AUDIOVISUAL

É como ter uma videoteca em casa: confira conteúdos disponíveis para visualização gratuita

Registros em vídeo, abertos e gratuitos - e até então com acesso restrito, têm sido alternativa cada vez mais adotada por artistas durante o período de isolamento social

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 01/08/2020 às 11:55
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YOUTUBE/REPRODUÇÃO
Rapper Black Alien revisita em show ao vivo o repertório do álbum 'Babylon By Gus Vol. 1 - O Ano do Macaco', de 2004 - FOTO: YOUTUBE/REPRODUÇÃO
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A realidade de isolamento social imposta pela pandemia do novo coronavírus, como já se sabe, mexeu completamente com a lógica de funcionamento do setor cultural, área que, ao que tudo indica, será a última a ter a normalidade restabelecida. Uma das alternativas utilizadas pelos artistas para se manter em contato com o público, além das tão faladas lives, tem sido a disponibilização de conteúdos antes restritos ou até então inéditos, para visualização gratuita no YouTube.

Alguns optaram pela abertura do conteúdo por tempo determinado, caso do documentário Rádio S.Amb.A.Doc - Uma Viagem ao Centro do Mangue, com direção de André Almeida, que registra o processo de retomada da Nação Zumbi após a morte de Chico Science e consequentemente o período de gestação do álbum Rádio S.Amb.A, que completa 20 anos em setembro.

Outro material liberado temporariamente foi o registro em vídeo de Dorinha, Meu Amor, espetáculo musical dirigido por João Falcão e protagonizado pela atriz e cantora Isadora Melo. A captação de uma sessão apresentada no Teatro Arraial, no Recife, já pôde ser vista em duas ocasiões, com duração de 24h cada.

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As novidades mais recentes, no entanto, ficarão definitivamente expostas na plataforma e com conteúdos de ótima qualidade. Quem já teve a oportunidade de ir a um show de Black Alien provavelmente concordará: o rapper é um maestro da palavra. Em posse desta informação, vale separar uma hora para conferir na íntegra a gravação do show ao vivo no qual ele interpreta a tracklist completa de Babylon By Gus Vol. 1 - O Ano do Macaco, clássico – seu e da história do rap nacional - e primeiro disco solo lançado em 2004, três anos após deixar o Planet Hemp, que integrava desde 1996.

A homônima Babylon By Gus, Mister Niterói, Caminhos do Destino, Como Eu Te Quero e América 21 são algumas nas quais o “Gustavo de Nikiti” se debruça ao público, com apoio somente de DJ, segurando uma apresentação impecável do começo ao fim.

Os doze vídeos que integram a apresentação feita em 23 de novembro de 2018 no Circo Voador, Rio de Janeiro, podem ser conferidos no canal oficial do rapper no YouTube, onde também é possível assistir à primeira live feita por Black Alien, no último dia 10 de julho, com setlist dedicada primordialmente às faixas de Hello Hell: Abaixo de Zero, álbum lançado em 2019.

O disco com beats do produtor Papatinho (ConeCrew Diretoria) é o terceiro de inéditas de Black Alien, tem a marca das excepcionais letras do artista e figura como um marco na retomada da carreira do MC após anos de tratamento contra a dependência química. Já a versão somente em áudio do Babylon By Gus – Ao Vivo está em plataformas de streaming pago, como o Spotify e afins.

Para o público do rock e do hardcore melódico, excelente opção é o conteúdo completo do DVD Obrigado Hangar, da paulistana Hateen. A banda liderada pelo vocalista e guitarrista Rodrigo Koala fez a apresentação ao vivo em 22 de dezembro de 2017, como uma despedida da icônica casa de shows Hangar 110, que à época havia anunciado o encerramento de suas atividades como ambiente para performances.

O espaço foi fundamental para manter ativa toda uma cena do rock underground e independente não só de São Paulo, mas do Brasil. As inconfundíveis paredes rabiscadas e carimbadas com adesivos de nomes como os da própria Hateen, do Ratos de Porão, CPM 22, Dead Fish, Dance of Days e semelhantes carregavam um simbolismo para profissionais e admiradores daquela cultura comparável ao que o CBGB tinha para Manhattan, a cidade de Nova Iorque e todo o mundo musical.

No DVD, a Hateen toca 24 músicas, iniciando por Obrigado Tempestade, faixa que dá nome ao álbum lançado em 2011, o quinto do grupo, e encerrando com 1997. Integrante do disco Procedimentos de Emergência (Arsenal/Universal, 2006) – o quarto em ordem cronológica, mas primeiro cantado em português –, foi esta música que alçou a banda a um lugar mais pop, fazendo, por exemplo, com que seu videoclipe permanecesse por semanas entre os mais assistidos na antiga MTV brasileira.

Entre elas, por volta da metade da apresentação, há um bloco todo dedicado à fase inicial da banda, quando compunham e cantavam em inglês, sob influência ainda mais escancarada do punk rock e do hardcore gringo. São elas You've Gone Too Far, Silence Be My Friend, Big Life e MR Oldman, todas presentes nos registros gravados entre 1996 e 2004.

Fato é que o Obrigado Hangar recentemente deixou de ter certa conotação melancólica e se tornou uma total celebração, já que em 1º de março deste ano as redes sociais do quartel general do punk rock hardcore brasileiro perpetuaram a notícia de que o número 110 da Rua Rodolfo Miranda, no bairro paulistano do Bom Retiro, voltaria a abrigar o Hangar.

“Foram dois anos em que o Hangar atuou somente como uma produtora de eventos na The House e em outras casas de shows, mas nesse período sentimos muita falta do contato que sempre tivemos com as pessoas com quem convivemos nesse lugar: frequentadores, músicos, produtores e uma infinidade de amigos que fizemos ao longo de duas décadas”, diz parte do comunicado assinado por Marco e Cilmara, os proprietários da casa.

Que os shows da Hateen, de Black Alien e dos tantos que têm dividido um pouco de sua arte com o mundo nos ajudem a atravessar mais facilmente o momento mais estranhamente perturbador para o futuro do mercado cultural no último século.

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