Cinema e Luta

Movimentações batem de frente na negligência do cinema brasileiro com população negra

No Brasil e em Pernambuco, produções, ativismo e iniciativas educativas se impõem na luta por espaços negados nas telas e por trás das câmeras do cinema nacional

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 08/06/2020 às 15:23
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ADALBERTO OLIVEIRA/Divulgação
Cena de 'Terra não Dita, Mar não Visto', da cineasta Lia Letícia, realizado em Pernambuco - FOTO: ADALBERTO OLIVEIRA/Divulgação
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As representações e modos de produções que envolvem - ou não envolvem - a população negra no cinema brasileiro, donas de uma imensa bagagem de problemáticas, vêm sendo confrontadas ao longo dos anos mais recentes, em passos importantes. Mas ainda é grande caminho pela frente. Apenas em 1984, Adélia Sampaio dirige Amor Maldito e se torna a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem. Só no final dos anos 2010, que outras mulheres negras vão assumir a direção de longas, como Glenda Nicácio em Café com Canela e Camila de Moraes com O Caso do Homem Errado.

Já no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, vão despontar figuras importantes, como o cineasta e pesquisador mineiro Joel Zito Araújo, lançando perspectivas que vão desde questões de classe, lutas políticas e representação na mídia. Este último é representado por A Negação do Brasil, documentário vencedor do Festival É Tudo Verdade, que reflete sobre a presença do negro nas telenovelas. No começo dos anos 2000, são divulgados contundentes manifestos nesse sentido. O Dogma Feijoada é apresentado pelo cineasta Jeferson De no Festival de Curtas de São Paulo, elaborando condições para um cinema negro, como a presença de um diretor negro, proibição de personagens estereotipados e evitar dualidades entre heróis e bandidos.

Em uma pesquisa realizada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) e do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa), ao analisar o lançamento de longas lançados em 2016, foi constatado que apenas 2,1% deles foi dirigido por um homem negro e nenhum por uma mulher negra. Mas a negritude continua em tela, pelo olhar do outro, puxando símbolos já estereotipados de violência e dor para a experiência negra, à la Cidade de Deus. Mesmo com esse cenário, vão aparecer trabalhos importantíssimos por todo o Brasil que vão ampliar as narrativas para outras dimensões de afetos.

É assim que vem sendo feito o trabalho do mineiro André Novais Oliveira, um dos principais nomes da potente cena que surge no município de Contagem, região metropolitana mineira. Em títulos como Ela Volta na Quinta e Temporada, Novais traz um cinema que se pauta em vivências rotineiras de uma vida privada e todas as poéticas imbricadas nessas histórias. Caminhar pelas ruas, planejar um futuro ao lado de alguém, resolver mágoas do passado, tudo em uma abordagem tão natural, quanto bela. Ainda em Minas, vem a poderosa Grace Passô, com uma bagagem imensa pela teatro e também atuando em grandes filmes dessa cena de Contagem, fez sua estreia na direção em 2019 com Vaga Carne.

 

Narrativas que rompem

Pelas terras pernambucanas, a movimentação vem se dando em instâncias que vão da educação, produção e atuação em prol de demandas de políticas públicas. A cineasta, curadora e pesquisadora Anti Ribeiro é uma delas, principalmente com sua oficina Afroficções, voltada para entender a apropriação das narrativas como arma de emancipação. Anti veio de Sergipe para fazer faculdade de cinema no Recife e sua experiência no curso, assim como por festivais e no meio do audiovisual em si.

"Na universidade, já tinha observado que nenhum dos professores se colocava enquanto racializado, à princípio. Quando faço parte da oficina de crítica do Janela Internacional de Cinema (em 2017), percebi que o mote era o corpo negro e a presença negra. Porém, como na universidade, o festival não dispunha de pessoas na produção e no pensamento que vivessem uma perspectiva de raça. Comecei a perceber que fosse ainda mais necessário desenvolver algo que desembocasse em algo coletivo para pensar essas perspectivas", relata Anti.

A oficina, já realizada em seis diferentes ocasiões em Recife, Aracaju, Fortaleza, Rio Grande do Norte e agora virtualmente, se alimenta de diversas referências teóricas e utiliza incômodos como gatilhos para as discussões. Atualmente dividida em quatro módulos, passando por memória e diáspora, ficção, afrofuturismo e afropessimismo. Entre os diversos olhares propostos, há de o olhar para os cânones, artísticos e teóricos, fazendo uma movimentação, ao mesmo tempo em que bebe nesse referencial, também os questiona e subverte. Anti também explica em como busca provocar um olhar que se desvencilhe de etiquetas que, de certa forma, engessam a experiência da racialização na ficção.

DIVULGAÇÃO
A pesquisadora, curadora e cineasta Anti Ribeiro ministrando a oficina 'Afroficções' - DIVULGAÇÃO

Dentro desses incômodos, há um certo determinismo imposto sobre o que as pessoas negras devem falar em suas criações. "Há essa obrigação de que pessoas racializadas falem sobre raça o tempo inteiro. Eu tento motivar as pessoas racializadas que participam da oficina que engatilhem outros processos. São processos que vão passar por raça, porque é uma experiência que está inerente a nossa vivência, mas quero pensar outros movimentos que não dá pra branquitude o que ela quer ver da gente. Esse lugar de trazer a dor, que é quase como um fetiche para eles. A gente falar além da dor, sem interditá-la, mas ir além dela, pensar que esse lugar não é o único que nos abarca", explica.

Nesse processo, há o conhecer as representações e construções problemáticas, mas também as potentes. Para Anti, essas últimas estão em nomes que vão do estadunidense Jordan Peele, produzindo o que considera "uma parodização da ficção hegemônica, agora com corpos negros", assim como nomes locais como Diego Paulino, diretor de Negrum3 e o Leon Reis com Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno. Há também a produção de Lia Letícia, gaúcha, residente no Recife há mais de 20 anos, diretora de produções como Terra não Dita, Mar não Visto e Thinya.

Em sua terra natal, Lia atuava em cenografias, trabalhando também com escolas de samba e teatro de bonecos. Ao se mudar para o Recife, continua ligada às artes visuais, ao mesmo em que trabalhava como garçonete na extinta Soparia, ponto marcado por sua efervescência cultural. Por lá, também fez pinturas, quase uma artista residente do espaço. Após o período por lá, foi morar em Olinda e continuou com trabalho em artes visuais e como garçonete. Esse é um ponto que Lia considera expressivo da vida de um artista racializado.

'Nunca conseguia me dedicar apenas à arte. Há a questão da sobrevivência, é preciso sobreviver. Minha trajetória vai ser muito ligada a poéticas de sobrevivências. Eu venho de um período ali do fim dos anos 1990, quando não havia nem a possibilidade das cotas e dificilmente um artista negro trabalharia com o que quer", explica Lia. Entrando em contato com outros artistas em Olinda, passou a ter um maior contato com outras linguagens. Começou a desenvolver trabalhos com videoarte e entra no cinema experimental no começo dos anos 2010.

"O cinema no Brasil já é historicamente um ambiente branco e elitista, mas se pensarmos em cinema experimental, é um clubinho mais fechado ainda. Quando começo a adentrar nesse ambiente, eu via isso subindo num palco, sendo a única pessoa não branca. Minha trajetória se deu de uma forma muito difícil, eu brinco que foi ‘pulando catraca. Eu tento trabalhar com narrativas alternativas ao cinema clássico, exatamente pelo modo de produção mais solitário que trago das artes visuais. Quando isso vai para o trabalho em equipe, trago essa linguagem em que as pessoas todas contribuem para a narrativa, em um modo de produção não tão hierarquizado", relata Lia.

ROSA MELO/Divulgação
Lia Letícia (direita) no set do filme 'Per Capita', atualmente em finalização - ROSA MELO/Divulgação

Entre seus incômodos, seja nas telas ou por trás das câmeras, está as consequências desse modo hierarquizado de produção, culminando em uma espécie de subjulgamento racial. “Há uma produção que se tenta trazer a questão racial para as telas como tema, acho louvável, mas isso tem que ser refletido também no fazer, nas equipes. A gente vê que a maior parte das pessoas racializadas nelas ainda estão em posição subalterna e de apoio. Precisamos trabalhar também como artistas e profissionais criativos nessas equipes”, afirma a cineasta. "Quando o assento sempre foi seu, é necessário dar para outras pessoas. Em várias questões, como os editais, mas também em ser proativo", arremata.

Em prol dessas movimentações, surge em 2019 o Coletivo da Negritude do Audiovisual de Pernambuco , que hoje reúne 52 artistas negros do estado, autogestionado de forma horizontal. Um de seus integrantes é o cineasta Igor Travassos, de 26 anos, com atuação como diretor, produtor, além da experiência com cineclubes. Nessa trajetória, também lhe marca "um sério problema de representatividade de corpos não-hegemônicos no cinema pernambucano". "São personagens negros que não têm um nome ou que são resumidos ao seu trabalho, contextos completamentes soltos da realidade, com uma sala de aula de uma escola pública na periferia só com crianças brancas. Senti a necessidade de colocar minhas perspectivas e contar minhas histórias", explica o diretor.

É algo que ele vê como impossível de ser desconectado do fato de quem realmente controla historicamente essas narrativas. A câmera, por mais que hoje tenha se democratizado mais, é um objeto historicamente caro, então a produção acaba sendo de uma minoria que esvazia a humanidade e a complexidade dos corpos negros, nas narrativas e nas imagens.

"Quando uma pessoa preta está na direção, ela tende a movimentar toda uma estrutura, colocando outras para exercer um trabalho criativo em conjunto, uma visão mais coletiva de cinema. Nossa luta é pela democratização dos recursos que permitam isso”, elabora. O principal edital de fomento audiovisual do Estado, o Funcultura, não possuía cotas para produtores negros ou indígenas até quatro anos atrás, quando uma movimentação que contava com nomes como Stella Zimmerman, Cynthia Falcão e Juliana Lima, conseguiu estabelecer uma reserva de 20% no edital.

"A gente foi observando que realmente houve aumentos significativos de aprovações para essas pessoas em suas produções, chegando até a 60% em alguns casos. Contudo, fizemos um levantamento desses dados e vimos que esses projetos eram de curtas-metragens. Os longas, os grandes orçamentos, continuavam nas mãos de quem sempre os fizeram em Pernambuco. Um filme desses tinha mais grana do que todos os aprovados por pessoas pretas", relata Travassos. No final de 2019, com a vinda dos editais 2018/2019 e 2019/2020, o grupo se organizou enquanto um coletivo para conseguir uma estrutura mais democrática.

Uma carta foi elaborada, com 35 assinaturas de profissionais negros, pleiteando um lugar no grupo de trabalho na elaboração dos editais. Os editais são publicados e a movimentação consegue estabelecer a nova em ambos. O 2018/2019, voltado para longas e produções de TV foi publicado com uma cota de 50% para negros, mulheres e indígenas na direção e roteiro de longas e produtos para TV. Já o 2019/2020, comportando curtas, cineclubes, festivais e atividades de formação e pesquisa, continua com a obrigatoriedade de aprovar 20% de projetos com negros e indígenas.

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