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Em oito horas de live, Emicida dá dimensão de sua poderosa carreira

Começando às 16h e terminando na madrugada, o rapper Emicida passeou por sua jornada na música em longa live que deu conta do lugar onde ele chegou

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 11/05/2020 às 13:41
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Emicida realizou uma longa live no último domingo (10) - FOTO: YouTube/Reprodução
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Perto da meia-noite, o rapper Emicida anunciou em sua live que ainda teria música pra cantar e que ia chegar até a hora do Fantástico. Ele logo foi avisado que o programa televisivo já havia acabado e se mostrou chocado ao saber das horas. A transmissão, que passeou pela carreira do artista, estava programada para ter cerca de cinco horas, mas acabou chegando em oito. A jornada de mais de uma década do Emicida no rap e na música nacional é tão sólida e longeva que não coube no mais otimista dos planejamentos para a live. E que bom que não coube, pois trata-se de uma oportunidade única de se ter noção da dimensão que ele e o rap alcançaram no Brasil.

Acompanhado pelo DJ Nyack e por Thiago Jamelão, sua apresentação começou por volta das 16h e entraria noite adentro. Artistas como Anitta, Ivete Sangalo e Daniel iniciaram e terminaram suas lives antes do fim da apresentação do rapper. E não se tratou de enrolação, longas conversas ou cozinhar algo para tomar tempo. Foram mais de 100 músicas tocadas, entre histórias curtas de bastidores e pedidos de doações. A live arrecadou dinheiro para o projeto Mães de Favela, da Central Única das Favelas (Cufa).

A apresentação materializou a prova de que Emicida levou o rap para um outro patamar na música brasileira. Se há 10 anos ele era um novo fôlego, hoje ele é um bastião do ritmo. Um sucessor natural na construção da estrada iniciada por nomes como Racionais, Facção Central e RZO. Um rap para um outro Brasil que começava a surgir, em que, mesmo a passos tímidos, a população preta e periférica começava a permear espaços desde sempre negados. Um rap que ainda carregava fúria e batidas pesadas, mas que também encontrava espaços para leveza e aproximação com outras sonoridades da música popular brasileira.

As oito horas de transmissão abraçam tudo isso. A live foi aberta com a introdução de sua primeira mixtape/disco, batizada de Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe, de 2009. Nela, relembra que ainda ali na década passada, já se sabia que a tecnologia aproximou as pessoas muito menos do que se esperava e que as viaturas policiais continuavam parando para os pretos, diferente dos táxis. Pôde matar a saudade de canções desse primeiro trabalho, que ainda é um de seus melhores, não tocadas há muitos anos. E continuou a jornada até o AmarElo, seu último disco, lançado no ano passado.

Horas e horas

Foi um momento de amplitude temática e sonora, além de comoção por parte dos admiradores, colocando o rapper no topo dos trending topics do Twitter durante todo o evento. Seja com os hits, as raridades mais desconhecidas e as histórias que vêm desde os tempos das batalhas de MCs, das quais é campeão nacional. Dedicou um certo segmento só para as mais românticas de seu repertório e o público distante sentiu a pontada. Emicida recomendou que não cedessem ao pegar o celular e mandar mensagem para casos amorosos até então superados. Nem todos conseguiram.

Mas o amor também dividiu espaço com a fúria e o lamento. As lembranças dos que se foram como em Crisântemo, Canção Para Meus Amigos Mortos e Essa É Pra Você Primo, as lutas para chegar em lugares, como De Onde Cê Vem?, Cê Lá Faz Ideia e Licença Aqui, além da revolta com todas as formas de opressão.

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Emicida perdeu a noção das horas em live - YouTube/Reprodução
 

Antes de uma delas, Bang!, decidiu disparar: "Na época que o Donald Trump foi eleito, tinha uma velhinha que saiu andando nos Estados Unidos com uma camisa escrito 'eleja um palhaço e espere um circo'. Quando a gente pega isso e traz para a realidade do Brasil, a gente vê as atitudes desse inútil que tá ocupando o Palácio do Planalto, você pensa 'eleja um assassino e espere um genocídio'. Essa é nossa realidade". Relembrou de falas do presidente sobre a população quilombola e disse que se tratar de um pensamento que representa o que há de mais nojento no país.

Para encerrar o Dia das Mães já na madrugada da segunda, ele cantou a emotiva Mãe, dedicada para Dona Jacira, sua matriarca e fonte constante de inspiração. Durante a canção que louva todas as lutas dela, Emicida voltou as origens das batalhas de MCs e fez rimas improvisadas por mais de 10 minutos com recados de fãs para suas mães feitos no Twitter, afiado como há dez anos atrás. Encerrou a transmissão com Principia, faixa do disco mais recente, exaltando a necessidade de nos apegarmos uns aos outros com seu refrão "tudo que nós tem é nós". A live está disponível completa no YouTube.

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Emicida perdeu a noção das horas em live - FOTO:YouTube/Reprodução

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