Debate

Websérie pernambucana traz debates e performances para falar sobre violências de gênero

'Ferida' é produzida pelo Núcleo de Experimentações em Teatro do Oprimido e estreia gratuitamente neste sábado, trazendo debates e performances sobre violência de gênero

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 22/05/2020 às 15:33
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Camila Silva/Divulgação
A atriz e arte educadora Andréa Veruska em uma das performances exibidas em 'Ferida' - FOTO: Camila Silva/Divulgação
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Para enfrentar o metrô, a atriz e arte-educadora Andréa Veruska abdica de vestimentas comuns e vê o conforto em uma verdadeira armadura. O traje escolhido é revestido por pregos enferrujados e objetos cortantes. Sua maneira de enfrentar o assédio sexual que, segundo uma pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, já acometeu 97% das mulheres nos transportes públicos e privados. A armadura de Veruska, na verdade, é parte de sua performance batizada Perseguida, fruto de uma intensa pesquisa. A empreitada não pôde ser realizada de fato no metrô, proibida pela administração do transporte público, mas tem sua preparação presente no primeiro capítulo da websérie Ferida, disponível a partir deste sábado, tendo como diretriz o debate sobre violência de gênero.

Ferida concilia performances com entrevistas em três capítulos. Ela é idealizada pelo Núcleo de Experimentações em Teatro do Oprimido, encabeçado por Veruska e pelo também ator Wagner Montenegro, em atividade desde 2012 com pesquisas, experimentações e ações de arte-educação. "Em todas nossas oficinas de formação, seja em capitais, interiores, Nordeste, Sul, os relatos de violência contra a mulher eram constantes. A gente queria estudar de onde surge essa violência e em 2017 elaboramos um projeto, aprovado no Funcultura, para fazer esse estudo", conta Veruska. A pesquisa foi realizada, intitulada Do gênero performativo às performatividades de gênero, que por sua vez culminou nas performances, com três delas expostas em Ferida.

Audiovisual

Acompanham Perseguida as performances Mulheres que carregam homens e Devir Animal. A primeira traz atrizes carregando homens nas costas por ruas do centro do Recife, acentuando um debate sobre desigualdades de poder em relação aos gêneros. A segunda vem em formato de fotoperformance para refletir sobre imposições sobre o corpo e as imposições que são colocadas sobre ele, com cobranças em relação a pelos, manchas e cheiros. Todo esse trabalho ganhou sua dimensão audiovisual com o empenho de Camila Silva e William Oliveira, responsáveis pela filmagem e edição.

 

Elas servem como gatilhos para um debate conduzido por entrevistas. Em Perseguida, duas mulheres conversam sobre o modo combativo que precisam assumir diante do assédio na locomoção do dia-a-dia. Na segunda, uma roda de conversa com mulheres em um bar vão falar sobre o que de fato é igualdade e por fim, duas pessoas trans, um homem e uma mulher, conversam sobre como comportamentos e maneiras de estar no mundo são divididos como "de homem" e "de mulher".

Essas conversas também são alocadas em espaços que de alguma forma também falem sobre o tema, evocando um ambiente ora de estranhamento, ora de combate. Uma aula de boxe, um bar e um santuário religioso fazem esse papel. "Queríamos fugir de uma coisa mais acadêmica e também queríamos trazer esse lugares que carregam algumas coisas em si. Um bar de um mercado público é um espaço dominado por homens, muito difícil ver uma mulher sozinha, segundo algumas meninas, há até uma percepção de 'convite' quando isso acontece. O mesmo com o ambiente de uma aula de boxe, categorizado como 'de homem' por remeter a agressividade e força física. Já o santuário religioso com as pessoas trans remete a esse lugar que nem sempre essas pessoas", explica Veruska.

Toda a experiência do Ferida é um fruto maduro desse mergulho do Nexto no Teatro do Oprimido, metodologia idealizada pelo teatrólogo Augusto Boal. Trata-se de um fazer teatral que se alimenta do diálogo ao mesmo tempo que o estimula. O que é evidente na websérie, com a conversa e arte tendo fronteiras pouco marcadas. "Se a gente faz um espetáculo, a gente abre uma roda para conversas e trocas, é uma necessidade, uma forma de desmecanizar o corpo e a mente. A gente recebe essas histórias de opressão e tratamos delas com muito cuidado, transformando em experimentos artísticos", conclui Veruska.

Flavia Pinheiro/Divulgação
Imagem de 'Mulheres que carregam homens' - FOTO:Flavia Pinheiro/Divulgação

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