Tereza de traços únicos

LUTO Artista faleceu ontem, aos 91 anos, após AVC

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 27/07/2020 às 6:00
CHICO PORTO/ACERVO JC IMAGEM
TALENTO Artista pernambucana fez várias exposições e ganhou prêmios do Museu do Estado e da Sociedade de Arte Moderna - FOTO: CHICO PORTO/ACERVO JC IMAGEM
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Uma das artistas visuais mais importantes de Pernambuco e do Brasil - ainda que o país lhe deva um reconhecimento na dimensão de seu trabalho -, Tereza Costa Rêgo faleceu ontem, aos 91 anos, vítima de complicações causadas por um AVC sofrido na madrugada de sábado. Com suas cores vibrantes e traços inconfundíveis, ela criou uma poética singular atravessada pelo desejo e pela liberdade, desafiou convenções machistas e posicionou-se contra as injustiças sociais. O velório será hoje, às 10h, e o sepultamento, às 11h, no Cemitério de Santo Amaro. Ambos os momentos são restritos aos familiares.

Tanto na sua vida pessoal quanto na sua arte, Tereza transgrediu todos os papéis que o patriarcado tentou lhe impor. Nascida na aristocracia recifense, foi criada sob uma educação rígida e repressora e o talento para a pintura era visto pela família mais como um "dote" que poderia agregar nos atributos por um bom matrimônio do que como uma possibilidade de carreira.

Aos 15 anos, entra na Escola de Belas Artes, onde estuda com mestres como Lula Cardoso Ayres e Vicente do Rêgo Monteiro, além de desenvolver amizade com Francisco Brennand, Reynaldo Fonseca e Aloísio Magalhães. Mas, ao contrário de seus pares, tinha restrições, como a proibição dos pais de frequentar as aulas de modelo nu.

Sua habilidade artística já era reconhecida e, em 1962, Terezinha, como assinava à época, já havia conquistado três prêmios do Museu do Estado e um da Sociedade de Arte Moderna. Mas, aquelas telas ainda estavam longe de representar o que, de fato, viria a ser a poética da pernambucana. Esses traços autorais só viriam a se consolidar anos depois, após reviravoltas na vida pessoal, entre elas a decisão de deixar seu marido para viver o amor com Diógenes Arruda Câmara, então dirigente do Partido Comunista do Brasil, com quem se muda para São Paulo.

O desquite e o posicionamento político marcaram o rompimento de Tereza com a alta sociedade pernambucana. Com o golpe militar em 1964, passa a viver na ilegalidade, exilando-se no Chile em 1972, onde presenciou a instauração de outra ditadura com a deposição de Salvador Allende. Com Diógenes, se refugia na França, onde passa a usar o nome Joanna e cursa o mestrado em História na Universidade Sorbonne.

"Tereza viu o século 20 se fazer e desfazer. Ela tinha uma consciência social profunda e foi testemunha de muitos eventos históricos, como a Revolução dos Cravos, em Portugal, os círculos do poder da China maoísta, a ebulição política da Albânia. Tereza foi atravessada pela política e este elemento permeia sua obra, de forma direta, como a série Sete Luas de Sangue e o painel Tejucupapo, que retrata diferentes momentos da história do Brasil. Viveu às últimas consequências sua escolha pelo amor e pela política e sempre dizia que podia estar até pintando uma natureza morta, mas que ainda assim aquela tela era afetada por tudo que ela viu e viveu", enfatiza o jornalista Bruno Albertim, amigo e autor da biografia Tereza Costa Rêgo: Uma Mulher em Três Tempos (Cepe Editora).

Com a anistia, Tereza retorna ao Brasil em 1979, mudando-se para Olinda após a morte precoce de seu companheiro. Na sua casa na Rua do Amparo, se dedica à sua arte e começa a dar corpo à sua obra, ensolarada, tropical, hormonal e política, destaca Albertim.

"Ela era muito controlada pela família: não podia rir em público, não podia usar certas roupas, como maiô. Quando a mãe dela morre, ela pinta uma mulher nua pela primeira vez. É como uma libertação. Tereza entende o patriarcado como um fato histórico e ela sentiu na pele os efeitos dele. Essa nudez desnuda a si e às mulheres que a antecederam e a sucederam. É um corpo hormonal, que pode convidar para o prazer, mas que também é sempre político", aponta.

Para Albertim, Tereza ofereceu um contraponto feminista ao universo majoritariamente masculino da arte moderna em Pernambuco. Sua opinião é partilhada pelo curador Marcus Lontra, que defende que a expressão da subjetividade feminina na obra de Tereza Costa Rêgo está entre as mais ousadas e impactantes da arte brasileira do século 20. "Poucas pessoas captaram a questão do feminino de uma forma corajosa como ela. Com a sensualidade, autonomia, potência, com um olhar para o futuro, jamais aceitando a ideia da mulher submissa, recatada e do lar. Em muitas leituras conservadoras da arte brasileira, a produção feminina é vista como coadjuvante, mas Tereza quebra com isso. Sua produção dá uma dignidade, um tratamento que não se atém só para a beleza do feminino, mas para as suas potências", explica Lontra.

O curador ressalta ainda que devido a um recorte centrado na produção sudestina, a produção de Tereza não tem o reconhecimento que merece a nível nacional. Ele aponta que a produção da pernambucana não se alinhava à abstração e às tendências geometrizantes que dominavam o circuito da arte. Figurativa, "quente", com uso marcante do vermelho, sensual, política e histórica, a pintura de Tereza representa uma visão de arte que só vem ganhar a devida atenção na arte contemporânea.

Sempre em ebulição, Tereza, mesmo com as limitações físicas, ainda produzia poucos meses antes de sua morte, cumprindo com seu desejo de criar até quando tivesse forças. Fazia questão de manter-se em diálogo com as novas gerações, como na exposição Antes do Cio dos Gatos, com as artistas Clara Moreira e Juliana Lapa, em 2019, na Galeria Amparo 60. "Quero pintar até não conseguir mais. Sempre fui muito feliz pitando aqui, mas quero, agora, fazer uma exposição nacional, com alguns dos quadros mais importantes da minha carreira", disse ao Social 1 quando completou 90 anos.

A artista tinha, também, o desejo de ver seu trabalho circular o país com uma grande exposição retrospectiva de sua obra. O projeto teria início em março deste ano com uma ocupação no Cais do Sertão, com curadoria de Albertim e Lontra. Com a pandemia, a mostra foi suspensa para 2021. "Conhecer Tereza era um privilégio. Ela era de uma generosidade, de uma vivacidade, uma força enormes. Ela é uma das maiores pintoras deste país e sua obra precisa ser reconhecida como tal", reforça Marcus Lontra.

Também na entrevista ao Social 1, Tereza disse que não tinha arrependimentos, mas que lamentava a repressão da infância e juventude. "A sociedade era muito pesada", disse. Sobre sua trajetória e a mulher que havia se tornado foi enfática: "Sou o que consegui ser".

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SÉRGIO BERNARDO/JC IMAGEM
HISTÓRIA Tereza continuava produzindo. ""Quero pintar até não conseguir mais" - FOTO:SÉRGIO BERNARDO/JC IMAGEM
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NA LABUTA Tereza trabalhou até pouco tempo. "Quero pintar até não conseguir mais" - FOTO:SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
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Retrato da artista plástica Tereza da Costa Rêgo. - FOTO:ALEXANDRE SEVERO/ACERVO JC IMAGEM

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