cinema, mas não em forma de roteiro propriamente dito."

De fato, os diálogos são marcantes e tornam o livro dinâmico e atual. O humor tão característico de Ariano Suassuna, assim como a crítica social aguçada, é encontrado nas conversas entre Malaquias, Miguel e outros personagens principais: o amigo/rival Sinfrônio Perigo e a bela Silviana dos Braços Brancos, esposa de Sinfrônio e paixão de Malaquias. Um curioso fato histórico inspirou a escrita deste livro: a Guerra de Princesa, uma revolta ocorrida em 1930 em que os moradores de Princesa, Sertão paraibano, se rebelaram contra o governo local.

As belas ilustrações são de Manuel Dantas, assim como nas outras reedições da Nova Fronteira. “Para fazer este trabalho eu pensei muito na literatura de cordel, nas gravuras de Samico, que meu pai tinha incluído no manuscrito original, e nas pinturas rupestres. Os traços de meu pai nos desenhos de Dom Pantero também foram referências, eu queria manter o espírito”, explica Manuel. “O prazo acabou ficando mais curto que o de início, então fiz tudo em uma semana, passando uns dias no Recife e uns dias em Taperoá, fiz 66 gravuras e foram selecionadas 55 para o livro.”

“Ariano tinha uma visão gráfica maravilhosa”, complementa Ricardo, que começou a trabalhar com o escritor nos anos 1980. “Me debrucei em seus estudos para elaborar o projeto gráfico. Acredito que estamos cumprindo uma missão sagrada e importante de levar sua obra adiante como ele sempre sonhou. E é muito interessante pois estamos promovendo uma simbiose entre o trabalho do pai e do filho”, ressalta o designer.

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