POESIA

Campanha #MiróAlive é lançada para judar o poeta Miró da Muribeca

Um dos maiores nomes da poesia urbana brasileira, Miró está sem poder produzir como sempre o fez, circulando pelas ruas do Recife. Uma campanha virtual tem como objetivo ajudá-lo financeiramente neste momento

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 08/05/2020 às 16:24
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Miró é um dos mais importantes nomes da poesia urbana brasileira - FOTO: Divulgação
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Recife, cidade sempre efervescente de movimento, ônibus lotados e calçadas dividindo o apertado espaço entre ambulantes e transeuntes, não está acostumada com o silêncio das ruas, mesmo ele sendo de imensa necessidade nestas semanas de pandemia. Miró da Muribeca sabe bem disso mas para ele está especialmente difícil não poder circular pela cidade, pois é caminhando que ele vende sua arte e - principalmente - porque é das ruas que ele alimenta seus versos: as conversas captadas nas esquinas, o vendedor anunciando as promoções do dia no microfone, o vai e vem dos carros, bicicletas, motos.

Para ajudar Miró a passar por esse momento delicado, em que ele está impossibilitado de produzir e de realizar as suas oficinas em escolas, o também escritor, amigo e editor Wellington de Melo resolveu criar a campanha #MiróAlive para ajudá-lo financeiramente.

A partir da hashtag #ficaemcasamiró, compartilhada nas redes sociais, algumas iniciativas estão sendo planejadas pelos dois. "Desde a doação espontânea à aquisição de livros, pelos quais ele recebe direitos de autor. Brincando com essa moda agora de todo mundo fazer "live", lançaremos um livro pouco convencional chamado #MiróAlive, que na verdade vai ser um pequeno conteúdo em vídeo e texto, disponibilizado para apoiadores com link exclusivo. A pessoa faz um depósito na conta dele e recebe a senha", explica Wellington.

Poesia urbana em tempos de isolamento social

"Até as calçadas estão sentindo saudades dos nossos calçados", analisa Miró sobre o vazio do centro do Recife. Por décadas ele morou no bairro que carrega no nome artístico, mas desde que a mãe faleceu vive na área central da capital pernambucana. Durante os dias de quarentena, ele não tem conseguindo escrever muito, nem gosta de se ocupar com o celular. "Criei algumas coisas, vejo de longe essa tristeza. Está difícil para todo mundo", desabafa. "Como eu vivo da minha literatura, não tenho outra função a não ser minha poesia. E não estou conseguindo escrever muito porque minha inspiração é a vivência das ruas. Agora não sou mais passageiro, tenho que ser meu próprio ônibus e para onde vou?"

Aos 59 anos, Miró vive desde 1985 da sua atividade artística. No início dos anos 80 ele ainda trabalhava na Sudene e nessa mesma época convivia com o escritor e artista plástico Maurício Silva, que o incentivou a escrever e publicar. Desde então, uma forte característica da arte de Miró vai além da sua força poética: existe uma proximidade grande com seus leitores. Até dois meses atrás, sempre os encontrava nas ruas de forma espontânea, agora o contato vem pelas redes sociais.

A campanha #MiróAlive foi lançada através do Instagram do poeta no último dia 5 de maio, data em que se celebra o Dia da Língua Portuguesa. Para ajudar o projeto ou comprar obras de Miró, é possível entrar em contato por mensagem no perfil. "Um poeta é um trabalhador como qualquer outro, mas que está longe do amparo social. Miró é um patrimônio nosso e seria importante que o Governo do Estado reconhecesse sua grandeza. Ele compõe hoje o acervo do Museu da Língua Portuguesa, mas o queremos vivo, entre nós", finaliza Wellington.

 

Cepe/ Divulgação
Capa do livro Miró Até Agora, da editora Cepe, que reúne poemas escritos e publicados entre1985 e 2012. O livro pode ser adquirido no site da Cepe - Cepe/ Divulgação

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